
Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski nasceu em Moscou em 11 de novembro de 1821 (30 de outubro, pelo calendário juliano) e morreu em São Petersburgo em 9 de fevereiro de 1881 (28 de janeiro, no calendário juliano). Estreou na literatura com Gente Pobre (1846). Em 1849 foi preso por sua ligação com o círculo de Petrachévski, simulou-se sua execução e a pena foi comutada em trabalhos forçados na Sibéria, em Omsk (1850–1854), seguidos de serviço militar. A experiência da prisão, descrita em Memórias da Casa dos Mortos (1860–1862), e seu retorno à fé cristã ortodoxa marcaram profundamente sua obra posterior.
Dostoiévski não escreveu tratados filosóficos, mas seus romances encenam, por meio de personagens que encarnam posições antagônicas, os grandes problemas da filosofia moderna. Em Memórias do Subsolo (1864), o narrador rebela-se contra o racionalismo e o utilitarismo que identificam o ser humano a um cálculo de interesses, afirmando a vontade e o capricho como expressão da liberdade. Em Crime e Castigo (1866), Raskólnikov testa a ideia de que homens “extraordinários” estariam autorizados a transgredir a moral, e o romance examina as consequências psicológicas e espirituais dessa tese. Em O Idiota (1868–1869), explora a figura de um homem de bondade radical num mundo dominado pelo interesse. Em Os Demônios (1871–1872), analisa a face política do niilismo e o fanatismo revolucionário. Em Os Irmãos Karamázov (1879–1880), sua obra final, a questão do mal e do sofrimento dos inocentes, formulada por Ivan, e a lenda do Grande Inquisidor confrontam a fé com a revolta, a liberdade com a segurança.
Conceitos-chave
- Liberdade e o “homem do subsolo” — crítica ao determinismo racionalista e à ideia de que o ser humano agiria sempre segundo o próprio interesse esclarecido.
- Niilismo e suas consequências — representado em Raskólnikov, Stavróguin e Ivan Karamázov, o niilismo é submetido a uma prova existencial e moral.
- O problema do mal e o sofrimento dos inocentes — em Ivan Karamázov, a recusa moral de aceitar uma harmonia futura que custe o sofrimento de uma criança.
- O Grande Inquisidor — parábola em Os Irmãos Karamázov sobre liberdade, autoridade e o peso da escolha humana.
- Polifonia — categoria proposta por Mikhail Bakhtin em Problemas da Obra de Dostoiévski (1929), reelaborado como Problemas da Poética de Dostoiévski (1963), para descrever a coexistência de vozes autônomas, nenhuma subordinada à voz do autor.
- Fé, culpa e redenção pelo sofrimento — temas ligados à espiritualidade ortodoxa, centrais na figura do stárets Zósima.
Influenciado por
- Aleksandr Púchkin e Nikolai Gógol — matrizes da literatura russa que o formou
- Friedrich Schiller — leitura da juventude, de grande importância em sua formação
- Cristianismo ortodoxo e o Evangelho — fonte espiritual de sua obra madura
- Honoré de Balzac — sobretudo no início da carreira
Influenciou
- Friedrich Nietzsche — que descobriu Dostoiévski em 1887, numa tradução francesa de Memórias do Subsolo, e em Crepúsculo dos Ídolos (1888) o chamou de o único psicólogo com quem tinha algo a aprender
- Mikhail Bakhtin — teoria do romance polifônico
- Nikolai Berdiáev e Liev Chestov — leituras religiosas e existenciais de sua obra
- Sigmund Freud — ensaio “Dostoiévski e o parricídio” (1928)
- Existencialismo — Albert Camus (que adaptou Os Demônios para o teatro, 1959) e Jean-Paul Sartre dialogaram com seus temas
Obras
Gente Pobre (1846); Memórias da Casa dos Mortos (1860–1862); Memórias do Subsolo (1864); Crime e Castigo (1866); O Idiota (1868–1869); Os Demônios (1871–1872); Diário de um Escritor (1873–1881); Os Irmãos Karamázov (1879–1880).
Ver também
Nikolai Berdiáev, Mikhail Bakhtin, Liev Chestov, Friedrich Nietzsche, Existencialismo, Filosofia Russa