Filon de Alexandria
Filon de Alexandria

Nota sobre datação: as datas de Fílon não são conhecidas com precisão; sua vida é estimada entre c. 25/15 a.C. e c. 45/50 d.C., tendo como ponto de referência firmemente datado a embaixada que liderou a Calígula em 39/40 d.C., relatada em Legatio ad Gaium.

Fílon de Alexandria — em latim Philo Iudaeus, “Fílon o Judeu” — foi um pensador judeu helenístico, oriundo de uma das famílias mais ricas e influentes da diáspora judaica de Alexandria. Cidadão romano, contemporâneo de Jesus, Sêneca e dos primeiros imperadores júlio-claudianos, escreveu inteiramente em grego e operou no cruzamento de duas tradições: o judaísmo bíblico e a filosofia grega — especialmente o platonismo médio, o estoicismo e o pitagorismo. Em 38 d.C. Alexandria foi palco de violentos ataques antijudaicos sob o governo de Aulo Avílio Flaco (narrados em In Flaccum), e em 39/40 d.C. Fílon liderou a delegação dos judeus de Alexandria que se dirigiu a Roma para apresentar queixas a Calígula. Atenção: Fílon é frequentemente classificado, de modo impreciso, como “neoplatônico”; rigorosamente, ele é pré-neoplatônico — anterior a Plotino em mais de dois séculos — e deve ser situado no platonismo médio.

Conceitos-chave

  • Exegese alegórica (Legum allegoriae, De opificio mundi): a Torá, sob a letra histórica, contém um sentido filosófico oculto. Personagens patriarcais como Abraão e Moisés são lidos como tipos das virtudes e da ascensão da alma a Deus.
  • Deus transcendente e inefável (De opificio mundi §16–25): Deus é absolutamente outro, sem atributos antropomórficos; conhecemos que Ele é, não o que Ele é. Esta tese irá ressoar na patrística e na teologia negativa.
  • Logos como mediador (Legum allegoriae III; De opificio mundi): entre o Deus transcendente e o mundo criado, Fílon postula o Logos, descrito como “Primogênito de Deus”, “Segundo Deus”, “imagem de Deus” e instrumento da criação. Não é hipóstase autônoma à maneira de Plotino, mas um princípio mediador.
  • Criação do mundo (De opificio mundi): leitura do Gênesis em diálogo com o Timeu de Platão; Deus cria primeiro o mundo inteligível (modelo) e depois o sensível (cópia), unindo a doutrina judaica da criação à cosmologia platônica.
  • Vida contemplativa e ascensão da alma (De vita contemplativa, De Mosis): a alma virtuosa percorre estágios desde a sensibilidade até a visão de Deus; Moisés é o paradigma do sábio que ascende ao monte.
  • Lei natural e Decálogo (De decalogo, De specialibus legibus): a Lei mosaica é apresentada como concretização particular de uma lei racional universal, em sintonia com o estoicismo.
  • Providência e mal (Quod Deus immutabilis sit, De providentia): defesa da imutabilidade divina e da providência, com leitura alegórica das passagens bíblicas que parecem atribuir paixões a Deus.

Influenciado por

  • Platão — Timeu, doutrina das Ideias, mundo inteligível
  • Estoicismo — Logos, lei natural, providência
  • Pitagorismo — simbologia dos números, especialmente o sete
  • Aristóteles — vocabulário lógico, embora menos central
  • Tradição rabínica de Alexandria — exegese da Torá em grego (Septuaginta)

Influenciou

  • Patrística grega: Clemente de Alexandria e Orígenes adotam abertamente a exegese alegórica filônica
  • Patrística latina: Ambrósio e, indiretamente, Agostinho
  • Doutrinas cristãs do Logos (embora o Logos joânico tenha origem própria, a confluência conceitual é evidente)
  • Cabalá medieval (analogias estruturais)
  • História da teologia negativa e da metafísica medieval

Obras

Todas em grego, preservadas em boa parte graças à transmissão cristã. Principais: De opificio mundi (Sobre a criação do mundo), Legum allegoriae (Alegoria das Leis), De vita Mosis (Vida de Moisés), De decalogo (Sobre o Decálogo), De specialibus legibus (Sobre as leis especiais), Quod Deus immutabilis sit (Que Deus é imutável), De vita contemplativa (Sobre a vida contemplativa, descrevendo os Terapeutas), In Flaccum (Contra Flaco) e Legatio ad Gaium (Embaixada a Caio).

Ver também

Platão; Plotino; Aristóteles