
Étienne Gilson nasceu em Paris em 13 de junho de 1884 e morreu em Cravant, na Borgonha, em 19 de setembro de 1978. Formado na Sorbonne, onde teve entre seus mestres o sociólogo Lucien Lévy-Bruhl, defendeu em 1913 uma tese sobre a liberdade em Descartes e sua relação com a teologia escolástica, o que o levou a estudar de perto as fontes medievais do pensamento moderno. Foi professor em Lille, Estrasburgo e na Sorbonne e, a partir de 1932, ocupou a cátedra de filosofia medieval no Collège de France, que deixou em 1951. Proferiu em Aberdeen as Gifford Lectures de 1931–1932, publicadas como L’Esprit de la philosophie médiévale (1932). Em 1929 contribuiu para a fundação, em Toronto, do Institut d’études médiévales (mais tarde Pontifical Institute of Mediaeval Studies), onde ensinou por longos períodos. Foi eleito para a Académie française em 1946.
Gilson combinou a erudição histórica com uma tese filosófica própria: lendo Tomás de Aquino, defendeu que a originalidade da metafísica tomista está em tratar o ser (esse) como ato de existir, e não como mera essência.
Conceitos-chave
- Tomismo existencial — leitura segundo a qual, em Tomás de Aquino, o esse (ato de ser) é anterior e irredutível à essência; a tradição posterior teria, em grande parte, “esquecido” essa primazia e recaído em essencialismos (exposto em L’être et l’essence, 1948, e Being and Some Philosophers, 1949).
- Filosofia cristã — tese de que a revelação cristã, sem se confundir com a razão, deu à filosofia medieval problemas e orientações que a razão sozinha não formulara; o tema foi alvo de debate com historiadores e filósofos franceses no início dos anos 1930 (entre eles Émile Bréhier e Léon Brunschvicg) e é central em L’Esprit de la philosophie médiévale.
- Metafísica do Êxodo — expressão associada à leitura de Ex 3,14 (“Eu sou aquele que sou”) como fundamento de uma metafísica do ser que identifica Deus ao puro ato de existir.
- Realismo metódico — em Le réalisme méthodique (1935) e Réalisme thomiste et critique de la connaissance (1939), defendeu que o realismo parte do conhecimento do ente e não pode ser fundado pelo método cartesiano, que começa pelo pensamento; por isso criticou as tentativas de partir do sujeito transcendental, entre elas a de Joseph Maréchal.
- Unidade da experiência filosófica — em The Unity of Philosophical Experience (1937), a ideia de que a história da filosofia exibe uma regularidade na qual certas escolhas metafísicas produzem consequências comparáveis, de modo que os erros se repetem.
Influenciado por
- Tomás de Aquino, principal referência sistemática
- Duns Scotus, Avicena e Boaventura, estudados em monografias históricas (como La philosophie de saint Bonaventure, 1924, e Jean Duns Scot, 1952)
- René Descartes, objeto de sua formação histórica e interlocutor crítico permanente
- Lucien Lévy-Bruhl, seu mestre na Sorbonne
Influenciou
- O renascimento dos estudos medievais no século XX, em especial pelo Pontifical Institute of Mediaeval Studies, de Toronto
- Estudiosos formados na órbita de Toronto, como Anton Pegis, Armand Maurer e Joseph Owens
- O debate sobre a relação entre filosofia e teologia e sobre o conceito de “filosofia cristã”
- O tomismo existencial posterior, que adotou a distinção entre essência e ato de ser como chave de leitura de Tomás
Obras
La liberté chez Descartes et la théologie (1913); Le Thomisme (1919); La philosophie de saint Bonaventure (1924); Introduction à l’étude de saint Augustin (1929); L’Esprit de la philosophie médiévale (1932); The Unity of Philosophical Experience (1937); Réalisme thomiste et critique de la connaissance (1939); L’être et l’essence (1948); Being and Some Philosophers (1949); Jean Duns Scot (1952); History of Christian Philosophy in the Middle Ages (1955).
Ver também
Jacques Maritain, Antonin Sertillanges, Joseph Maréchal, Josef Pieper, Santo Agostinho