
Ernst Cassirer nasceu em Breslau (atual Wrocław, Polônia) em 28 de julho de 1874 e morreu em Nova York em 13 de abril de 1945. Formado na tradição neokantiana da Escola de Marburg — cujos pilares eram Hermann Cohen e Paul Natorp —, Cassirer começou a vida intelectual editando textos de Leibniz e estudando os fundamentos lógicos das ciências exatas. Mas o projeto que o tornaria singular na filosofia do século XX foi uma ampliação radical da herança kantiana: onde Kant havia perguntado pelas condições de possibilidade do conhecimento científico, Cassirer perguntou pelas condições de possibilidade de toda forma de sentido humano — do mito à linguagem, da arte à ciência. Essa reorientação resultou na monumental Filosofia das Formas Simbólicas (3 vols., 1923–1929), obra que transformou a epistemologia neokantiana em uma filosofia da cultura de alcance antropológico.
A trajetória de Cassirer é também uma trajetória de exílios. Catedrático em Hamburgo a partir de 1919, foi o primeiro reitor judeu de uma universidade alemã (1929–1930). Com a ascensão do nazismo, emigrou em 1933, passando por Oxford, pela Universidade de Gotemburgo (1935–1941), por Yale e, por fim, pela Columbia University. Nas obras escritas no exílio — em especial An Essay on Man (1944) e o póstumo The Myth of the State (1946) — Cassirer voltou o arsenal conceitual da filosofia das formas simbólicas para o diagnóstico da crise política do século XX. Morreu poucos dias depois de participar de um simpósio em Columbia, em abril de 1945.
Conceitos-chave
Filosofia das Formas Simbólicas — A tese central de Cassirer é que o espírito humano não acessa a realidade de modo direto, mas sempre por meio de formas simbólicas: sistemas de signos e estruturas de sentido pelos quais a experiência é organizada e o mundo, constituído. O mito, a linguagem, a religião, a arte e a ciência não são descrições mais ou menos acertadas de uma realidade prévia; são formas distintas de constituição simbólica do real, cada uma com sua lógica interna. A grande obra em três volumes examina a linguagem (vol. I), o pensamento mítico (vol. II) e o conhecimento científico — a fenomenologia do conhecimento — (vol. III).
Animal symbolicum — No Ensaio sobre o Homem (1944), Cassirer propõe que a definição clássica do ser humano como animal rationale é insuficiente: a razão é apenas uma das funções simbólicas do espírito. A definição mais exata é animal symbolicum — o ser que vive não diretamente no universo físico, mas num universo simbólico de linguagem, mito, arte e ciência. Essa fórmula concentra a antropologia filosófica cassireana e influenciou decisivamente filósofas como Susanne Langer.
Crítica da cultura como extensão da crítica kantiana — Para Cassirer, Kant havia realizado uma Crítica da Razão Pura e uma Crítica da Razão Prática; o que faltava era uma crítica da cultura, que investigasse as condições de possibilidade não apenas do conhecimento científico mas de toda forma de significação humana. A filosofia das formas simbólicas é essa crítica da cultura.
Mito como forma simbólica autônoma — Contra a tendência iluminista de tratar o mito como ciência primitiva ou superstição a ser superada, Cassirer argumenta que o pensamento mítico possui uma lógica própria — fisiognômica, centrada em forças pessoais e no sagrado — irredutível à lógica científica. Essa dignificação do mito como forma legítima do espírito tem, no entanto, uma contrapartida política: em O Mito do Estado (1946), Cassirer analisa como os mitos políticos modernos (fascismo, nazismo) instrumentalizam a lógica mítica para fins de dominação.
Debate de Davos (1929) — Em março de 1929, em Davos (Suíça), Cassirer e Heidegger travaram um célebre debate público sobre a interpretação de Kant e sobre o destino da filosofia. Para Cassirer, Kant era o defensor de uma razão universal e de um humanismo cosmopolita; para Heidegger, o que importava em Kant era a finitude, a temporalidade e a analítica do Dasein. O debate tornou-se um símbolo do confronto entre o neokantismo humanista e a ontologia fundamental heideggeriana.
Filosofia do Iluminismo — Em A Filosofia do Iluminismo (Die Philosophie der Aufklärung, 1932), Cassirer oferece uma análise sistemática do pensamento europeu do século XVIII, argumentando que o Iluminismo não foi apenas uma época de otimismo raso, mas um programa de crítica racional que abrangeu ciência, religião, política, estética e filosofia da história.
Influenciado por
- Kant — fundamento de toda a filosofia cassireana: a pergunta pelas condições de possibilidade do conhecimento e a ideia de que o sujeito constitui o objeto
- Hermann Cohen — fundador da Escola de Marburg; o neokantismo como filosofia do conhecimento científico
- Paul Natorp — mestre direto de Cassirer em Marburg; lógica das ciências e psicologia genética
- Wilhelm Dilthey — filosofia da cultura e das ciências do espírito como campo filosófico legítimo
- Hegel — conceito de espírito objetivo e as realizações culturais como auto-objetivação do espírito; Cassirer é mais crítico que herdeiro de Hegel, mas a influência estrutural é reconhecível
Influenciou
- Susanne Langer — discípula direta; Philosophy in a New Key (1942) e Feeling and Form (1953) desenvolvem a teoria cassireana das formas simbólicas no campo da filosofia da arte e da mente
- Nelson Goodman — Linguagens da Arte (1968) e a ideia de “maneiras de fazer mundos” dialogam com a constituição simbólica da realidade em Cassirer
- Filosofia da cultura e antropologia filosófica do século XX — o conceito de animal symbolicum tornou-se referência canônica
- Estudos sobre o Iluminismo — sua Filosofia do Iluminismo permanece referência historiográfica fundamental
Obras
Leibniz’ System in seinen wissenschaftlichen Grundlagen (1902); Das Erkenntnisproblem in der Philosophie und Wissenschaft der neueren Zeit (O Problema do Conhecimento na Filosofia e na Ciência da Era Moderna, 4 vols., 1906–1957); Substanzbegriff und Funktionsbegriff (Substância e Função, 1910); Philosophie der symbolischen Formen (A Filosofia das Formas Simbólicas, 3 vols.: vol. I, 1923; vol. II, 1925; vol. III, 1929); Die Philosophie der Aufklärung (A Filosofia do Iluminismo, 1932); An Essay on Man (Ensaio sobre o Homem, 1944); The Myth of the State (O Mito do Estado, 1946, póstumo).
Ver também
Kant; Heidegger; Susanne Langer; Hermann Cohen; Wilhelm Dilthey; Neokantismo; Filosofia da Cultura
Livros indicados:
The Philosophy of Symbolic Forms, Vol. 1 — Ernst Cassirer (Yale UP)
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