
Eric Voegelin nasceu em Colônia, Alemanha, em 3 de janeiro de 1901, e morreu em Stanford, Califórnia, em 19 de janeiro de 1985. Criado em Viena, doutorou-se em 1922 na Universidade de Viena, sob orientação de Hans Kelsen e Othmar Spann, e ali lecionou até o Anschluss de 1938, quando emigrou para os Estados Unidos. Lecionou na Louisiana State University (de 1942 a 1958), retornou à Alemanha para ocupar a cátedra de ciência política da Universidade de Munique (1958–1969) e passou seus últimos anos no Hoover Institution, em Stanford.
Voegelin rompeu com o positivismo metodológico que marcara sua formação, em particular com a separação rígida entre fatos e valores, e propôs uma ciência política orientada para a “experiência da ordem”: a investigação de como sociedades se interpretam a si mesmas por meio de símbolos que expressam sua relação com a transcendência. Essa orientação percorre sua obra, de As Religiões Políticas (1938) a Ordem e História.
Conceitos-chave
- Gnosticismo moderno — em A Nova Ciência da Política (1952), originalmente as Walgreen Lectures de Chicago, Voegelin interpreta movimentos como o progressismo, o positivismo, o marxismo e o nacional-socialismo como variantes de um impulso gnóstico: a convicção de que o mundo é defeituoso e pode ser salvo por conhecimento e ação humana.
- Imanentização do eschaton — formulação associada a Voegelin para designar a tentativa de realizar, dentro da história, a plenitude escatológica que a tradição cristã situa além dela; o que a tradição reservava à transcendência é projetado em programas políticos intramundanos.
- Representação — a Nova Ciência distingue representação elementar (jurídica) de representação existencial e transcendental, na qual a sociedade se torna representável por símbolos que a ordenam em relação ao fundamento do ser.
- Experiências e simbolização — civilizações exprimem experiências da ordem por símbolos “compactos” (mito) ou “diferenciados” (filosofia, revelação); em Ordem e História (1956–1987) acompanha essa diferenciação em Israel, na Grécia e no cosmo imperial, com a noção de “salto no ser”.
- O entre (metaxy) — recuperado de Platão, designa a condição humana como tensão entre imanência e transcendência, finito e infinito.
- Anamnese — recordação da consciência de si e de sua abertura à transcendência, tema de Anamnesis (1966).
- Segunda realidade — noção que Voegelin usa para a construção ideológica que substitui a realidade vivida por uma imagem fechada.
Críticas
Historiadores do gnosticismo antigo contestam o uso amplo do termo e sua extensão à modernidade. Hans Blumenberg, em A Legitimidade da Era Moderna, rejeitou a tese de que a modernidade seja uma retomada do gnosticismo. Outros apontam o caráter normativo e teológico de sua diagnose, que dificultaria a falseabilidade, e a dificuldade de enquadrar movimentos históricos muito diversos sob uma única categoria. Houve também polêmica com Hannah Arendt a propósito de As Origens do Totalitarismo, em troca de textos publicada na Review of Politics (1953).
Influenciado por
- Platão e Aristóteles — ordem da alma e ordem da cidade, metaxy
- Santo Agostinho — dimensão simbólica e histórica da ordem
- Bergson — abertura da consciência à transcendência, em suas leituras
- Hans Kelsen — orientador de doutorado, de quem se afastou por rejeitar o positivismo jurídico
Influenciou
- A recepção em ciência política e teologia política, em especial na tradição conservadora americana
- Estudos sobre religiões políticas e totalitarismo
- O diálogo com Leo Strauss, com quem manteve extensa correspondência
Obras
Die politischen Religionen (1938); A Nova Ciência da Política (The New Science of Politics, 1952); Order and History (5 vols.: Israel and Revelation, 1956; The World of the Polis, 1957; Plato and Aristotle, 1957; The Ecumenic Age, 1974; In Search of Order, 1987); Wissenschaft, Politik und Gnosis (1959; Science, Politics and Gnosticism, 1968); Anamnesis (1966).
Ver também
Platão, Hans Kelsen, Leo Strauss, Hannah Arendt, Carl Schmitt, Santo Agostinho