
Nascido em Mendoza, na Argentina, em 1934, Enrique Dussel teve formação cosmopolita — estudou na Argentina, na Espanha, na França e na Alemanha, e pesquisou também a história da Igreja na América Latina. Após um atentado a bomba contra sua casa, exilou-se no México em 1975, onde se naturalizou e viveu até sua morte, em 2023. É o principal nome da Filosofia da Libertação latino-americana e uma referência central do pensamento decolonial.
Sua filosofia parte de uma denúncia: a Modernidade europeia, que se apresenta como universal, nasceu de fato em 1492, com a conquista da América — não uma “descoberta”, mas o “encobrimento do Outro”, o início de uma dominação colonial que a própria razão moderna mascara. Contra esse eurocentrismo, Dussel propõe filosofar a partir da exterioridade: o ponto de partida não é o “Eu penso” europeu, mas o Outro excluído — o pobre, o índio, a mulher, o colonizado.
A essa virada ele dá o nome de analética (em contraste com a dialética hegeliana, que tende a absorver o Outro no Mesmo) e a desenvolve numa vasta ética da libertação, em diálogo crítico com Habermas e a ética do discurso, tendo a vida humana concreta como critério último. Sua proposta de uma transmodernidade — não anti-moderna, mas que incorpora criticamente a Modernidade desde as culturas silenciadas — influenciou Paulo Freire, a Teologia da Libertação e os estudos decoloniais de Mignolo e Quijano.
Conceitos-chave
- Filosofia da Libertação (Filosofía de la liberación, 1977): filosofia comprometida com a transformação das condições de exclusão, partindo do Outro
- Analética: reconhecimento da exterioridade irredutível do Outro, além da dialética hegeliana que absorve o Outro no Mesmo
- Encobrimento da Modernidade (1492: El encubrimiento del Otro, 1992): 1492 é o momento inaugural da Modernidade como dominação colonial, não simples “descoberta”
- Transmodernidade: incorporação crítica das conquistas da Modernidade a partir das culturas excluídas — superação por inclusão
- Ética da Libertação (Ética de la liberación, 1998): ética a partir da vida humana como critério fundamental, em diálogo crítico com Apel e Habermas
Influenciado por
- Lévinas — filosofia da alteridade e ética do Outro
- Heidegger — fenomenologia (incorporada criticamente)
- Marx — crítica da economia política
- Karl-Otto Apel e Habermas — ética do discurso (diálogo crítico)
- Leopoldo Zea e Augusto Salazar Bondy — debate filosófico latino-americano
Influenciou
- Pensamento descolonial (Mignolo, Maldonado-Torres)
- Teologia da Libertação
- Teorias críticas latino-americanas contemporâneas
Obras
Filosofía de la liberación (1977); El encubrimiento del Otro (1992); Ética de la liberación en la edad de la globalización y de la exclusión (1998); Política de la liberación (2 vols., 2007–2009); Filosofías del Sur (2016).
Ver também
Filosofia Latino-americana Paulo Freire Leopoldo Zea
Livros indicados:
Ética de la liberación en la edad de la globalización y de la exclusión — Enrique Dussel
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