Elizabeth Anscombe
Elizabeth Anscombe

Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe (1919–2001) foi uma das mais originais filósofas analíticas do século XX. Aluna e amiga próxima de Ludwig Wittgenstein em Cambridge, tornou-se uma de suas executoras literárias e traduziu para o inglês as Investigações Filosóficas (Philosophical Investigations, 1953), tradução até hoje canônica. Católica convicta, uniu o rigor da tradição analítica a uma sensibilidade aristotélico-tomista que marcaria toda a sua obra. Sua monografia Intention (1957) é amplamente reconhecida como o texto fundador da filosofia da ação contemporânea, enquanto o artigo “Modern Moral Philosophy” (1958) é apontado como o ponto de partida do revival da ética da virtude no mundo anglófono. Lecionou em Oxford e, a partir de 1970, ocupou a cátedra de filosofia em Cambridge que pertencera a Wittgenstein.

Conceitos-chave

  • Ação intencional sob descrições (Intention, 1957): uma mesma ação pode ser descrita de muitos modos, e ela é intencional apenas sob certas descrições. A pergunta decisiva é aquela cuja resposta dá a razão do agente — a célebre pergunta “Por quê?” aplicada à ação.
  • Conhecimento prático (Intention, 1957): Anscombe retoma a noção de que o agente possui um conhecimento de sua própria ação que não se baseia na observação (knowledge without observation). Esse conhecimento é “a causa daquilo que entende”, invertendo a direção do conhecimento meramente contemplativo.
  • Crítica ao “dever” moral (“Modern Moral Philosophy”, 1958): os conceitos modernos de “obrigação moral” e “dever moral” (o moral “ought”) são resquícios de uma concepção legalista da ética — herdada da tradição que pressupõe um legislador divino — que sobreviveram à perda dessa moldura. Sem o legislador, tornam-se expressões sem conteúdo claro e deveriam ser abandonados.
  • Retorno à virtude (“Modern Moral Philosophy”, 1958): no lugar do vocabulário do dever, Anscombe propõe recuperar conceitos como justiça, coragem e desonestidade, e sustenta que a ética só pode avançar quando precedida por uma adequada filosofia da psicologia (intenção, prazer, desejo, querer).
  • Cunhagem de “consequencialismo” (“Modern Moral Philosophy”, 1958): foi Anscombe quem introduziu o termo consequentialism para designar — e criticar — as éticas que avaliam a ação apenas por suas consequências previsíveis, recusando proibições absolutas.
  • Doutrina do duplo efeito: defendeu a distinção, de raiz tomista, entre o que se pretende como meio ou fim e o que se prevê apenas como efeito colateral, distinção central em sua oposição a atos como o assassinato de inocentes.

Influenciado por

  • Ludwig Wittgenstein — mestre, amigo e principal influência filosófica
  • Aristóteles — psicologia da ação e ética das virtudes
  • Tomás de Aquino — raciocínio prático e doutrina do duplo efeito
  • Frege — através do ambiente analítico de Cambridge

Influenciou

  • Philippa Foot — interlocutora e amiga; revival da ética da virtude
  • Alasdair MacIntyre — retomada da ética aristotélica
  • Bernard Williams — crítica à moralidade do “dever”
  • Donald Davidson — filosofia da ação (em diálogo crítico)

Obras

A obra mais influente de Anscombe é Intention (1957), breve monografia que reorientou os estudos sobre ação, intenção e raciocínio prático. O artigo “Modern Moral Philosophy” (1958), publicado na revista Philosophy, teve impacto desproporcional ao seu tamanho, redefinindo a agenda da ética anglófona. Sua tradução das Philosophical Investigations (1953) de Wittgenstein e os volumes que ajudou a editar a partir do espólio do mestre foram decisivos para a recepção da filosofia tardia de Wittgenstein. Seus numerosos ensaios — sobre causalidade, a primeira pessoa, percepção e ética — foram reunidos em coletâneas de Collected Philosophical Papers (1981).

Ver também

Wittgenstein, Philippa Foot, Alasdair MacIntyre