
Edward Wadie Said (1935–2003) foi um crítico literário e teórico cultural palestino-americano. Nasceu em Jerusalém sob o Mandato Britânico, em família cristã palestina; foi criado entre Jerusalém e o Cairo, formou-se em Princeton e Harvard, e ensinou literatura comparada na Universidade Columbia de 1963 até sua morte. Sua obra Orientalism (1978; Orientalismo) é considerada texto fundador dos estudos pós-coloniais: ali, mobilizando Foucault (discurso/poder) e Gramsci (hegemonia), Said sustenta que o “Oriente” não é uma região neutra do mundo, mas uma construção do discurso ocidental que produz seu objeto e legitima a dominação colonial. Said foi também um intelectual público de primeira grandeza: membro do Conselho Nacional Palestino entre 1977 e 1991, defensor da causa palestina, modelo influente do “intelectual exilado” e dissidente.
Conceitos-chave
- Orientalismo (Orientalism, 1978): conjunto historicamente estruturado de saberes, instituições e representações pelas quais o Ocidente produz o “Oriente” como seu Outro essencial — atrasado, despótico, sensual, feminilizado — e, por meio dessa produção, autoriza-se a governá-lo.
- Discurso colonial (Orientalism, 1978): leitura foucaultiana segundo a qual filologia, literatura, antropologia e administração colonial formam uma rede de poder-saber, e não simples descrições de uma realidade preexistente.
- Geografias imaginativas (Orientalism, 1978): a divisão do mundo em “nós” e “eles”, produzida culturalmente, que precede e enquadra qualquer encontro empírico com o outro.
- Filiação e afiliação (The World, the Text, and the Critic, 1983): par conceitual que distingue os vínculos por natureza ou nascimento (filiation) dos vínculos eletivos e críticos (affiliation) construídos pelo intelectual no mundo.
- Cultura e império (Culture and Imperialism, 1993): a alta cultura europeia — incluindo o romance realista de Austen a Conrad — não é exterior à empresa imperial: é parcialmente constituída por ela e contribui para sua naturalização.
- Intelectual exilado (Representations of the Intellectual, 1994): figura do crítico que recusa a integração confortável, dirige-se a um público amplo, fala em nome dos ausentes do poder e mantém uma posição de “outsider” mesmo dentro da academia.
- Leitura contrapontística (Culture and Imperialism, 1993): método de leitura que recupera, ao lado do cânone metropolitano, as histórias coloniais que ele silencia, tratando-as como vozes simultâneas e em contraponto.
Influenciado por
- Foucault — análise do discurso e do nexo poder-saber
- Gramsci — hegemonia cultural e o intelectual orgânico
- Erich Auerbach — Mimesis e a filologia comparada como exílio
- Vico — a história como produto humano (verum-factum)
Influenciou
- Gayatri Spivak — estudos subalternos e crítica pós-colonial
- Homi Bhabha — hibridismo e mimetismo colonial
- Achille Mbembe — pós-colônia africana
- Talal Asad — antropologia da religião e do secular
- Estudos pós-coloniais como campo institucional
Obras
Antes de Orientalism (1978), Said publicara Beginnings: Intention and Method (1975), reflexão metodológica sobre o que significa começar uma obra. The Question of Palestine (1979) e Covering Islam (1981) prolongam politicamente o argumento do Orientalism. The World, the Text, and the Critic (1983) reúne ensaios sobre crítica literária e mundanidade. Culture and Imperialism (1993) é o complemento e a contraparte mais ambiciosa de Orientalism. As Reith Lectures de 1993 foram publicadas como Representations of the Intellectual (1994). Out of Place (1999) é a memória de sua infância palestino-egípcia.
Ver também
Foucault, Gayatri Spivak, Frantz Fanon