Édouard Glissant
Édouard Glissant

Édouard Glissant (21 de setembro de 1928, Sainte-Marie, Martinica — 3 de fevereiro de 2011, Paris) foi poeta, romancista, ensaísta e filósofo, uma das maiores figuras do pensamento caribenho e da teoria pós-colonial de língua francesa. Aluno do Lycée Schœlcher, onde teve Aimé Césaire entre seus professores, estudou depois filosofia na Sorbonne e etnografia no Musée de l’Homme, em Paris. Recebeu o Prêmio Renaudot em 1958 pelo romance La Lézarde. Toda a sua obra — atravessando poesia, ficção e filosofia — gira em torno de uma intuição: a de que a identidade não se funda numa raiz única, mas numa relação sempre aberta com o outro. Contra as filosofias da pureza e da origem, Glissant pensou o Caribe — terra da plantação, do desenraizamento e da mistura forçada — como laboratório de uma humanidade por vir.

Conceitos-chave

  • Antilhanidade (Antillanité): respeitando a Négritude de Césaire, Glissant a julgava ainda presa a uma origem africana essencial. Ele propõe, em contrapartida, afirmar a condição especificamente caribenha — um lugar feito de encontros, de raízes múltiplas e da experiência traumática da plantação —, em vez de remeter a identidade a uma África idealizada.
  • Crioulização (créolisation): o processo imprevisível e criativo pelo qual culturas postas em contato produzem algo genuinamente novo, irredutível à soma de seus componentes. Glissant distingue a crioulização do simples mestiçamento (que pressuporia origens puras a combinar) e a estende a todo o planeta: o mundo inteiro, hoje, “se crioluza”.
  • Poética da Relação (Poétique de la Relation, 1990): à identidade-raiz (identité-racine) — única, fixa, excludente, que historicamente serviu para legitimar a conquista —, Glissant opõe a identidade-rizoma (identité-rhizome, noção que toma de empréstimo a Deleuze e Guattari): uma identidade que só existe em relação ao outro, aberta, múltipla, sem centro nem origem soberana.
  • O direito à opacidade (le droit à l’opacité): contra a exigência ocidental de “transparência” — compreender, classificar e reduzir o outro às próprias categorias —, Glissant reivindica o direito de toda pessoa e de toda cultura a permanecerem opacas, irredutíveis, não inteiramente decifráveis. Formulado já no Discurso antilhano (1981) e retomado na Poética da Relação, é um princípio ético: posso conviver com o outro sem precisar dissolvê-lo no que entendo dele.
  • O Todo-Mundo (le Tout-Monde) e o Diverso (le Divers): a totalidade das culturas do planeta em inter-relação imprevisível (o chaos-monde); Glissant celebra o Diverso — herança que reconhece em Victor Segalen — contra a uniformização do Mesmo.

Relação com a créolité

O manifesto Éloge de la créolité (Elogio da crioulidade, 1989), de Jean Bernabé, Patrick Chamoiseau e Raphaël Confiant, inspirou-se abertamente em Glissant. Ele, porém, manteve distância crítica: preferia a crioulização — processo aberto e inacabado — à crioulidade (créolité), que, a seu ver, arriscava cristalizar-se numa nova essência ou identidade fixa, traindo justamente a abertura que ele buscava pensar.

Influenciado por

  • Aimé Césaire — seu professor, por continuidade e por distância crítica em relação à Négritude
  • Deleuze e Félix Guattari — rizoma, multiplicidade
  • William Faulkner — a saga do Sul e a “terra impossível” (Glissant lhe dedicou Faulkner, Mississippi, 1996)
  • Victor Segalen — o Diverso e a “estética do diverso”
  • Saint-John Perse — a poética do mundo

Influenciou

  • Os estudos caribenhos e pós-coloniais
  • Os escritores da créolité (Chamoiseau, Confiant)
  • O pensamento descolonial e as teorias da diáspora
  • A arte contemporânea e os debates sobre mundialização cultural

Obras

La Lézarde (romance, 1958, Prêmio Renaudot); Le Discours antillais (Discurso antilhano, 1981); Poétique de la Relation (Poética da Relação, 1990); Faulkner, Mississippi (1996); Traité du Tout-Monde (1997); Philosophie de la Relation (2009).

Ver também

Aimé Césaire, Frantz Fanon, Homi Bhabha