
Donald Davidson foi um dos filósofos analíticos mais originais da segunda metade do século XX. Professor na Universidade da Califórnia em Berkeley a partir de 1981, após passagens por Stanford, Princeton e Rockefeller, Davidson construiu um sistema filosófico notável pela coerência interna: sua filosofia da mente, sua teoria da ação, sua semântica e sua epistemologia estão intimamente conectadas, articuladas em torno de temas como eventos, causalidade, verdade e interpretação.
Conceitos-chave
Monismo Anômalo (Mental Events, publicado em Experience and Theory, 1970): Davidson defende que eventos mentais são idênticos a eventos físicos, mas que essa identidade não implica a existência de leis psicofísicas estritas. O argumento central distingue três teses: (1) há interação causal entre eventos mentais e físicos; (2) eventos causalmente relacionados são cobertos por leis determinísticas; (3) não há leis estritas que conectem descrições mentais e físicas. A solução de Davidson é afirmar que um único evento pode ser descrito tanto em termos mentais quanto em termos físicos — mas que as propriedades mentais são anômalas: não há leis psicofísicas que permitam reduzir o mental ao físico. Trata-se de uma forma de monismo (física é o único domínio causal) e ao mesmo tempo de anomalia (o mental não é redutível a leis físicas).
Eventos como entidades básicas: Antes de defender o monismo anômalo, Davidson havia desenvolvido, em “The Logical Form of Action Sentences” (1967) e em ensaios reunidos em Essays on Actions and Events (1980), uma ontologia em que eventos são particulares concretos, distintos de objetos e de fatos. A individuação de eventos pelo critério causal — dois eventos são idênticos se e somente se têm as mesmas causas e os mesmos efeitos — foi influente e debatida.
Teoria Semântica baseada em Tarski (Truth and Meaning, Synthese, 1967): Davidson propõe que a semântica de uma língua natural pode ser fornecida por uma teoria da verdade à la Tarski — uma teoria que gere, para cada sentença s da língua, uma sentença da forma “s é verdadeira se e somente se p”. Uma teoria dessas não seria apenas uma teoria da verdade, mas daria as condições de verdade de cada sentença, e condições de verdade são o que constitui o significado. Esta proposta estabeleceu a agenda da semântica formal nas décadas seguintes.
Interpretação Radical e Princípio da Caridade: Em “Radical Interpretation” (1973) e em “On the Very Idea of a Conceptual Scheme” (1974 — endereço presidencial à American Philosophical Association), Davidson desenvolve a noção de interpretação radical: imaginar-se na posição de alguém que tenta interpretar a linguagem e as crenças de um falante sem pressupor nenhum conhecimento prévio de seus significados. Nessa situação, o intérprete deve maximizar a coerência e a verdade das crenças do falante — este é o princípio da caridade (principle of charity). A caridade não é apenas uma regra metodológica; é uma condição constitutiva da interpretação: não faz sentido atribuir a alguém crenças maciçamente falsas ou irracionais.
Crítica ao Esquema Conceitual e ao Relativismo Conceitual: Em “On the Very Idea of a Conceptual Scheme” (1974), Davidson ataca a ideia de que diferentes culturas ou teorias habitam esquemas conceituais incomensuráveis. O argumento é que a inteligibilidade da noção de um esquema conceitual diferente depende da possibilidade de traduzi-lo — e se é traduzível, não é radicalmente diferente. A separação rígida entre esquema e conteúdo (a “terceira dogma do empirismo”, como Davidson a chamou) é incoerente.
Holismo Mental: As atribuições de crenças, desejos e intenções formam uma rede holística — nenhum estado mental pode ser individualmente identificado sem considerar sua relação com outros estados. Este holismo está na raiz tanto do monismo anômalo quanto do princípio da caridade.
Influenciado por
- Quine — holismo epistêmico, naturalismo, recusa de entidades mentais como categorias básicas
- Alfred Tarski — teoria semântica da verdade
- Wittgenstein — jogos de linguagem, seguir regras, crítica ao linguagem privada
- Frege e Russell — lógica e filosofia da linguagem
- Carnap — análise semântica formal
Influenciou
- John McDowell — mente e mundo, conteúdo conceitual
- Ernest Lepore e Kirk Ludwig — comentadores sistemáticos de Davidson
- Filosofia da ação contemporânea
- Semântica formal e filosofia da linguagem
- Debates sobre anomalous monism na filosofia da mente
Obras
Essays on Actions and Events (1980); Inquiries into Truth and Interpretation (1984); Subjective, Intersubjective, Objective (2001); Problems of Rationality (2004, póstumo); Truth, Language, and History (2005, póstumo). Artigos fundamentais: “Actions, Reasons, and Causes” (1963); “Truth and Meaning” (1967); “Mental Events” (1970); “Radical Interpretation” (1973); “On the Very Idea of a Conceptual Scheme” (1974).
Ver também
Filosofia Analítica Filosofia da Mente W.V.O. Quine
Livros indicados:
Essays on Actions and Events — Donald Davidson
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Inquiries into Truth and Interpretation — Donald Davidson
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