Don Ihde
Don Ihde

Don Ihde nasceu em Hope, Kansas, em 14 de janeiro de 1934, e faleceu em 17 de janeiro de 2024, poucos dias depois de completar noventa anos. Doutorou-se em filosofia pela Boston University em 1964, sob orientação de Erazim Kohák, com uma tese sobre a metodologia fenomenológica de Paul Ricoeur. Em 1969 ingressou no corpo docente da State University of New York em Stony Brook, onde ajudou a fundar o Departamento de Filosofia no início da década de 1970 e permaneceu por 43 anos, aposentando-se em 2012 como Distinguished Professor.

Formado na tradição fenomenológica de Husserl, Heidegger e Merleau Ponty, mas insatisfeito com a ausência, nessa tradição, de uma reflexão detida sobre os instrumentos técnicos concretos, Ihde deslocou o eixo da fenomenologia clássica — voltada à consciência e à percepção em geral — para as relações efetivas entre seres humanos e artefatos tecnológicos específicos. Technics and Praxis (1979) é geralmente identificada como a primeira obra de fôlego sobre filosofia da técnica escrita por um autor estadunidense, inaugurando nos Estados Unidos um campo até então quase inexistente como disciplina filosófica autônoma. Foi, porém, em Technology and the Lifeworld: From Garden to Earth (1990) que Ihde sistematizou o núcleo do programa hoje conhecido como pós-fenomenologia (postphenomenology): uma investigação não antropocêntrica sobre como os instrumentos medeiam e transformam a percepção humana do mundo.

Nessa obra, Ihde distingue quatro tipos básicos de relação entre seres humanos e tecnologias. Nas relações de incorporação (embodiment relations) — como o uso de óculos —, o artefato é assimilado ao corpo perceptivo, tornando-se quase transparente à experiência. Nas relações hermenêuticas, como a leitura de um mapa ou de um instrumento científico, a tecnologia funciona como um texto que remete ao mundo, mas o sujeito permanece consciente de estar interpretando uma representação. Nas relações de alteridade — termo emprestado de Levinas —, a tecnologia é experimentada como um quase-outro, um interlocutor parcial, sem jamais se tornar um outro pleno. Nas relações de fundo (background relations), por fim, tecnologias como a refrigeração ou a iluminação automática moldam o ambiente perceptivo justamente por operarem sem exigir atenção direta.

Conceitos-chave

  • Pós-fenomenologia: abordagem que desloca a fenomenologia clássica da consciência em geral para o estudo empírico e relacional de artefatos tecnológicos concretos e de suas mediações perceptivas.
  • Multiestabilidade (multistability): nenhum artefato possui um único significado ou uso fixado a priori; o mesmo instrumento pode ser incorporado, interpretado ou instrumentalizado de modos distintos conforme o contexto cultural e prático em que é inserido.
  • Relações de incorporação, hermenêuticas, de alteridade e de fundo: os quatro modos básicos, propostos em Technology and the Lifeworld (1990), pelos quais tecnologias medeiam a experiência humana do mundo.
  • Hermenêutica material: tese, desenvolvida em Expanding Hermeneutics (1998), de que instrumentos científicos (microscópios, telescópios, aparelhos de imagem médica) operam como textos a serem lidos, produzindo conhecimento por meio de sua própria materialidade.
  • Realismo instrumental: posição, apresentada em Instrumental Realism (1991), segundo a qual os instrumentos técnicos são parte constitutiva — e não mero acessório — da produção do conhecimento científico.

Influenciado por

  • Husserl — o método fenomenológico e a noção de intencionalidade, reelaborados por Ihde para incluir a mediação instrumental
  • Heidegger — a analítica da técnica e da instrumentalidade, ainda que Ihde tenha buscado uma abordagem menos essencialista e mais empírica que a heideggeriana
  • Merleau Ponty — a fenomenologia do corpo como base para a noção de relações de incorporação
  • Ricoeur — objeto da tese doutoral de Ihde, orientada por Erazim Kohák, e fonte da atenção hermenêutica que perpassa toda a sua obra
  • Levinas — o conceito de alteridade, transposto por Ihde da relação ética entre pessoas para a relação entre humanos e artefatos quase-outros

Influenciou

  • Peter-Paul Verbeek — desenvolveu a noção de mediação tecnológica e de moralidade dos artefatos a partir do arcabouço pós-fenomenológico de Ihde
  • Robert Rosenberger e Evan Selinger — consolidaram e sistematizaram a pós-fenomenologia como programa de pesquisa em filosofia da técnica
  • Os estudos de ciência e tecnologia (STS) e a interação humano-computador, que incorporaram as noções de multiestabilidade e de relações humano-tecnologia
  • A comunidade filosófica formada no Departamento de Filosofia de Stony Brook, que Ihde ajudou a fundar e consolidar como um dos principais polos de filosofia da técnica nos Estados Unidos

Obras

Hermeneutic Phenomenology: The Philosophy of Paul Ricœur (1971); Listening and Voice: A Phenomenology of Sound (1976); Experimental Phenomenology (1977); Technics and Praxis (1979); Existential Technics (1983); Technology and the Lifeworld: From Garden to Earth (1990); Instrumental Realism: The Interface between Philosophy of Science and Philosophy of Technology (1991); Expanding Hermeneutics: Visualism in Science (1998); Bodies in Technology (2002); Postphenomenology and Technoscience: The Peking University Lectures (2009).

Ver também

Heidegger, Husserl, Merleau Ponty, Albert Borgmann, Andrew Feenberg

Livros indicados: