
Filósofo argelino-francês; fundador da desconstrução. Subverteu a tradição metafísica ocidental mostrando que ela é estruturada por oposições binárias hierárquicas e pela metafísica da presença.
Nascido em El-Biar, nos arredores de Argel, numa família judaica, Derrida formou-se na École normale supérieure de Paris e iniciou seu percurso a partir de uma leitura minuciosa da fenomenologia de Husserl. Sua entrada explosiva no debate intelectual deu-se em 1966, com a conferência apresentada na Universidade Johns Hopkins, na qual questionava a noção de estrutura como algo organizado em torno de um centro estável — gesto que o afastou do estruturalismo então dominante e abriu o que se chamaria de pós-estruturalismo. No ano seguinte publicou simultaneamente três obras que fixaram seu vocabulário e seu método, consolidando a desconstrução não como uma doutrina, mas como uma prática de leitura atenta às tensões que cada texto não consegue dominar.
Mais do que negar a verdade ou dissolver todo sentido, a desconstrução procura mostrar que os pares conceituais herdados da tradição — fala/escrita, presença/ausência, natureza/cultura — repousam sobre hierarquias instáveis que o próprio texto acaba por subverter. Daí a importância de noções como différance e suplemento, que apontam para o adiamento incessante do sentido e para o caráter constitutivo daquilo que se julgava secundário. A obra de Derrida atravessou fronteiras disciplinares e provocou intensos debates — entre eles a controvérsia com o filósofo John Searle sobre os atos de linguagem —, exercendo influência duradoura sobre a teoria literária, a ética, a filosofia política e do direito, especialmente em sua reflexão tardia sobre justiça, hospitalidade e o “por vir”.
Conceitos-chave
- Desconstrução: não é destruição, mas leitura atenta que revela as tensões internas de um texto — como os conceitos que ele exclui ou suprime retornam para desestabilizá-lo
- Metafísica da presença: a filosofia ocidental privilegia presença, fala, origem, identidade — Derrida mostra que toda presença é mediada por diferença e ausência
- Différance (neologismo): jogo de diferir (distinção espacial) e deferência (adiamento temporal); o significado nunca está plenamente presente — é sempre postergado
- Suplemento: o elemento considerado “externo” ou “secundário” (escrita em relação à fala, em Rousseau) revela-se constitutivo do “original”
- Texto: “Não há nada fora do texto” — não quer dizer que só existem livros, mas que toda experiência é mediada por estruturas de significação
- Pharmakon (análise de Platão): a escrita é ao mesmo tempo remédio e veneno — ambivalência irredutível que a filosofia tenta, sem sucesso, resolver
Influenciado por
- Husserl — fenomenologia (estreia em 1962 com a tradução de A Origem da Geometria)
- Heidegger — destruição da metafísica (radicaliza a Destruktion)
- Nietzsche — crítica da metafísica e jogo de interpretação
- Ferdinand de Saussure — linguística estrutural (crítica)
- Sigmund Freud — rastro, inconsciente, diferença
Influenciou
- Teoria literária (desconstrução nos EUA: Paul de Man)
- Estudos pós-coloniais (Spivak, tradutora de Da Gramatologia)
- Teoria queer
- Filosofia do direito (Força de Lei)
Obras
Da Gramatologia (1967); A Escritura e a Diferença (1967); A Voz e o Fenômeno (1967); Margens da Filosofia (1972); Força de Lei (1994); Espectros de Marx (1993).
Ver também
Filosofia do Século XX
Livros indicados:
Uma história da filosofia - Vol. IV - do utilitarismo a Sartre
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