
David Kellogg Lewis nasceu em Oberlin, Ohio, em 28 de setembro de 1941, e morreu em Princeton, Nova Jersey, em 14 de outubro de 2001. Durante um ano de estudos em Oxford, como graduando, assistiu aos últimos cursos de J. L. Austin e teve Iris Murdoch como tutora. Doutorou-se em Harvard (1967), sob orientação de W. V. O. Quine; a tese tornou-se seu primeiro livro, Convention (1969). Lecionou na UCLA a partir de 1966 e, desde 1970 até o fim da vida, na Universidade de Princeton. Não deve ser confundido com C. I. Lewis (1883–1964), outro filósofo norte-americano, nem com homônimos de outras áreas. Seu pensamento é uma das construções sistemáticas mais influentes da metafísica analítica da segunda metade do século XX, distinguindo-se por defender teses ontológicas ousadas com argumentação rigorosa e por mostrar o poder explicativo da noção de mundo possível.
Conceitos-chave
- Convenção — em Convention: A Philosophical Study (1969), Lewis analisa as convenções, linguísticas entre elas, como regularidades de comportamento que resolvem problemas de coordenação, sustentadas por conhecimento comum (common knowledge) entre os participantes. O livro dialoga com a teoria dos jogos de Thomas Schelling e com a ideia de convenção em Hume, e responde ao ceticismo de Quine quanto a explicar a linguagem por meio de convenções. Recebeu o primeiro Franklin Matchette Prize da American Philosophical Association.
- Realismo modal — em On the Plurality of Worlds (1986), Lewis defende que mundos possíveis são tão concretos quanto o nosso, isolados espaço-temporalmente uns dos outros; “atual” seria um termo indexical, como “aqui” ou “agora”, e não uma propriedade absoluta. O próprio Lewis reconhecia que a tese provoca o que chamou de “olhar incrédulo” (incredulous stare) e a defendeu pelos benefícios teóricos que traria.
- Teoria das contrapartes — formulada em “Counterpart Theory and Quantified Modal Logic” (1968): um indivíduo existe em um único mundo, e afirmações modais sobre ele dizem respeito a suas contrapartes, semelhantes a ele, em outros mundos. Saul Kripke criticou essa abordagem em Naming and Necessity.
- Contrafactuais — em Counterfactuals (1973), propõe uma semântica em que um condicional contrafactual “se A fosse o caso, C seria o caso” é verdadeiro quando C vale nos mundos mais próximos do atual em que A vale, segundo uma relação de similaridade entre mundos. Em “Causation” (1973), usa a dependência contrafactual para analisar a causalidade. Robert Stalnaker propôs, independentemente, uma semântica concorrente.
- Superveniência humeana — a tese de que tudo o que há no mundo supervém de um “mosaico” de fatos locais particulares, sem conexões necessárias entre eles, formulada na introdução ao segundo volume dos Philosophical Papers (1986).
- Princípio Principal — em “A Subjectivist’s Guide to Objective Chance” (1980), liga a credência racional às probabilidades objetivas (chances).
- Contextualismo epistêmico — “Elusive Knowledge” (1996) defende que a verdade de atribuições de conhecimento varia com o contexto do atribuidor.
- Hipótese da habilidade — em “What Experience Teaches” (1988), responde ao argumento do conhecimento de Frank Jackson sustentando que saber como é ter certa experiência consiste em adquirir habilidades, um saber-como no sentido de Gilbert Ryle.
Influenciado por
- W. V. O. Quine — orientador de doutorado, cujo rigor lógico e naturalismo marcaram sua formação, ainda que Lewis discordasse dele em pontos centrais (modalidade, ontologia)
- Rudolf Carnap — a semântica de intensões e a análise lógica da linguagem
- Leibniz — a tradição dos mundos possíveis
- David Hume — a ideia de convenção e a imagem do mundo como mosaico de fatos distintos
- J. J. C. Smart e D. M. Armstrong — o materialismo australiano, com quem dialogou na filosofia da mente
Influenciou
- A metafísica analítica contemporânea (modalidade, causalidade, leis da natureza, universais, mereologia)
- A semântica formal de condicionais e a literatura sobre contrafactuais
- A filosofia da linguagem e da teoria dos jogos aplicada às convenções
- O debate sobre causação, probabilidade objetiva e epistemologia contextualista
Obras
Convention: A Philosophical Study (1969); Counterfactuals (1973); Philosophical Papers, vols. I (1983) e II (1986); On the Plurality of Worlds (1986); Parts of Classes (1991); Papers in Metaphysics and Epistemology (1999).
Ver também
Quine, Saul Kripke, Rudolf Carnap, Leibniz, Hume, Donald Davidson, Gilbert Ryle, J.L. Austin, C. I. Lewis