
Chandra Talpade Mohanty nasceu em 1955 na Índia e é atualmente professora titular (Distinguished Professor) de Estudos das Mulheres e do Gênero, Sociologia e Fundamentos Culturais da Educação, e Professora das Humanidades do Decano, na Universidade de Syracuse (EUA). Sua trajetória intelectual se situa no cruzamento entre a teoria feminista, os estudos pós-coloniais e o pensamento anticapitalista, e é inseparável da experiência de migração e de posicionamento crítico entre o Norte e o Sul Globais. Formada nos EUA, Mohanty desenvolveu uma obra que questiona sistematicamente os pressupostos etnocêntricos do feminismo ocidental dominante sem, por isso, abandonar o projeto feminista — antes, radicaliza-o a partir da diferença histórica, geográfica e de classe.
O ponto de inflexão de sua carreira foi o ensaio “Under Western Eyes: Feminist Scholarship and Colonial Discourses”, publicado em 1984 na revista Boundary 2 (vol. 12, n. 3, pp. 333–358) e reimpresso em 1988 na Feminist Review (n. 30, pp. 61–88). Ali Mohanty argumenta que certa produção acadêmica feminista ocidental, ao analisar as mulheres do chamado Terceiro Mundo, reproduz inadvertidamente uma lógica colonial: constrói a “mulher do Terceiro Mundo” como categoria monolítica e homogênea — pobre, ignorante, dominada pela tradição, vítima da família, da religião e do Estado —, em contraste implícito com a “mulher ocidental” representada como moderna, autônoma e emancipada. Segundo Mohanty, esse gesto de colonização discursiva apaga as diferenças históricas, econômicas, culturais e de classe entre as próprias mulheres do Sul Global, e acaba conferindo ao feminismo ocidental uma autoridade epistêmica sobre experiências que não são as suas. O argumento não é que a opressão não exista, mas que descrevê-la em termos genéricos e atemporais impede a análise concreta e reforça o eurocentrismo.
Quase duas décadas depois, em “‘Under Western Eyes’ Revisited: Feminist Solidarity Through Anticapitalist Struggles” (2003), Mohanty retomou e reelaborou criticamente o ensaio original. Reconheceu que sua crítica anterior corria o risco de ser lida como relativismo cultural ou como recusa de qualquer comparação feminista transnacional. Na revisão, o acento desloca-se: o inimigo principal não é mais apenas o discurso ocidental sobre o Terceiro Mundo, mas a globalização neoliberal como sistema que afeta de modo diferenciado — e frequentemente mais brutal — as mulheres das regiões periféricas. Mohanty propõe então a noção de “feminismo sem fronteiras” (feminism without borders): uma prática política e intelectual que articula solidariedade transnacional entre mulheres sem apagar as diferenças, a partir de lutas anticapitalistas concretas e de uma “política da localização” que obriga cada pesquisadora a explicitar sua posição.
Conceitos-chave
- Colonização discursiva (“Under Western Eyes”, 1984/1988): o processo pelo qual certo feminismo ocidental produz a “mulher do Terceiro Mundo” como sujeito universal de sua análise, apagando diferenças internas e impondo uma moldura analítica etnocêntrica sobre experiências heterogêneas.
- Mulher do Terceiro Mundo como categoria homogênea (“Under Western Eyes”, 1984/1988): a crítica de Mohanty não nega a opressão, mas objeta à abstração que dissolve contextos históricos, relações de classe e especificidades culturais numa vítima-padrão sem agência.
- Política da localização (Feminism Without Borders, 2003): o imperativo metodológico de situar o conhecimento — quem fala, de onde fala, em que condições institucionais — como condição de qualquer análise feminista honesta e não imperial.
- Feminismo sem fronteiras (Feminism Without Borders, 2003): não se confunde com feminismo “sem diferenças”; ao contrário, designa uma solidariedade transnacional que parte das diferenças e as articula politicamente a partir de lutas anticapitalistas compartilhadas.
- Solidariedade transnacional (Feminism Without Borders, 2003): forma de aliança política que substitui a universalização abstrata pela convergência concreta em torno de causas comuns — trabalho, migração, saúde, violência — sem exigir identidade ou homogeneidade prévia.
Influenciado por
- Edward Said — crítica do orientalismo e da colonização discursiva
- Gayatri Spivak — violência epistêmica e representação do subalterno
- Kimberlé Crenshaw — interseccionalidade de gênero, raça e classe
- Adrienne Rich — política da localização como ferramenta feminista
Influenciou
- Feminismo transnacional e descolonial nas décadas de 1990 e 2000
- María Lugones — colonialidade de gênero e pensamento descolonial
- Estudos pós-coloniais feministas em universidades do Sul Global
- Debates sobre globalização, trabalho e gênero nos anos 2000
Obras
O ensaio “Under Western Eyes: Feminist Scholarship and Colonial Discourses” foi publicado originalmente em Boundary 2 (vol. 12, n. 3, 1984, pp. 333–358), reimpresso em Feminist Review (n. 30, 1988) e republicado na coletânea Third World Women and the Politics of Feminism (1991), organizada pela própria Mohanty com Ann Russo e Lourdes Torres — volume que se tornou referência curricular em cursos de estudos feministas. Feminism Without Borders: Decolonizing Theory, Practicing Solidarity (2003) é seu livro mais completo: reúne ensaios escritos ao longo de quinze anos, incluindo a revisão crítica do ensaio de 1984, e articula as dimensões teórica, pedagógica e política do feminismo transnacional. O artigo “‘Under Western Eyes’ Revisited: Feminist Solidarity Through Anticapitalist Struggles” foi publicado em Signs: Journal of Women in Culture and Society (vol. 28, n. 2, 2003) antes de ser incorporado ao livro.
Ver também
Gayatri Spivak, Edward Said, María Lugones, Kimberlé Crenshaw, Judith Butler