Clarence Irving Lewis (1883–1964) nasceu em Stoneham, Massachusetts, e formou-se em Harvard (1906), onde teve como professores William James e Josiah Royce — o pragmatismo do primeiro e o idealismo absoluto do segundo marcariam permanentemente sua filosofia. Lecionou na Universidade da Califórnia em Berkeley entre 1911 e 1920, antes de retornar a Harvard, onde permaneceu até se aposentar em 1953 como titular da cátedra Edgar Pierce de Filosofia. Sua obra articula dois campos que, à primeira vista, parecem distantes — a lógica formal e a teoria do conhecimento — em torno de uma mesma preocupação: como conceitos e sistemas dedutivos, embora convencionais em sua origem, podem ainda assim organizar de modo objetivo a experiência.

Insatisfeito com a implicação material da lógica de Russell e Whitehead — que declara verdadeira qualquer condicional cujo antecedente seja falso ou consequente verdadeiro, gerando os chamados “paradoxos da implicação material” —, Lewis propôs em A Survey of Symbolic Logic (1918) o conceito de implicação estrita (strict implication): “p implica estritamente q” vale quando é impossível que p seja verdadeiro e q falso, isto é, quando a implicação capta uma relação de necessidade e não apenas a distribuição factual de valores de verdade. Em Symbolic Logic (1932), escrito com C. H. (Cooper Harold) Langford, essa intuição foi desenvolvida em uma hierarquia de cinco sistemas modais, os sistemas S1 a S5, sucessivamente mais fortes, que se tornariam o ponto de partida da lógica modal moderna.

Em epistemologia, Lewis desenvolveu em Mind and the World Order (1929) o pragmatismo conceitual: o conhecimento resulta do encontro entre um dado sensível imediato — “o dado” (the given) — e categorias conceituais que a mente aplica a esse dado para constituir objetos de experiência. Diferentemente do apriorismo tradicional, para Lewis os princípios a priori (lógicos, categoriais) não são verdades necessárias sobre o mundo, mas estipulações que expressam relações de significado dentro de um esquema conceitual — por isso podem, em princípio, ser revisados pragmaticamente se deixarem de servir bem à organização da experiência: é o chamado a priori pragmático. Em An Analysis of Knowledge and Valuation (1946), sua obra epistemológica de maturidade, aprofundou a análise do dado sensível, definido como imediato, incorrigível e, ao mesmo tempo, inefável — descritível apenas por meio de uma linguagem expressiva que não se confunde com juízos objetivos sobre o mundo.

Conceitos-chave

  • Implicação estrita (strict implication): relação lógica segundo a qual “p implica estritamente q” significa que é impossível p ser verdadeiro e q falso, proposta como alternativa à implicação material para evitar os paradoxos desta última.
  • Sistemas S1–S5: hierarquia de sistemas de lógica modal, apresentada com C. H. Langford em Symbolic Logic (1932), que formaliza noções de necessidade e possibilidade e se tornou o marco inaugural da lógica modal do século XX.
  • Pragmatismo conceitual: tese segundo a qual o conhecimento surge da aplicação de categorias conceituais — convencionais, mas não arbitrárias — a um dado sensível imediato, sendo a escolha entre esquemas conceituais concorrentes uma questão pragmática.
  • O dado (the given): o elemento sensível imediato da experiência, anterior a qualquer interpretação conceitual — certo e incorrigível, mas inefável em termos puramente objetivos.
  • A priori pragmático: reformulação da noção kantiana de a priori: princípios lógicos e categoriais não descrevem necessidades do mundo, mas expressam relações de significado dentro de um esquema conceitual adotado, e podem ser revisados por razões pragmáticas.

Influenciado por

  • William James — o pragmatismo como método filosófico e a atenção à experiência concreta como critério de significação
  • Josiah Royce — o idealismo absoluto e a reflexão sobre a estrutura categorial do conhecimento, professores de Lewis em Harvard
  • Kant — a distinção entre dado sensível e forma conceitual, reelaborada por Lewis como base do pragmatismo conceitual
  • Russell e Whitehead — a lógica simbólica dos Principia Mathematica, cuja implicação material Lewis criticou como ponto de partida para sua própria lógica modal
  • Peirce — a tradição pragmatista americana sobre significado e método científico

Influenciou

  • Quine — seu aluno em Harvard, que desenvolveria crítica ao dualismo analítico-sintético em diálogo direto com o pragmatismo conceitual de Lewis
  • Nelson Goodman e Roderick Chisholm — alunos de Lewis em Harvard, que deram continuidade e crítica a seu programa epistemológico
  • Wilfrid Sellars — cuja crítica ao “mito do dado” (myth of the given) tem como alvo direto a noção lewisiana de dado sensível
  • Ruth Barcan Marcus e Saul Kripke — desenvolveram a semântica de mundos possíveis para os sistemas modais que têm origem nos sistemas S1–S5 de Lewis
  • A epistemologia analítica de crença justificada e verdadeira do século XX, que herda de Lewis o fundacionalismo do dado como base da justificação

Obras

A Survey of Symbolic Logic (1918); Mind and the World Order: Outline of a Theory of Knowledge (1929); Symbolic Logic (com C. H. Langford, 1932); An Analysis of Knowledge and Valuation (1946); The Ground and Nature of the Right (1955); Our Social Inheritance (1957).

Ver também

William James, Russell, Kant, Quine, Peirce

Livros indicados: