
Giovanni di Fidanza, conhecido como Boaventura de Bagnoregio. Teólogo e filósofo franciscano; cardeal e Ministro-Geral da Ordem Franciscana. Contemporâneo e adversário cordial de Tomás de Aquino. Chamado de Doctor Seraphicus.
Boaventura formou-se na Universidade de Paris, então o grande centro da escolástica latina, onde estudou as artes liberais e depois a teologia sob a orientação do mestre franciscano Alexandre de Hales. Ali lecionou ao mesmo tempo que Tomás de Aquino, num período em que a chegada maciça das obras de Aristóteles — muitas mediadas pelos comentários árabes de Averróis — forçava os teólogos cristãos a decidir o quanto da nova filosofia natural podiam absorver sem comprometer a fé. Boaventura representa a resposta agostiniana e franciscana a esse desafio: em vez de naturalizar plenamente a razão como Tomás, manteve a primazia da iluminação divina e da experiência interior, recusando-se a tratar a filosofia como saber autônomo separado da sabedoria que conduz a Deus.
Sua trajetória uniu pensamento e governo. Em 1257 foi eleito Ministro-Geral da Ordem Franciscana, num momento de tensão entre as alas mais e menos rigorosas quanto à pobreza, e escreveu a biografia oficial de Francisco de Assis (a Legenda Maior), tornando-se uma figura decisiva na consolidação institucional e espiritual da ordem. Envolveu-se também na disputa entre o clero secular e as ordens mendicantes na universidade. Criado cardeal, participou do Segundo Concílio de Lyon, voltado à união com a Igreja grega, durante o qual veio a falecer, em 1274. Sua síntese de mística, exemplarismo neoplatônico e teologia afetiva exerceu influência duradoura sobre a escola franciscana e sobre toda a tradição contemplativa cristã do Ocidente.
Conceitos-chave
- Itinerário da mente para Deus (Itinerarium Mentis in Deum, 1259): a alma sobe a Deus em seis degraus — do mundo exterior (vestígios de Deus na criação) ao interior (alma como imagem de Deus) ao superior (contemplação de Deus em si); a iluminação divina é necessária em cada etapa
- Iluminação divina: o conhecimento humano exige uma luz especial infundida por Deus — herança de Santo Agostinho contra o aristotelismo puro de Tomás
- Exemplarismo: as criaturas são vestígios (vestigia), imagens (imagines) ou similitudes (similitudines) de Deus — o mundo é um livro que fala de Deus
- Teologia como sabedoria afetiva: a teologia não é ciência teórica mas sapiência — conhecimento que move ao amor; a contemplação supera a especulação
- Criação no tempo: contra Aristóteles e Averróis, o mundo não é eterno — foi criado a partir do nada (ex nihilo)
Influenciado por
- Santo Agostinho — iluminismo, interioridade e amor
- Platão (via Agostinho) — exemplarismo e participação
- Anselmo de Cantuária — argumento ontológico e fé em busca de compreensão
- Francisco de Assis — espiritualidade franciscana
Influenciou
- Escola franciscana posterior (Duns Scotus, Ockham — mas divergentes)
- Mística cristã ocidental
- Tomás de Aquino — debate sobre eternidade do mundo
Obras
Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo (1248–1255); Itinerário da Mente para Deus (1259); Redução das Artes à Teologia (1255); A Tripla Via (c. 1259).
Ver também
Filosofia Medieval
Livros indicados:
Uma História Da Filosofia - Vol. I - Grécia
Ver na Amazon →