
Filósofo irlandês nascido em 1685 e mais tarde bispo anglicano de Cloyne, George Berkeley produziu suas obras filosóficas mais importantes ainda muito jovem, antes dos trinta anos. Homem de fé e de ação, chegou a atravessar o Atlântico com o projeto de fundar um colégio nas Bermudas para as colônias americanas. É lembrado como o segundo grande nome do empirismo britânico, entre Locke e Hume — e o mais surpreendente dos três, por levar o empirismo a uma conclusão radical: a de que a matéria não existe.
O raciocínio de Berkeley parte de Locke, mas o supera. Se tudo o que conhecemos são nossas ideias e percepções, pergunta ele, que sentido tem supor, “por trás” delas, uma substância material que jamais percebemos? Tal matéria seria uma hipótese inútil e contraditória. Sua célebre fórmula resume a tese: esse est percipi — “ser é ser percebido”. Os objetos não são coisas materiais, mas conjuntos estáveis de ideias; existir, para uma coisa sensível, é ser percebida por uma mente.
Mas então o mundo deixa de existir quando ninguém o observa? Não — e aqui entra Deus. Os objetos persistem porque são continuamente percebidos pela mente infinita de Deus, que é também a causa da ordem e da regularidade de nossas percepções; a natureza é, por assim dizer, a “linguagem” pela qual Deus se dirige aos espíritos. Longe de ser ceticismo, o imaterialismo de Berkeley pretendia defender o senso comum e a religião contra o materialismo. Suas aporias impulsionaram o ceticismo de Hume e o idealismo transcendental de Kant.
Conceitos-chave
- Esse est percipi (“ser é ser percebido”): objetos materiais são apenas conjuntos de ideias na mente; não há substância material por trás das percepções
- Crítica às qualidades primárias de Locke: Locke distinguia qualidades primárias (no objeto: extensão, forma) de secundárias (na mente: cor, sabor). Berkeley argumenta que também as qualidades primárias são apenas ideias — a distinção colapsa
- Imaterialismo: negar a matéria não é ceticismo, é eliminar uma hipótese desnecessária; as ideias são reais e as coisas existem enquanto são percebidas
- Deus como garante: os objetos continuam a existir quando não os percebemos porque Deus os percebe continuamente — o mundo é a linguagem de Deus com as mentes
- Crítica ao abstrato: as ideias gerais abstratas (como “triângulo em geral”) são impossíveis para a mente humana; só existem ideias particulares
Influenciado por
- Locke — empirismo e teoria das ideias (Berkeley radicaliza)
- Descartes — dualismo mente/matéria (Berkeley suprime a matéria)
- Malebranche — ocasionalismo e papel de Deus
Influenciou
- Hume — ceticismo (Berkeley mostrou as aporias do empirismo)
- Kant — idealismo transcendental (crítica e superação)
- Idealismo alemão (esse est percipi ressoa em Fichte)
- Filosofia da percepção contemporânea
Obras
Ensaio sobre uma Nova Teoria da Visão (1709); Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano (1710); Três Diálogos entre Hilas e Filonous (1713).
Ver também
Racionalismo e Empirismo
Livros indicados:
The Works of George Berkeley. Vol.1 of 4: Philosophical Works, 1705-21
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Three Dialogues Between Hylas and Philonous (English Edition)
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Três diálogos entre hylas e philonous
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Obras filosóficas
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Princípios do Conhecimento Humano
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Uma história da filosofia - Vol.II - do Renascimento a Hume
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