Jeremy Bentham
Jeremy Bentham

Fundador do Utilitarismo. Jurista e filósofo inglês; reformador social radical. Seu esqueleto (Auto-Ícone) está exposto no University College London, conforme seu testamento.

Formado para a advocacia, Bentham logo abandonou a prática do direito para dedicar-se à sua crítica. O alvo inicial foi a common law inglesa e, em particular, os Comentários sobre as Leis da Inglaterra de William Blackstone, que ele acusava de mascarar privilégios e arbitrariedades sob uma linguagem solene. Contra essa tradição, Bentham propôs um critério único, claro e mensurável para avaliar leis e instituições: o princípio da utilidade, segundo o qual o valor de qualquer ação, lei ou política se mede pela quantidade de felicidade — entendida como prazer e ausência de dor — que ela produz para os afetados. A moral e a legislação deixariam assim de repousar sobre tradição, intuição ou supostos direitos naturais (que ele rejeitava como “absurdos sobre pernas de pau”) para tornar-se objeto de um cálculo racional e secular, ancorado na observação empírica das motivações humanas.

Esse programa fez de Bentham menos um filósofo de gabinete do que um engenheiro de reformas. Ele dedicou décadas a projetos concretos de codificação jurídica, reforma penal, ensino, assistência aos pobres e organização administrativa, convencido de que instituições bem desenhadas poderiam alinhar o interesse individual ao bem-estar coletivo. Em torno dele formou-se o círculo dos Radicais Filosóficos, que incluía James Mill e, na geração seguinte, John Stuart Mill, e que levou o utilitarismo ao debate político e econômico britânico do século XIX. A herança de Bentham é dupla e ambivalente: de um lado, a ideia de que políticas públicas devem ser justificadas por suas consequências para o bem-estar geral, base da economia do bem-estar e da análise de políticas modernas; de outro, o Panopticon, projeto arquitetônico de vigilância que Foucault transformaria em símbolo das sociedades disciplinares.

Conceitos-chave

  • Princípio da Utilidade: toda ação deve ser julgada pelo resultado — a maior felicidade para o maior número
  • Hedonismo psicológico: a natureza colocou a humanidade sob dois mestres soberanos — prazer e dor
  • Cálculo da Felicidade (felicific calculus): mensurar prazeres e dores por intensidade, duração, certeza, proximidade, fecundidade, pureza, extensão
  • Panopticon: prisão circular onde um guarda pode observar todos sem ser visto — modelo de controle social por vigilância
  • Reforma da legislação: as leis devem ser calculadas para maximizar a utilidade pública

Influenciado por

  • Hume — sentimentos de prazer/dor como critério
  • Helvétius — felicidade social como fim da legislação
  • Locke — empirismo

Influenciou

  • John Stuart Mill — discípulo que qualificou o utilitarismo
  • Foucault — análise do Panopticon em Vigiar e Punir
  • Direito e política contemporâneos

Obras

Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação (1789); escritos sobre o Panopticon.

Ver também

Filosofia do Século XIX

Livros indicados:

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