Avicena (Ibn Sīnā)
Avicena (Ibn Sīnā)

Nascido em 980 perto de Bukhara, na Ásia Central de língua persa, Abu Ali Ibn Sīnā — latinizado como Avicena — foi um prodígio: dizem que aos dezoito anos já dominava a medicina de seu tempo. Levou uma vida agitada, entre cortes, prisões e cargos de vizir, mas deixou mais de duzentas obras. Seu Cânon da Medicina foi o principal manual médico do Ocidente por séculos, e seu Livro da Cura é uma vasta enciclopédia filosófica. É o maior filósofo do mundo islâmico medieval, e seu nome ficou ligado a uma distinção que mudaria a metafísica ocidental.

Essa distinção é a que separa essência e existência. Em qualquer ser, podemos perguntar o que ele é (sua essência) e se ele é (sua existência) — e as duas coisas não coincidem: a essência de um cavalo nada diz sobre se existem cavalos. Disso Avicena tira uma conclusão decisiva: nas criaturas, a existência é contingente (poderiam não existir), enquanto só em Deus essência e existência se identificam — Deus é o “Ser Necessário”, aquele que não pode não ser e do qual tudo o mais depende.

Combinando Aristóteles com o neoplatonismo de Plotino, Avicena explica a origem do mundo por uma série de dez inteligências que emanam de Deus, a última das quais ilumina o intelecto humano. Célebre é também seu argumento do “homem voador”: imaginando um homem criado no ar, sem qualquer sensação, ele ainda assim teria consciência de existir — sinal de que a alma se conhece independentemente do corpo, antecipando intuições de Descartes. Sua metafísica foi decisiva para Tomás de Aquino, Duns Scotus e toda a Escolástica.

Conceitos-chave

  • Ente e essência: o ente existe de fato; a essência diz o que cada coisa é. Só em Deus essência = existência (ser necessário); nas criaturas a existência é contingente/possível
  • 10 inteligências: Deus emana a primeira inteligência (motriz do 1.º céu); em cascata até a 10.ª, que irradia as formas sobre o mundo sublunar e atualiza o intelecto humano
  • Argumento do “Homem Voador”: argumento da consciência de si independente do corpo (antecipa o cogito de Descartes)

Influenciado por

  • Aristóteles — lógica, metafísica
  • Plotino e neoplatonismo (via Al-Farabi)

Influenciou

  • Tomás de Aquino — distinção ente/essência, existência contingente
  • Duns Scotus — univocidade do ente
  • Medicina europeia medieval (Cânon da Medicina)

Obras

Livro da Cura (Shifa) — enciclopédia filosófica; Cânon da Medicina; Livro da Salvação.

Ver também

Filosofia Medieval

Livros indicados:

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