
Andrew Feenberg nasceu em 1943, nos Estados Unidos. Doutorou-se em filosofia pela Universidade da Califórnia em San Diego em 1972, sob orientação de Marcuse, de quem foi aluno direto nos anos finais da carreira do filósofo alemão exilado nos Estados Unidos. Ainda estudante, Feenberg envolveu-se ativamente com a Nova Esquerda, tendo fundado o periódico Alternatives e participado, ao lado do próprio Marcuse, dos eventos de Maio de 1968 em Paris — Marcuse, que se encontrava na cidade para uma conferência da Unesco sobre Marx, foi reconhecido por estudantes que ocupavam a École des Beaux-Arts e convidado a discursar à assembleia; Feenberg, que o acompanhava, testemunhou o episódio e viria décadas depois a escrever, em coautoria com Jim Freedman, o livro When Poetry Ruled the Streets (2001), sobre aquele movimento. Lecionou filosofia na San Diego State University entre 1969 e 2003, com estadias como professor visitante em Duke, na SUNY Buffalo, na Sorbonne, na École des Hautes Études en Sciences Sociales e na Universidade de Tóquio, entre outras instituições. Posteriormente ocupou a Canada Research Chair em Filosofia da Técnica na Simon Fraser University, em Vancouver, onde dirigiu o Applied Communication and Technology Lab (ACT Lab) até se tornar professor emérito.
A obra de Feenberg desenvolve, ao longo de mais de quatro décadas, uma teoria crítica da técnica que recusa tanto o determinismo tecnológico — a ideia de que a tecnologia segue uma lógica de desenvolvimento autônoma e neutra em relação a valores — quanto o substancialismo herdado de Heidegger, para o qual a técnica moderna encerraria uma essência unívoca e dominadora. Em Critical Theory of Technology (1991) e, de modo mais sistemático, em Questioning Technology (1999), Feenberg propôs a teoria da instrumentalização em dois níveis: a instrumentalização primária, pela qual objetos e processos são isolados de seu contexto natural e reduzidos a funções manipuláveis (o momento comum a toda técnica, inclusive na leitura heideggeriana), e a instrumentalização secundária, na qual essas funções são reintegradas a contextos sociais concretos, carregando escolhas de valor, poder e cultura nem sempre visíveis no design final do artefato. É justamente na instrumentalização secundária que reside, para Feenberg, o espaço da disputa política: a mesma tecnologia pode ser configurada de modos distintos conforme os interesses sociais que prevalecem em seu desenvolvimento — daí sua defesa da democratização da técnica, isto é, da ampliação da participação de usuários, trabalhadores e comunidades afetadas nas decisões de design tecnológico, hoje frequentemente concentradas em especialistas e corporações.
Em Transforming Technology (2002) — segunda edição, revista e ampliada, de Critical Theory of Technology — e em Technosystem: The Social Life of Reason (2017), Feenberg aprofundou essa crítica em diálogo direto com Habermas, com a Escola de Frankfurt e com os estudos de ciência e tecnologia (STS), sustentando que a racionalidade técnica não é neutra nem unívoca, mas ambivalente: contém, em seu interior, possibilidades de desenvolvimento tanto autoritárias quanto emancipatórias, cuja realização depende de lutas sociais concretas e não de uma necessidade tecnológica inelutável.
Conceitos-chave
- Teoria crítica da técnica: recusa tanto o determinismo tecnológico quanto o substancialismo heideggeriano, defendendo que a técnica é um campo social ambivalente, aberto a disputas de valor e de poder.
- Instrumentalização primária e secundária: distinção entre o isolamento funcional de objetos e processos (primária) e sua reintegração em contextos sociais concretos, carregados de escolhas de valor (secundária).
- Democratização da técnica (racionalização democrática): proposta de ampliar a participação de usuários, trabalhadores e comunidades afetadas nas decisões de design tecnológico.
- Ambivalência da tecnologia: tese central de que a racionalidade técnica comporta, ao mesmo tempo, possibilidades autoritárias e emancipatórias, cuja realização depende de lutas sociais e não de necessidade inelutável.
- Crítica à tese da neutralidade valorativa da técnica, comum tanto ao instrumentalismo quanto a certas leituras do determinismo tecnológico.
Influenciado por
- Marcuse — orientador de doutorado de Feenberg em San Diego e principal referência de toda a sua obra, sobretudo a crítica marcuseana à racionalidade tecnológica em Eros e Civilização e em O Homem Unidimensional
- Heidegger — interlocutor crítico constante; Feenberg retoma e ao mesmo tempo revisa a analítica heideggeriana da técnica, tema central de Heidegger and Marcuse: The Catastrophe and Redemption of History (2005)
- Marx — a leitura da técnica como campo de disputa social e de relações de produção, e não como estrutura neutra
- Georg Lukács — a teoria da reificação, base de Lukács, Marx and the Sources of Critical Theory (1981), primeira obra de Feenberg
- Habermas — interlocução sobre racionalidade comunicativa e racionalização social, retomada criticamente em obras posteriores
Influenciou
- Os estudos de ciência e tecnologia (STS) de orientação crítica, em diálogo — e por vezes em tensão — com a teoria do ator-rede de Bruno Latour
- Debates contemporâneos sobre design participativo e democratização de plataformas digitais, que retomam a distinção entre instrumentalização primária e secundária
- A comunidade de pesquisa formada no Applied Communication and Technology Lab (ACT Lab) da Simon Fraser University, sob sua direção
- A recepção contemporânea de Marcuse e da Escola de Frankfurt no campo da filosofia da técnica
Obras
Lukács, Marx and the Sources of Critical Theory (1981); Critical Theory of Technology (1991); Alternative Modernity (1995); Questioning Technology (1999); When Poetry Ruled the Streets (com Jim Freedman, 2001); Transforming Technology: A Critical Theory Revisited (2002); Heidegger and Marcuse: The Catastrophe and Redemption of History (2005); Between Reason and Experience: Essays in Technology and Modernity (2010); Technosystem: The Social Life of Reason (2017).
Ver também
Marcuse, Heidegger, Marx, Georg Lukács, Don Ihde, Albert Borgmann