Alexis de Tocqueville
Alexis de Tocqueville

Alexis-Charles-Henri Clérel de Tocqueville nasceu em Paris, em 29 de julho de 1805, em família da aristocracia normanda, e morreu em Cannes, em 16 de abril de 1859. Magistrado de formação, viajou aos Estados Unidos em 1831–1832, com Gustave de Beaumont, oficialmente para estudar o sistema penitenciário americano; da viagem resultou A Democracia na América (De la démocratie en Amérique), cujo primeiro volume apareceu em 1835 e o segundo em 1840. Foi deputado a partir de 1839, membro da Académie française (1841) e, em 1849, ministro das Relações Exteriores por breve período. Após o golpe de Luís Napoleão em 1851, afastou-se da vida política e dedicou-se a O Antigo Regime e a Revolução (1856). Suas memórias, Souvenirs, foram publicadas postumamente.

Tocqueville parte da convicção de que o avanço da igualdade de condições é um fato histórico de longa duração, quase providencial, e de que a questão decisiva para as sociedades modernas é se a democracia se combinará com a liberdade ou com novas formas de servidão. Sua análise combina observação empírica, método comparativo e uma tipologia de tendências sociais, e não deve ser confundida com mero elogio ou condenação da democracia.

Conceitos-chave

  • Igualdade de condições — o fato gerador da democracia moderna, entendida por Tocqueville como estado social antes que como regime político; molda costumes, ideias e sentimentos.
  • Tirania da maioria — risco de que a soberania popular, sem contrapesos, imponha à minoria e ao indivíduo uma pressão tanto legal quanto moral, afetando a própria independência de espírito.
  • Individualismo democrático — termo que Tocqueville emprega para o recolhimento do cidadão na esfera privada, que o torna indiferente à coisa pública e o deixa vulnerável ao poder centralizado.
  • Despotismo brando — no segundo volume da Democracia, descreve a possibilidade de um poder tutelar, benevolente e minucioso, que reduz os cidadãos a súditos dependentes sem recorrer à violência aberta.
  • Associações e vida local — as associações civis, a autonomia municipal, a imprensa livre e o júri funcionam como escolas de liberdade e antídotos contra a centralização.
  • Religião e costumes (moeurs) — Tocqueville atribui papel central aos hábitos e crenças na sustentação das instituições livres, sobretudo nos Estados Unidos.
  • Continuidade entre Antigo Regime e Revolução — em 1856, argumenta que a centralização administrativa que se atribui à Revolução já avançava sob a monarquia, de modo que a Revolução completou, mais do que rompeu, uma tendência anterior.

Interpretações e críticas

Tocqueville é lido como liberal aristocrático, como teórico da democracia e como precursor da sociologia política. Críticos apontam que, embora condenasse a escravidão e descrevesse com lucidez o destino de indígenas e negros nos Estados Unidos, ele defendeu a conquista francesa da Argélia em escritos e relatórios da década de 1840, posição analisada criticamente por estudiosos como Jennifer Pitts. Outros discutem se sua oposição entre liberdade e igualdade subestima o potencial emancipatório das demandas igualitárias, e se a imagem da democracia americana que ele descreve é representativa do conjunto do país.

Influenciado por

  • Montesquieu — pluralismo de formas políticas, corpos intermediários e atenção aos costumes
  • Rousseau — interlocutor ambivalente, cuja ideia de soberania popular Tocqueville critica em seus riscos centralizadores
  • Blaise Pascal e François Guizot — respectivamente, na antropologia moral e na leitura histórica da marcha da igualdade e da burguesia
  • Edmund Burke — afinidade na defesa de corpos intermediários, sem que haja discipulato direto estabelecido

Influenciou

  • John Stuart Mill — resenhou a Democracia em 1835 e 1840 e absorveu a preocupação com a tirania da maioria em Sobre a Liberdade
  • Hannah Arendt — em Sobre a Revolução, dialoga com Tocqueville a propósito da liberdade pública e da experiência americana
  • Raymond Aron, que o situou entre os fundadores da sociologia política, e a literatura contemporânea sobre sociedade civil e capital social

Obras

De la démocratie en Amérique (vol. 1, 1835; vol. 2, 1840); L’Ancien Régime et la Révolution (1856); Souvenirs (publicado postumamente); escritos sobre a Argélia e correspondência.

Ver também

Montesquieu, Edmund Burke, John Stuart Mill, Hannah Arendt, Friedrich Hayek