Alexandre Kojève
Alexandre Kojève

Alexandre Kojève, nascido Aleksandr Vladimirovitch Kojevnikov, nasceu em Moscou em 28 de abril de 1902 e morreu em Bruxelas em 4 de junho de 1968, pouco depois de intervir, em nome do governo francês, perante funcionários e representantes da Comunidade Econômica Europeia. Deixou a Rússia após a revolução, estudou na Alemanha e doutorou-se em Heidelberg em 1926, sob orientação de Karl Jaspers, com uma tese sobre a filosofia religiosa de Vladimir Soloviov. Fixou-se em Paris, onde, a pedido de Alexandre Koyré, assumiu em 1933 o curso sobre Hegel na École pratique des hautes études. Depois da guerra, trabalhou no Ministério da Economia da França e participou do planejamento do que viria a ser a Comunidade Econômica Europeia, de modo que sua vida combinou a docência filosófica e uma longa carreira de alto funcionário.

Seu nome liga-se ao seminário que conduziu, de janeiro de 1933 a maio de 1939, como leitura comentada da Fenomenologia do Espírito de Hegel. Entre os ouvintes estiveram Raymond Aron, Georges Bataille, André Breton, Jacques Lacan, Maurice Merleau-Ponty e Raymond Queneau. Queneau organizou as notas do curso, publicadas pela Gallimard em 1947 como Introduction à la lecture de Hegel, livro que se tornou a principal via de acesso de uma geração de intelectuais franceses ao hegelianismo.

Conceitos-chave

  • Leitura antropológica de Hegel — Kojève interpreta a Fenomenologia como uma filosofia do ser humano que se constitui pela ação e pela negação do dado. Sua leitura é filtrada por Marx e por Heidegger, e é frequentemente criticada por privilegiar certos capítulos (em especial a dialética do senhor e do escravo) e por minimizar a lógica e a ideia de Espírito em Hegel.
  • Desejo de reconhecimento e dialética do senhor e do escravo — o desejo propriamente humano é o desejo do desejo de outro, isto é, de ser reconhecido. A luta de vida e morte por reconhecimento origina a relação entre senhor e escravo; para Kojève, é o escravo, pelo trabalho, quem transforma o mundo e a si mesmo, e a história avança por esse processo.
  • Fim da história — Kojève sustenta que a história, entendida como o processo de lutas por reconhecimento, chega a seu termo quando surge um Estado “universal e homogêneo” no qual todos são reconhecidos. Ele situa um marco decisivo na Revolução Francesa e em Napoleão, sob a perspectiva de Hegel em Iena, e posteriormente discutiu em que sentido o mundo contemporâneo seria “pós-histórico”. A tese não significa o fim dos acontecimentos, e sim o esgotamento do conflito em torno dos princípios do reconhecimento.
  • Sabedoria e filosofia — Kojève considera que o Saber Absoluto, atingido por Hegel, encerra a filosofia como busca (amor) da sabedoria e a converte em sabedoria.
  • Debate com Leo Strauss — no ensaio “Tirania e Sabedoria”, resposta de Kojève a Sobre a Tirania, de Strauss, que replicou com uma “Reafirmação” (Restatement), o debate discute se o filósofo deve intervir na política (posição de Kojève) ou se filosofia e política se opõem fundamentalmente (posição de Strauss).

Influenciado por

  • Hegel — fonte central, lido segundo uma chave antropológica e histórica
  • Karl Marx — a primazia do trabalho e da luta na história
  • Martin Heidegger — a finitude, a morte e a negatividade, temas de Ser e Tempo
  • Alexandre Koyré — antecessor no curso de Hegel e interlocutor intelectual
  • Karl Jaspers e Vladimir Soloviov — formação em Heidelberg e tese doutoral

Influenciou

  • Jacques Lacan — o tema do desejo e do reconhecimento (desejo do Outro)
  • Francis Fukuyama — tomou a ideia do fim da história e da luta por reconhecimento de Kojève em O Fim da História? (1989) e O Fim da História e o Último Homem (1992), com modificações importantes
  • Georges Bataille, Raymond Queneau e Maurice Merleau-Ponty — ouvintes do seminário cuja recepção de Hegel passou por Kojève
  • O hegelianismo francês do século XX e o debate sobre a filosofia da história

Obras

Introduction à la lecture de Hegel (1947); Esquisse d’une phénoménologie du droit (escrito em 1943, publicado em 1981); Essai d’une histoire raisonnée de la philosophie païenne (3 vols., 1968–1973); Kant (1973); L’Athéisme (publicado em 1998); La Notion de l’autorité (publicado em 2004).

Ver também

Hegel, Francis Fukuyama, Marx, Heidegger, Leo Strauss, Jacques Lacan, Merleau-Ponty, Karl Jaspers, Vladímir Soloviov