
Alasdair MacIntyre (1929–2025) foi um filósofo moral escocês-americano, autor de uma das obras mais influentes da filosofia moral do século XX, After Virtue (1981; Depois da Virtude). Sua trajetória intelectual foi marcada por uma longa peregrinação: partiu do marxismo na juventude, atravessou diferentes posições e acabou por converter-se ao catolicismo e ao tomismo aristotélico em sua maturidade. Faleceu em maio de 2025. MacIntyre diagnosticou que a linguagem moral moderna se encontra em estado de grave desordem — composta de fragmentos descontextualizados de tradições que se perderam — e sustentou que o “projeto iluminista” de fornecer uma justificação racional autônoma para a moral fracassou, abrindo caminho ao emotivismo. Sua proposta foi a recuperação de uma ética das virtudes de raiz aristotélico-tomista, ancorada na vida comunitária e nas tradições de investigação.
Conceitos-chave
- Desordem da moral moderna (After Virtue, 1981): a linguagem moral contemporânea conserva apenas fragmentos de esquemas conceituais antigos, desprovidos do contexto que lhes dava sentido; daí os desacordos morais intermináveis e aparentemente irresolúveis da cultura moderna.
- Fracasso do projeto iluminista (After Virtue, 1981): as tentativas de Hume, Kant, Kierkegaard e outros de justificar a moral sem recurso a uma concepção teleológica da natureza humana estavam fadadas ao fracasso, pois descartavam o fim (telos) que articulava as regras morais.
- Prática e bens internos (After Virtue, 1981): uma prática é uma atividade humana cooperativa e socialmente estabelecida cujos bens internos só se alcançam participando dela segundo seus padrões de excelência; as virtudes são as disposições que nos capacitam a obtê-los.
- Unidade narrativa da vida (After Virtue, 1981): a vida humana possui a forma de uma narrativa, e a pergunta pelo bem é a pergunta pelo que confere unidade e sentido a uma vida inteira concebida como busca.
- Tradição como contexto da racionalidade (Whose Justice? Which Rationality?, 1988): não existe racionalidade neutra e a-histórica; a investigação racional sobre justiça e o bem se dá sempre no interior de tradições históricas concretas, que podem ser comparadas por sua capacidade de superar crises internas.
- Animais racionais dependentes (Dependent Rational Animals, 1999): contra a imagem do agente autônomo e auto-suficiente, MacIntyre enfatiza a vulnerabilidade, a deficiência e a dependência como condições centrais da vida humana, e as “virtudes do reconhecimento da dependência”.
Influenciado por
- Aristóteles — teleologia, virtudes e eudaimonia
- Tomás de Aquino — síntese aristotélico-cristã da maturidade
- Marx — crítica social do jovem MacIntyre
- Elizabeth Anscombe — “Modern Moral Philosophy” e o retorno à virtude
Influenciou
- Charles Taylor — comunitarismo e crítica do indivíduo desvinculado
- Michael Sandel — debate liberalismo/comunitarismo
- Stanley Hauerwas — ética teológica das virtudes
- Filosofia moral neoaristotélica contemporânea em geral
Obras
A obra que firmou sua reputação foi After Virtue: A Study in Moral Theory (1981), seguida por uma trilogia que aprofundou e historicizou suas teses: Whose Justice? Which Rationality? (1988), sobre a dependência da racionalidade em relação às tradições, e Three Rival Versions of Moral Enquiry (1990), que confronta a enciclopédia, a genealogia e a tradição. Dependent Rational Animals: Why Human Beings Need the Virtues (1999) incorpora a corporeidade e a vulnerabilidade ao seu aristotelismo. Antes dessa virada, escrevera obras de história e crítica, entre elas A Short History of Ethics (1966).
Ver também
Aristóteles, Tomás de Aquino, Bernard Williams