
Nota sobre a datação: As datas de Ādi Śaṅkara (também grafado Shankara; honoríficamente Śaṅkarācārya, “o mestre Śaṅkara”) são disputadas. A tradição o situa em 788–820 d.C., mas muitos estudiosos modernos preferem uma datação anterior, em torno de c. 700–750 d.C. Sua biografia foi entrelaçada com material hagiográfico, de modo que muitos episódios de sua vida pertencem mais à lenda do que ao registro histórico verificável.
Śaṅkara é o sistematizador mais influente do Advaita Vedānta, a corrente “não-dualista” da filosofia hindu. Sua obra consiste sobretudo em comentários rigorosos aos textos canônicos, nos quais defende uma metafísica em que a multiplicidade do mundo é, em última análise, redutível a uma única realidade. Sua influência sobre o pensamento indiano posterior — e sobre a recepção ocidental do hinduísmo — é enorme.
Conceitos-chave
Não-dualismo (advaita, “não-dois”): a tese central de que a realidade última é uma só, sem segunda. As distinções entre sujeito e objeto, alma e mundo, são, no plano absoluto, aparentes e não fundamentais.
Identidade de Brahman e Ātman: Brahman é a realidade absoluta, infinita e sem atributos (nirguṇa); Ātman é o “si” mais íntimo de cada ser. Para Śaṅkara, ambos são idênticos — o si individual não é parte de Brahman nem semelhante a ele, mas é Brahman, e a percepção de separação é fruto da ignorância. A grande sentença upaniṣádica “tat tvam asi” (“isso és tu”) condensa essa identidade.
Māyā e os dois níveis de verdade: o mundo da multiplicidade não é simplesmente falso, mas tem o estatuto de māyā — uma aparência que é real no plano convencional e irreal no plano absoluto. Śaṅkara distingue a verdade convencional (vyavahārika), válida para a vida prática e o conhecimento empírico, da verdade absoluta (pāramārthika), na qual só Brahman é real.
Ignorância (avidyā): a causa do engano e do sofrimento é a ignorância — a sobreposição (adhyāsa) indevida que faz tomar o não-eu pelo eu, e o aparente pelo real. É a avidyā que projeta a multiplicidade sobre a unidade.
Conhecimento libertador (jñāna): a libertação (mokṣa) não se obtém por ação ritual nem por acúmulo de mérito, mas pelo conhecimento direto da identidade entre Ātman e Brahman. Como a verdade já é o caso, a libertação é antes o reconhecimento do que sempre se foi do que uma conquista nova.
Brahman sem atributos (nirguṇa Brahman): em seu nível mais alto, Brahman é indeterminado, além de qualquer predicação positiva. As descrições teístas de um deus pessoal com atributos (saguṇa Brahman) pertencem ao nível convencional e servem como degrau, não como verdade última.
Influenciado por
- As Upaniṣads — fonte textual e doutrinal primeira do não-dualismo
- Os Brahma Sūtras (atribuídos a Bādarāyaṇa) — sistematização aforística do Vedānta que Śaṅkara comenta
- Gauḍapāda — predecessor cujo Māṇḍūkya Kārikā antecipa teses advaita; a tradição o liga a Śaṅkara como mestre de seu mestre
Influenciou
- A tradição Advaita posterior — discípulos como Sureśvara e Padmapāda, e toda a escola subsequente
- Rāmānuja (séc. XI–XII) — desenvolve o Vedānta “qualificadamente não-dualista” (Viśiṣṭādvaita) em crítica direta a Śaṅkara
- Neo-vedānta moderno — Vivekananda e a recepção do hinduísmo no Ocidente apoiam-se largamente em sua leitura
- Filosofia comparada — paralelos discutidos com o idealismo e o monismo na metafísica ocidental
Obras
A obra mais segura e central de Śaṅkara são seus comentários (bhāṣya): o Brahmasūtrabhāṣya (comentário aos Brahma Sūtras), considerado sua obra capital, além de comentários às principais Upaniṣads e à Bhagavad Gītā. Entre os tratados independentes, o Upadeśasāhasrī (“Mil ensinamentos”) é geralmente aceito como genuinamente seu. Já vários textos populares atribuídos a Śaṅkara — como o Vivekacūḍāmaṇi (“A joia suprema do discernimento”) — têm autoria contestada por boa parte dos estudiosos, que os consideram provavelmente posteriores. Convém, portanto, distinguir o núcleo autoral seguro do amplo material a ele atribuído pela tradição.
Ver também
Filosofia Oriental; Buda; Confúcio