
Joseph-Achille Mbembe nasceu em 1957 em Otélé, Camarões. Formou-se em história e filosofia na Sorbonne (Paris I) e obteve o doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). É atualmente professor sênior do Wits Institute for Social and Economic Research (WISER), na Universidade de Witwatersrand, Johannesburg, África do Sul. Mbembe é considerado um dos intelectuais africanos mais influentes da atualidade, com trabalho que articula história africana, teoria pós-colonial, filosofia política e crítica cultural. Escreve em francês; suas obras principais foram traduzidas para o inglês, português, alemão e outras línguas.
Conceitos-chave
A Postcolonie (De la postcolonie: essai sur l’imagination politique dans l’Afrique contemporaine, 2000; trad. inglesa: On the Postcolony, 2001): Esta obra densa e original analisa as formas específicas de poder e subjetivação no África pós-colonial. Mbembe recusa tanto a idealização da Africa pré-colonial quanto o lamento da vitimização permanente. A “póscolônia” é um espaço de relações de poder peculiares: grotescas, eróticas, violentas, banais. O commandement (o poder herdado da administração colonial) persiste, mas é vivido, contestado e parodiado pela população de modos complexos. Mbembe usa categorias de Bakhtin (carnaval, grotesco) para analisar a política africana.
Necropolítica (Necropolitics, ensaio publicado em 2003 na revista Public Culture; ampliado em livro: Necropolitics, 2019; trad. port. Necropolítica, 2018): O conceito mais influente de Mbembe. Partindo do biopoder de Foucault (o poder que administra a vida das populações) e da noção de estado de exceção de Agamben, Mbembe argumenta que, para compreender a política contemporânea, não basta pensar o poder como gestão da vida — é preciso pensar o poder como gestão da morte. A necropolítica designa a capacidade soberana de definir quem pode viver e quem deve morrer. Mbembe mostra que esta lógica está na origem da escravidão transatlântica, do colonialismo e das guerras contemporâneas: certas populações são “mundos de morte” (death-worlds) — formas de existência social e política nas quais vastas populações estão sujeitas a condições de morte em vida. O conceito foi amplamente adotado em estudos sobre guerras, fronteiras, refugiados e populações “descartáveis”.
Crítica da Razão Negra (Critique de la raison nègre, 2013; trad. port. Crítica da Razão Negra, 2014; trad. ingl. Critique of Black Reason, 2017): Mbembe historiciza a construção da “raça negra” como conceito central da modernidade europeia. O “negro” não é uma identidade natural, mas uma invenção da modernidade colonial: a figura do Outro absoluto, do ser sem razão, do ser descartável, que permitiu ao humanismo europeu definir-se a si mesmo por exclusão. Mbembe examina como essa invenção estruturou a escravidão, o colonialismo e o racismo contemporâneo — e como a “razão negra” (a lógica que produz o negro como objeto de descarte) continua operando no capitalismo global. A obra propõe uma crítica da modernidade feita a partir da perspectiva daqueles que foram excluídos de seu projeto.
Devir-negro do mundo: Em Crítica da Razão Negra, Mbembe desenvolve a tese provocativa de que, no capitalismo tardio, a condição do “negro” (a precariedade, a descartabilidade, a vigilância, a dívida perpétua) tende a generalizar-se. O que foi historicamente a condição específica das populações racializadas passa a ser a condição de parcelas crescentes da população mundial. Esta tese é controversa e foi debatida por sua ambiguidade política.
Pensamento de fora de si e afropolitanismo: Mbembe propõe que a África pense a partir de sua própria especificidade histórica e geográfica, mas sem fechar-se em identitarismo. O afropolitanismo (conceito que Mbembe usa de modo distinto de Taiye Selasi) designa uma sensibilidade africana contemporânea que é ao mesmo tempo enraizada e cosmopolita, consciente das heranças múltiplas (africanas, islâmicas, europeias) sem essencializá-las.
Crítica do humanismo europeu: Mbembe, em diálogo com Fanon e Derrida, argumenta que o humanismo europeu sempre foi seletivo: proclamou a universalidade dos direitos do homem enquanto praticava a escravidão e o colonialismo. Esta contradição não é um acidente, mas uma estrutura: o humanismo europeu precisou do “não-humano” — o negro, o colonizado — para se constituir como universal.
Influenciado por
- Frantz Fanon — patologia colonial, violência descolonizadora
- Michel Foucault — biopoder, genealogia, discurso
- Giorgio Agamben — estado de exceção, vida nua
- Jacques Derrida — desconstrução, hospitalidade, o outro
- Hannah Arendt — origens do totalitarismo, violência
- Walter Benjamin — tempo messiânico, história
- Mikhail Bakhtin — carnaval, grotesco
Influenciou
- Estudos pós-coloniais e decoloniais contemporâneos
- Teoria crítica africana (África do Sul, Camarões, Senegal)
- Análise política das guerras e conflitos africanos
- Debate sobre necropolítica e populações descartáveis
- Estudos sobre fronteiras, refugiados, migrações
Obras
Afriques indociles: christianisme, pouvoir et état en société postcoloniale (1988); La naissance du maquis dans le Sud-Cameroun, 1920–1960 (1996); De la postcolonie: essai sur l’imagination politique dans l’Afrique contemporaine (2000; trad. ingl. On the Postcolony, 2001); Au-delà des ténèbres (2000); Necropolitics (ensaio, Public Culture, 2003; livro, 2019; trad. port. Necropolítica, 2018); Critique de la raison nègre (2013; trad. port. Crítica da Razão Negra, 2014; trad. ingl. Critique of Black Reason, 2017); Politiques de l’inimitié (2016; trad. ingl. Necropolitics, texto ampliado); Brutalisme (2020; trad. ingl. Brutalism, 2024).
Ver também
Filosofia Africana Filosofia do Século XX Frantz Fanon
Livros indicados:
Necropolítica — Achille Mbembe
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Crítica da Razão Negra — Achille Mbembe
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