Vontade (Boúlesis / Voluntas / Wille) — Faculdade de deliberar, querer e escolher, pela qual o agente determina a si mesmo a agir. O termo latino voluntas, ligado ao verbo velle (querer), traduz o grego boúlesis, o desejo racional já analisado por Aristóteles. Embora a Antiguidade discutisse a escolha (proaíresis) e o desejo, foi Agostinho quem elevou a vontade ao centro da vida moral e espiritual: o pecado não procede da ignorância, mas de uma vontade que se desvia de Deus para o bem criado — uma vontade que pode estar dividida contra si mesma, conforme descreve nas Confissões. Na modernidade, Kant distingue a Wille (a vontade legisladora, idêntica à razão prática pura, que dá a si a lei moral) da Willkür (o arbítrio, a capacidade de adotar máximas e de escolher entre o dever e a inclinação); essa distinção sustenta sua doutrina da autonomia. Schopenhauer rompe com o intelectualismo: em O Mundo como Vontade e Representação, a Vontade (Wille zum Leben, “vontade de viver”) é a essência cega, una e irracional de toda a realidade, anterior à representação, da qual o sujeito só se liberta pela contemplação estética ou pela ascese. Nietzsche reinterpreta esse impulso como Vontade de Potência (Wille zur Macht): força criadora e autoafirmadora que ultrapassa a mera autoconservação. A noção liga-se diretamente ao problema do livre-arbítrio e à distinção entre vontade e desejo (apetite sensível não deliberado).


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