Distinção Type/Token — Distinção lógica e metafísica introduzida por Charles Sanders Peirce nos Collected Papers (particularmente em Collected Papers, Vol. 4, §537, e Vol. 8, §§ diversas; escritos reunidos postumamente). Peirce observa que quando se diz que a palavra “the” aparece dezenas de vezes numa página de texto, estamos usando “palavra” em dois sentidos: (1) o type — a palavra “the” como tipo ou classe abstrata, a entidade linguística única; e (2) os tokens — as instâncias ou ocorrências concretas e particulares dessa palavra na página. O exemplo clássico: a sequência “gato gato” contém dois tokens (dois objetos particulares inscritos no papel) mas apenas um type (um único tipo de palavra).
Etimologia e Formulação Técnica
Peirce utiliza os termos “type” (tipo) e “token” (marca, insígnia, ocorrência). O type é uma entidade abstrata — uma forma, um padrão, uma classe. O token é uma instanciação particular e concreta de um type: ocupa um lugar no espaço e no tempo, tem propriedades físicas (cor da tinta, tamanho, etc.). A relação entre type e token não é a relação entre um universal e seus particulares (embora seja análoga): é uma relação de instanciação. Um type existe em virtude de haver (ou poder haver) tokens que o instanciam.
Aplicações na Filosofia da Linguagem
Na linguística e na filosofia da linguagem, a distinção é onipresente. As palavras são types; as ocorrências de palavras em textos são tokens. As frases são types; as proferimentos são tokens. Esta distinção tem consequências para a teoria do significado: o significado é uma propriedade dos types ou dos tokens? Geralmente, dos types — embora tokens em contextos particulares possam adquirir significados derivados (indexicais, expressivos).
A distinção também aparece na teoria da música e das artes: uma obra musical (a Quinta Sinfonia de Beethoven) é um type, e cada performance é um token. Esta observação, desenvolvida por Nelson Goodman em Languages of Art (1968), levanta questões sobre identidade artística e autenticidade.
Filosofia da Mente: Identidade Type-Type versus Token-Token
Na filosofia da mente, a distinção é crucial para o debate sobre o fisicalismo e o problema mente-corpo.
A teoria da identidade type-type (U.T. Place, “Is Consciousness a Brain Process?”, 1956; J.J.C. Smart, “Sensations and Brain Processes”, 1959) afirma que cada tipo de estado mental é idêntico a um tipo de estado físico (neural): dor = ativação das fibras-C (por exemplo). Esta teoria é fortemente redutiva.
A teoria da identidade token-token (Davidson, “Mental Events”, 1970) afirma que cada ocorrência particular de um estado mental é idêntica a uma ocorrência particular de um estado físico, mas nega que os tipos mentais sejam idênticos a tipos físicos. Esta posição, o monismo anômalo, permite que eventos mentais sejam físicos sem que o vocabulário mental seja redutível ao físico.
A teoria da identidade type-type enfrenta o problema da realizabilidade múltipla (Putnam, “Psychological Predicates”, 1967): um mesmo tipo mental (dor) pode ser realizado por tipos físicos muito diferentes em organismos diferentes (fibras-C em humanos, outros processos em polvos). Se dor = fibras-C, polvos não sentiriam dor — o que parece implausível. A identidade token-token e o funcionalismo são respostas a este problema.
📚 Gostou do conteúdo? Compre nosso Guia Completo de Filosofia
e ajude a manter o site no ar.