Superveniência (do latim supervenire, sobrevir, acrescentar-se; em inglês, supervenience) — Relação entre dois conjuntos ou famílias de propriedades segundo a qual não pode haver diferença no conjunto superior (superveniência) sem diferença no conjunto inferior (base). Formalmente: propriedades B supervêm sobre propriedades A se e somente se dois objetos (ou eventos, estados, etc.) quaisquer que sejam indistinguíveis em todas as propriedades A são necessariamente indistinguíveis em todas as propriedades B. A superveniência expressa uma relação de dependência e covariação sem exigir redução: o conjunto superior depende do inferior, mas não pode ser definido nem eliminado em favor dele.
Origens: Ética e Filosofia da Mente
O termo ganhou rigor filosófico técnico em dois contextos independentes que convergem no século XX.
Na ética, R.M. Hare utilizou o conceito em The Language of Morals (1952) para capturar uma intuição fundamental: as propriedades morais dependem das propriedades naturais. Se dois objetos ou ações são idênticos em todas as suas propriedades naturais descritivas (tamanho, forma, consequências, etc.), eles devem ter o mesmo valor moral. Hare não usa ainda o termo “superveniência”, mas a relação que descreve é precisamente essa.
Na filosofia da mente, Donald Davidson foi o primeiro a utilizar o termo tecnicamente em “Mental Events” (1970, em Experience and Theory, ed. Foster e Swanson). Davidson argumenta que os eventos mentais são idênticos a eventos físicos, mas que os predicados mentais não são redutíveis a predicados físicos — posição conhecida como monismo anômalo. Neste contexto, ele escreve que as propriedades mentais supervêm sobre as físicas: não pode haver diferença mental sem diferença física, mas os predicados mentais não são definíveis em termos físicos.
Tipos de Superveniência
Jaegwon Kim, que sistematizou o conceito a partir dos anos 1980 (ver Supervenience and Mind, 1993), distingue ao menos três formas:
- Superveniência fraca: para cada par de objetos num mesmo mundo possível, a indistinguibilidade em A implica indistinguibilidade em B.
- Superveniência forte: em todos os mundos possíveis, a indistinguibilidade em A implica indistinguibilidade em B.
- Superveniência global: considera indistinguibilidade entre mundos possíveis inteiros, não apenas entre objetos.
As diferenças têm consequências metafísicas importantes: a superveniência forte é compatível com necessidade metafísica; a fraca, apenas com covariação local.
Problemas e Debates
Kim argumentou influentemente que a superveniência, por si só, não resolve o problema mente-corpo: ela é compatível tanto com o dualismo quanto com o fisicalismo. Além disso, Kim propôs o “argumento da exclusão causal” (causal exclusion argument): se eventos mentais supervêm sobre eventos físicos, e eventos físicos têm causas físicas suficientes, parece que os eventos mentais são causalmente ociosos — o que seria problemático para o monismo anômalo de Davidson e para qualquer fisicalismo não-redutivo.
Na ética, a superveniência moral foi muito debatida: ela é uma necessidade lógica, metafísica ou apenas contingente? Sua aceitação é compatível com o não-naturalismo moral (posição de Hare e de G.E. Moore, Principia Ethica, 1903) ou exige naturalismo?
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