Qualidade / Quantidade — Duas das categorias fundamentais com que a filosofia descreve o ser. Em Aristóteles, elas figuram entre as dez categorias expostas no tratado Categorias: a qualidade (do grego ποιόν, poión, “de que tipo”) designa o modo como algo é — branco, quente, virtuoso, justo —, ao passo que a quantidade (ποσόν, posón, “quanto”) designa o quanto algo é, abrangendo o número (quantidade discreta) e a grandeza contínua como extensão e duração. Para Aristóteles, é próprio da qualidade admitir mais e menos e fundar relações de semelhança, enquanto a quantidade funda relações de igualdade. Na Modernidade, a distinção desloca-se para o interior das próprias qualidades: Galileu, no Ensaiador (Il Saggiatore), e Descartes reduzem o real físico àquilo que é mensurável, separando as qualidades primárias — extensão, figura, número, movimento, tidas por objetivas e inerentes ao corpo — das secundárias — cor, som, sabor, odor —, consideradas efeitos subjetivos produzidos no observador. Locke fixa essa terminologia no Ensaio sobre o Entendimento Humano (1689), tornando-a um pilar da física clássica e do debate moderno sobre a percepção. A oposição reaparece transformada em Hegel, para quem o acúmulo gradual de mudanças quantitativas culmina num salto que altera a qualidade da coisa — princípio da chamada conversão da quantidade em qualidade, ligado à sua noção de medida (Maß).


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