Ideologia (do grego idéa + lógos — “discurso sobre as ideias”) — Conceito de história complexa cujos usos oscilam entre a neutralidade técnica e a crítica radical. Foi cunhado por Antoine Destutt de Tracy (1754–1836) para designar uma “ciência das ideias”, análise empírica e antimetafísica das sensações e conceitos que compõem o pensamento humano; Napoleão Bonaparte, porém, converteu o termo em insulto ao chamar de idéologues os filósofos do Instituto Nacional, vistos como sonhadores abstratos alheios às realidades do poder. O sentido mais influente vem de Karl Marx e Friedrich Engels, que em A Ideologia Alemã (redigida em 1845–46) sustentam que “as ideias dominantes de cada época são as ideias da classe dominante”: como uma câmara obscura, a ideologia inverte o real e apresenta como natural e eterno o que é histórico e contingente. (A expressão falsa consciência, falsches Bewusstsein, não aparece em A Ideologia Alemã; foi cunhada pelo próprio Engels numa carta a Franz Mehring em 1893.) Antonio Gramsci reformulou a ideia com o conceito de hegemonia, o consenso cultural pelo qual a classe subalterna assimila a visão de mundo dominante através das instituições da sociedade civil (escola, Igreja, imprensa). Louis Althusser, em “Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado” (1970), descreveu como a ideologia interpela os indivíduos, constituindo-os como sujeitos. Já Karl Mannheim, em Ideologia e Utopia (1929), deslocou o problema para a sociologia do conhecimento, mostrando que todo pensamento é socialmente condicionado e opondo à ideologia a utopia, que aponta para a transformação. No uso atual, o termo varia entre acepção pejorativa (crença dogmática) e neutra (sistema coerente de valores políticos, como liberalismo ou socialismo).
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