Alteridade — Do latim alteritas (condição de ser outro), conceito filosófico que designa a irredutível diferença do outro enquanto outro, não assimilável à identidade do mesmo. Trata-se de pensar o outro sem reduzi-lo a uma variação de si próprio, em oposição à mesmidade (a identidade do eu consigo). Embora a articulação entre o mesmo e o outro já apareça em Platão (Sofista, 254b-259d), onde o outro (tó héteron) figura entre os gêneros supremos do ser, é no século XX que a alteridade se torna problema central. Em Eu e Tu (1923), Martin Buber distingue a relação Eu-Tu, na qual o outro é encontrado como presença, da relação Eu-Isso, que o trata como objeto disponível. Sartre, em O Ser e o Nada (1943), analisa o olhar (le regard): sob o olhar de outrem, descubro-me objeto para uma consciência alheia, o que constitui meu ser-para-outro. Mas é Emmanuel Lévinas quem eleva a alteridade a princípio fundamental. Em Totalidade e Infinito (1961), argumenta que a tradição ocidental — de Parmênides a Hegel — subordinou sistematicamente o Outro ao Mesmo, reduzindo a diferença à identidade (a ontologia como “filosofia da totalidade”). Contra isso, propõe a ética como filosofia primeira: o rosto (visage) do Outro me interpela com uma exigência infinita e anterior a qualquer tematização, numa relação assimétrica em que sou responsável pelo Outro antes de toda reciprocidade. O conceito repercute em Derrida, que o radicaliza na lógica da différance, e em Ricoeur, que busca uma dialética entre ipse (si-mesmo) e alteridade (Si mesmo como um outro, 1990).


Glossário