A Estética de Schopenhauer: a Hierarquia das Artes e a Música como Espelho da Vontade

Existe uma experiência que quase todos nós já tivemos e que pouquíssimos conseguem explicar: ouvir uma peça musical — uma sinfonia de Beethoven, um adágio de Mozart, um acorde inesperado numa canção qualquer — e sentir algo que não se traduz em palavras. Não é alegria, não é tristeza, não é nenhum sentimento nomeável. É como se a música tocasse uma camada da nossa existência que fica abaixo da linguagem, abaixo do pensamento, abaixo de tudo o que chamamos de “eu”. Por que isso acontece? Por que a música nos comove de um modo que a pintura, a poesia e a escultura — por mais belas que sejam — nunca conseguem replicar exatamente? ...

A Estrutura da Realidade: O Que Existe, Segundo Todas as Correntes Filosóficas

Qual é a estrutura da realidade? O que existe de verdade — e o que é ilusão, aparência ou construção da nossa mente? Essa é a pergunta mais antiga, mais persistente e mais vertiginosa de toda a filosofia. De Tales de Mileto, que no século VI a.C. declarou que tudo é água, até os físicos quânticos que hoje debatem se o universo é feito de cordas vibrantes em onze dimensões, a humanidade nunca parou de perguntar: o que é isso que chamamos de realidade? ...

Nietzsche e o Niilismo: O Que o Filósofo do Martelo Diria Sobre o Mundo Contemporâneo

Friedrich Nietzsche morreu em 1900, mas parece que escreveu seus livros para o século XXI. O filósofo alemão que proclamou “Deus está morto” não estava comemorando — estava lançando um diagnóstico sombrio sobre o que acontece quando uma civilização inteira perde o alicerce que organizava seus valores. No mundo contemporâneo, esse diagnóstico ressoa com uma precisão desconcertante: vivemos numa era de crise de sentido, de valores em colapso, de niilismo difuso que se esconde sob camadas de entretenimento digital, redes sociais e consumismo. Nietzsche não apenas previu esse cenário — ele descreveu em detalhes o que haveria de vir. ...

Judith Butler: Gênero, Performatividade e os Limites de Sua Teoria

Poucos filósofos contemporâneos dividem tanto a opinião quanto Judith Butler. Para uns, ela é uma das pensadoras mais importantes do século XX — alguém que revolucionou a compreensão do gênero, da sexualidade e do poder. Para outros, é o símbolo máximo de uma filosofia que se perdeu no labirinto da própria linguagem, produzindo textos deliberadamente obscuros para mascarar ideias rasas. Para entender por que Butler provoca reações tão extremas, é preciso primeiro compreender o que ela realmente diz — e, depois, ter a honestidade intelectual de identificar onde o argumento vacila. ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno V: O Tomismo Diante da Filosofia Crítica

Este é o quinto e último artigo da série sobre Le point de départ de la métaphysique de Joseph Maréchal (1878–1944). Nos artigos anteriores, percorremos o percurso histórico da obra: a tradição clássica do conhecimento (Caderno I), o conflito entre Racionalismo e Empirismo (Caderno II), a filosofia crítica de Kant (Caderno III) e o sistema idealista pós-kantiano de Fichte, Schelling e Hegel (Caderno IV). Chegamos agora ao Caderno V — Le thomisme devant la philosophie critique —, o coração de toda a obra e a contribuição filosófica mais original de Maréchal. É aqui que ele realiza a comparação sistemática entre o tomismo e a filosofia crítica, e apresenta sua síntese: o argumento de que o dinamismo do intelecto humano em direção ao Ser Absoluto é uma estrutura transcendental — uma condição de possibilidade de todo ato de conhecimento — e que, portanto, uma metafísica do ser é não apenas possível, mas inevitável a qualquer análise honesta do conhecimento humano. ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno IV: O Sistema Idealista em Kant e nos Pós-Kantianos

Este é o quarto de cinco artigos sobre Le point de départ de la métaphysique de Joseph Maréchal. Nos artigos anteriores, percorremos a tradição clássica do conhecimento, de Aristóteles a Tomás de Aquino (Caderno I), o conflito entre Racionalismo e Empirismo que culmina no ceticismo de Hume (Caderno II) e a análise detalhada da filosofia crítica de Kant — a Estética, a Analítica e a Dialética Transcendentais (Caderno III). Agora, no Caderno IV — intitulado Le système idéaliste chez Kant et les postkantiens e publicado postumamente em 1947, três anos após a morte de Maréchal — examinamos como o idealismo pós-kantiano desenvolveu o giro transcendental iniciado por Kant, levando-o a consequências que o próprio Kant não havia previsto nem autorizado. ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno III: A Crítica de Kant

Este é o terceiro de cinco artigos sobre Le point de départ de la métaphysique de Joseph Maréchal. Nos artigos anteriores, percorremos o Caderno I — a tradição clássica do conhecimento, de Aristóteles a Tomás de Aquino — e o Caderno II — o conflito entre Racionalismo e Empirismo que culmina no ceticismo de Hume. Agora chegamos ao Caderno III, o mais extenso e tecnicamente denso de toda a obra: a análise da filosofia crítica de Immanuel Kant (1724–1804). Para Maréchal, Kant é o interlocutor inevitável — não um adversário a ser descartado, mas um pensador que colocou o problema do conhecimento com uma profundidade sem precedentes. Acompanhamos aqui como Maréchal expõe a arquitetura da Crítica da Razão Pura e onde, em sua leitura, Kant avançou decisivamente — e onde parou aquém do que sua própria análise tornava possível. ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno II: Racionalismo e Empirismo antes de Kant

Este é o segundo de cinco artigos dedicados à obra Le point de départ de la métaphysique de Joseph Maréchal (1878–1944). No artigo anterior, acompanhamos o Caderno I, em que Maréchal inventariou as conquistas e os limites da tradição clássica — dos pré-socráticos a Tomás de Aquino — no que diz respeito ao problema da validade objetiva do conhecimento. A tradição escolástica havia articulado um realismo epistemológico robusto, mas sem oferecer a justificação reflexiva que o interlocutor moderno viria a exigir. O Caderno II entra agora nesse mundo moderno: analisa o grande conflito entre Racionalismo e Empirismo como a tentativa da filosofia dos séculos XVII e XVIII de resolver, cada uma à sua maneira, o problema do fundamento do conhecimento humano. Veremos que ambas as tradições fracassam, e que é o cético David Hume quem, ao radicalizar o empirismo, abre o abismo que Kant se sentirá obrigado a atravessar. ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno I: A Crítica Antiga do Conhecimento

Este é o primeiro de cinco artigos dedicados à obra Le point de départ de la métaphysique (“O Ponto de Partida da Metafísica”) do filósofo jesuíta belga Joseph Maréchal (1878–1944). Publicada em cinco cadernos — quatro deles (I, II, III e V) entre 1922 e 1926, e o Caderno IV postumamente em 1947 —, a obra representa uma das tentativas mais ambiciosas do século XX de colocar o tomismo em diálogo com a filosofia crítica kantiana. Ao longo desta série, percorreremos cada um dos cinco cadernos: do inventário histórico da tradição clássica até a síntese original de Maréchal, que influenciou profundamente pensadores como Karl Rahner, Bernard Lonergan e Emerich Coreth. Neste primeiro artigo, acompanhamos o Caderno I, que faz um percurso histórico-crítico desde os pré-socráticos até o fim da Escolástica. ...

Os Pré-Socráticos: O Nascimento da Filosofia Ocidental

Imagine um mundo onde tudo o que acontece — uma tempestade, uma colheita destruída, uma criança que nasce — é explicado pela vontade de algum deus. Durante milênios, a humanidade viveu dentro dessa visão mítica do cosmos. Então, por volta do século VI a.C., em uma pequena cidade costeira da Ásia Menor chamada Mileto, algo extraordinário aconteceu: um grupo de pensadores decidiu perguntar por quê sem recorrer aos deuses. Essa virada — do mythos ao logos, do mito à razão — é um dos momentos mais decisivos da história intelectual humana. Os homens que protagonizaram essa transformação são chamados de pré-socráticos: os filósofos que antecederam Sócrates e fundaram, com suas perguntas ousadas, a tradição filosófica ocidental. ...

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