Gadamer e a Hermenêutica Filosófica — Compreensão, Diálogo e Tradição

Há uma experiência que qualquer leitor sério já viveu ao menos uma vez: abrir um livro escrito há séculos — a República de Platão, as Confissões de Agostinho, o Discurso do Método de Descartes — e perceber que aquele texto ainda diz algo. Não diz a mesma coisa que disse ao autor ou aos seus contemporâneos, é claro. Diz algo diferente, algo que nasce do encontro entre o que o texto carrega e o que nós trazemos. A pergunta é: o que exatamente acontece nesse encontro? Como é possível que um texto do passado fale ao presente sem que o presente simplesmente o deforme? E mais radicalmente: o que significa, afinal, compreender? ...

Hannah Arendt — Filosofia Política, Banalidade do Mal e Vita Activa

Poucos pensadores do século XX marcaram tão profundamente a reflexão sobre política, liberdade e responsabilidade moral quanto Hannah Arendt. Nascida na Alemanha em 1906, forçada ao exílio pelo nazismo, apátrida durante quase duas décadas, Arendt construiu uma obra filosófica que é simultaneamente um testemunho da catástrofe totalitária e uma defesa radical da dignidade da vida política. Suas categorias — banalidade do mal, vita activa, espaço público, natalidade — tornaram-se indispensáveis para quem quer compreender o que acontece quando os seres humanos abdicam de pensar, de julgar e de agir no mundo comum. ...

A Priori e A Posteriori — A Distinção Epistemológica Fundamental

Poucas distinções marcaram tão profundamente a história da filosofia quanto aquela entre o que podemos saber independentemente da experiência e o que só podemos saber por meio dela. A distinção entre a priori e a posteriori atravessa séculos de debate epistemológico — dos lógicos medievais a Leibniz, de Hume a Kant, das críticas empiristas do século XIX às reviravoltas da filosofia analítica contemporânea. Compreendê-la é compreender o próprio problema do conhecimento. ...

Alienação na Filosofia: De Hegel a Debord — Trabalho, Religião e Espetáculo

Poucos conceitos filosóficos atravessaram tantos séculos, tradições e disciplinas como o de alienação. Da exteriorização metafísica do Espírito em Hegel à denúncia do trabalho desumanizado em Marx, da projeção religiosa em Feuerbach à sociedade do espetáculo de Debord, a alienação designa uma situação em que o ser humano se torna estranho a si mesmo, ao produto de sua atividade ou às suas próprias relações sociais. Compreender a genealogia desse conceito é compreender uma das linhas de força mais persistentes da filosofia moderna e contemporânea. ...

Arché (ἀρχή): O Princípio Originário na Filosofia Pré-Socrática

Há um momento na história do pensamento em que a humanidade deixa de perguntar quem criou o mundo e começa a perguntar do que o mundo é feito. Essa passagem — do mito à investigação racional — encontra sua expressão mais concentrada em uma única palavra grega: ἀρχή (arché). Princípio, origem, fundamento, comando: a arché é, ao mesmo tempo, a primeira coisa que existe e a razão pela qual tudo o mais existe. Compreender esse conceito é compreender o gesto inaugural da filosofia ocidental. ...

Autonomia na Filosofia: de Kant à Bioética Contemporânea

Introdução: o que é autonomia? Poucos conceitos filosóficos atravessam tantos domínios — moral, político, existencial, jurídico, médico — quanto o de autonomia. A palavra provém do grego autós (si mesmo) e nómos (lei, norma): governar-se a si mesmo, dar-se a própria lei. Na Grécia antiga, o termo designava originalmente a condição das póleis que se regiam por leis próprias, sem sujeição a um poder estrangeiro. Uma cidade autônoma era aquela que exercia soberania sobre sua organização interna. ...

Bíos: Os Modos de Vida na Filosofia Grega — De Aristóteles a Agamben

Poucas distinções filosóficas são tão reveladoras quanto aquela que os gregos traçaram entre bíos (βίος) e zoé (ζωή). A primeira designa a vida qualificada — o modo como alguém escolhe viver, o perfil ético e político de uma existência; a segunda indica o simples fato de estar vivo, a vida biológica partilhada por todos os seres animados. Essa diferença, aparentemente terminológica, carrega consigo uma das questões mais profundas da filosofia: o que significa viver bem? ...

Cogito ergo sum: O Fundamento Cartesiano e a Certeza do Eu Pensante

Há poucos momentos na história da filosofia que possam ser comparados, em radicalidade e consequência, àquele em que René Descartes, isolado em sua estufa holandesa, descobre que a própria atividade de duvidar contém em si uma certeza inabalável: aquele que duvida, pensa — e aquele que pensa, existe. O cogito — formulado de maneiras ligeiramente distintas em três obras capitais — tornou-se não apenas o ponto de partida da filosofia cartesiana, mas o ato fundador de toda a filosofia moderna. A partir dele, a subjetividade humana se instalou no centro da investigação filosófica e ali permaneceu, sob formas diversas, durante quatro séculos. ...

Doxa e Episteme — Opinião e Conhecimento na Filosofia

Poucas distinções foram tão decisivas para a história da filosofia ocidental quanto a que separa doxa (δόξα, opinião) de episteme (ἐπιστήμη, conhecimento). Desde os pré-socráticos, a tentativa de ultrapassar o plano das aparências rumo ao saber fundamentado constituiu o impulso central do filosofar. A doxa designa o juízo não fundamentado, a crença que se apoia nas aparências sensíveis ou na convenção social; a episteme, ao contrário, aspira à verdade justificada, ao saber que se sustenta por razões necessárias. ...

Epoché (ἐποχή): A Suspensão do Juízo dos Céticos Antigos à Fenomenologia

Poucos gestos filosóficos são tão radicais — e tão fecundos — quanto a decisão de parar de julgar. A epoché (ἐποχή), a suspensão deliberada do juízo, atravessa a história da filosofia ocidental como um fio condutor que liga o ceticismo antigo à fenomenologia contemporânea, passando pela dúvida cartesiana e pelo empirismo britânico. Nascida como prática de vida entre os céticos pirrônicos, que nela buscavam a tranquilidade da alma, a epoché foi reapropriada vinte e três séculos depois por Edmund Husserl como método fundante da fenomenologia — o caminho de acesso às “coisas mesmas”. ...

Hedonismo: O Prazer como Princípio Filosófico de Aristipo a Epicuro e ao Utilitarismo

De todas as respostas que a filosofia ofereceu à pergunta “o que é o bem?”, poucas foram tão intuitivas — e tão mal compreendidas — quanto a do hedonismo: o prazer é o bem supremo. A palavra evoca, no senso comum, imagens de excesso e indulgência, banquetes romanos e desregramento moral. Mas o hedonismo filosófico é outra coisa: uma tradição ética milenar que começa com Aristipo de Cirene no século V a.C., ganha sua forma mais sofisticada com Epicuro e ressurge na modernidade como pedra angular do utilitarismo de Bentham e Mill. ...

Idealismo Filosófico: de Platão a Hegel — As Principais Vertentes e Críticas

Poucas tradições filosóficas atravessam a história do pensamento ocidental com tanta persistência quanto o idealismo. Desde a Teoria das Formas de Platão até o sistema absoluto de Hegel, passando pelo imaterialismo de Berkeley e pelo criticismo kantiano, a tese de que a realidade é, em última instância, constituída ou condicionada pelo pensamento, pela mente ou pelo espírito reaparece sob formas radicalmente diversas. Este artigo examina as principais vertentes do idealismo filosófico — suas premissas, seus argumentos, suas diferenças internas — e as críticas decisivas que lhe foram dirigidas por Marx, Russell e Moore. ...

Maimônides: Razão e Fé no Guia dos Perplexos — A Filosofia de Moses ben Maimon

No coração do século XII, entre mesquitas andaluzas, sinagogas norte-africanas e cortes islâmicas do Egito, um rabino, médico e filósofo empreendeu uma das sínteses intelectuais mais audaciosas da Idade Média: demonstrar que a razão filosófica e a revelação bíblica não se contradizem, mas se completam. Seu nome era Moses ben Maimon — em hebraico, Rambam; para o mundo latino, Maimônides. Nenhum outro pensador judeu medieval exerceu influência tão profunda e duradoura, tanto dentro do judaísmo quanto sobre a filosofia cristã e islâmica. ...

Nous: O Intelecto na Filosofia Grega — De Anaxágoras a Plotino e a Recepção Medieval

Poucos conceitos atravessam a história da filosofia ocidental com tanta persistência quanto o nous (νοῦς). A palavra grega designa, conforme o contexto, mente, intelecto, inteligência ou razão — mas seu alcance filosófico excede qualquer dessas traduções isoladas. Desde o momento em que Anaxágoras a elevou a princípio cósmico ordenador, passando pela elaboração platônica e pela análise aristotélica do intelecto no De Anima, até a metafísica emanacionista de Plotino e os intensos debates medievais entre Averróis e Tomás de Aquino, o nous constitui um fio condutor que liga cosmologia, psicologia e teologia em um único arco conceitual. ...

O Belo na Filosofia: Da Forma Platônica ao Sublime Kantiano — Uma História da Estética Filosófica

O que é o belo? A pergunta atravessa toda a história da filosofia ocidental — de Platão, que o identificou com uma Forma eterna, a Kant, que o situou no juízo do sujeito, até Nietzsche, que o devolveu ao corpo e à embriaguez da vida. A estética filosófica não é uma disciplina periférica: ela toca o coração da metafísica, da epistemologia e da ética, porque perguntar pelo belo é perguntar o que nos comove, o que vale e, em última instância, o que é real. ...

Pedro Abelardo: Lógica, Universais e a Ética da Intenção — O Rebelde da Escolástica

Nenhum filósofo do século XII provocou tantos tumultos — intelectuais e pessoais — quanto Pedro Abelardo (c. 1079–1142). Mestre incomparável de dialética, amante trágico de Heloísa, condenado duas vezes pela Igreja, ele transformou o panorama do pensamento medieval ao subordinar a autoridade à razão, propor uma solução original para o problema dos universais e fundar uma ética centrada na consciência individual. Sua vida é um drama que rivaliza com qualquer tragédia clássica; sua filosofia, uma antecipação de problemas que ocupariam a escolástica por séculos. ...

Physis (φύσις): Natureza, Devir e o Conceito Grego que Fundou a Filosofia

Se existe uma palavra capaz de condensar o gesto inaugural da filosofia ocidental, essa palavra é φύσις (physis). Antes que os gregos inventassem termos como “metafísica”, “ontologia” ou “epistemologia”, eles já possuíam physis — e, com ela, uma maneira radicalmente nova de interrogar a realidade. Os primeiros tratados filosóficos de que temos notícia se chamavam, quase todos, Περὶ φύσεως (Perì Phýseōs, “Sobre a Natureza”). Aristóteles chamava os pré-socráticos de physikoi — “os que investigam a physis”. A própria palavra “física” é filha direta desse conceito. ...

Plotino e o Neoplatonismo — O Uno, a Emanação e as Enéadas

Na passagem do século III d.C., quando as escolas filosóficas da Antiguidade pareciam ter esgotado suas possibilidades, um pensador nascido no Egito romano empreendeu a mais ambiciosa síntese metafísica que o mundo antigo conheceu. Plotino (c. 205–270 d.C.) não se limitou a comentar Platão: transformou o platonismo numa arquitetura ontológica completa, centrada na ideia de que toda a realidade emana de um princípio absoluto — o Uno — e que o destino da alma humana é retornar a essa unidade originária. ...

Schopenhauer e a Filosofia da Vontade — O Mundo como Vontade e Representação

Em 1818, um jovem filósofo de trinta anos publicou em Dresden uma obra que o mundo recebeu com indiferença quase absoluta: O Mundo como Vontade e Representação (Die Welt als Wille und Vorstellung). Arthur Schopenhauer estava convicto de ter decifrado o enigma do mundo — e não se enganava quanto à importância do que havia escrito, apenas quanto à paciência que precisaria ter. Décadas de obscuridade se passariam antes que a Europa reconhecesse nele um dos pensadores mais originais do século XIX: o filósofo que ousou afirmar que a essência da realidade não é razão, progresso ou espírito — mas um impulso cego, irracional e insaciável chamado Vontade. ...

Substância na Filosofia: De Aristóteles a Heidegger — História de um Conceito Fundamental

Poucos conceitos atravessaram a história da filosofia ocidental com tanta persistência — e tantas metamorfoses — quanto o de substância. Do grego ousia ao latim substantia, da forma aristotélica à mônada leibniziana, da res cogitans cartesiana ao substrato desconhecido de Locke, esse termo serviu de eixo para as mais decisivas questões metafísicas: O que existe de fato? O que permanece sob a mudança? O que é uma coisa independente de suas propriedades? ...

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