Rawls e Nozick: Justiça, Liberdade e o Grande Debate da Filosofia Política Contemporânea

O Encontro que Definiu uma Era Em 1971, John Rawls (1921–2002) publicou Uma Teoria da Justiça — obra que ressuscitou a filosofia política normativa depois de décadas de dominância positivista. Três anos depois, em 1974, Robert Nozick (1938–2002) respondeu com Anarquia, Estado e Utopia, que se tornaria a crítica libertária mais rigorosa ao programa rawlsiano. Ambos eram professores em Harvard. O debate que travaram — amigável pessoalmente, radical filosoficamente — permanece como o confronto mais produtivo da filosofia política anglofônica do século XX. ...

A Alegoria da Caverna e a Teoria das Formas: Platão e o Mundo Inteligível

Provavelmente nenhum texto filosófico, em vinte e cinco séculos de tradição ocidental, foi mais comentado, parafraseado, glosado e reinterpretado do que a passagem que abre o Livro VII da República de Platão. Em três páginas de tradução, Sócrates pede a Glauco que imagine homens acorrentados desde o nascimento no fundo de uma caverna, vendo apenas sombras projetadas numa parede — e propõe que essa cena descreve, com fidelidade espantosa, a condição comum dos seres humanos. Essa é a Alegoria da Caverna, e ela é, ao mesmo tempo, uma das peças mais célebres da filosofia e uma das mais sistematicamente mal compreendidas. Para lê-la com rigor, é preciso situá-la em seu contexto: ela é a terceira de três imagens articuladas — depois da metáfora do sol e da divisão da linha — que constituem o núcleo do pensamento maduro de Platão. ...

Contrato Social: Hobbes, Locke e Rousseau e a Fundação da Política Moderna

Por que devemos obedecer ao Estado? O que torna uma lei legítima e não uma simples ordem imposta pela força? Essas perguntas, na história da filosofia ocidental, encontram sua primeira formulação sistematicamente moderna nos séculos XVII e XVIII, com três pensadores que mudaram para sempre o vocabulário da política: Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau. Os três respondem de modos radicalmente diferentes, mas compartilham um mesmo método: o contratualismo — a ideia de que a legitimidade política deve ser pensada a partir de um pacto hipotético entre indivíduos livres. ...

Filosofia da Ciência: Popper, Kuhn e o Problema do Método

O que distingue uma teoria científica de um mito, de uma ideologia ou de um sistema metafísico? Por que aceitamos como conhecimento aquilo que a física diz, mas não aquilo que a astrologia ou a psicanálise — pelo menos em sua forma mais especulativa — afirmam? Essas perguntas, à primeira vista simples, abriram no século XX um dos debates mais consequentes da filosofia contemporânea. Suas duas figuras centrais — Karl Popper e Thomas Kuhn — formularam respostas que, longe de se conciliarem, redesenharam a paisagem da epistemologia. ...

Maquiavel e a Autonomia do Político: O Príncipe, Virtù e Fortuna

Nicolau Maquiavel (Niccolò Machiavelli, 1469–1527) é, ao lado de poucos outros, um dos nomes cuja obra dividiu a história da filosofia em antes e depois. Antes dele, a filosofia política pertencia ao gênero do “espelho de príncipes” — tratados que prescreviam ao governante as virtudes morais clássicas (prudência, justiça, fortaleza, temperança) e a obediência à lei divina. Depois dele, a política tornou-se um domínio autônomo, com lógica própria, que não pode ser reduzido à moral nem à teologia. Essa ruptura é tão decisiva que muitos historiadores fazem coincidir o nascimento da filosofia política moderna com a publicação de O Príncipe (1513). ...

Spinoza e o Panteísmo Racional: Deus sive Natura, Monismo e Conatus

Existe um filósofo que, escrevendo em latim em uma pequena casa em Haia no século XVII, formulou uma das visões de mundo mais radicais que a filosofia ocidental jamais produziu — e o fez sob a forma improvável de um tratado de geometria. Esse filósofo é Baruch (Bento) de Spinoza (1632–1677), e o tratado é a Ética demonstrada segundo a ordem geométrica, publicada postumamente no ano de sua morte. Em pouco mais de duzentas páginas, organizadas em definições, axiomas, proposições e demonstrações, Spinoza propõe simultaneamente uma metafísica do absoluto, uma teoria dos afetos humanos, uma psicologia do conhecimento e uma ética da liberdade. Sua influência atravessa três séculos — Lessing, Goethe, Hegel, Marx, Nietzsche, Deleuze, Antonio Damasio — e seu nome ainda funciona, na história da filosofia, como cifra de uma decisão intelectual: pensar Deus, a natureza e o ser humano como expressões de uma única realidade. ...

Deus, Ser e Existência: Provas, Críticas e a Pergunta Fundamental

A pergunta “Deus existe?” é, talvez, a mais antiga e a mais persistente da filosofia. Acompanha o pensamento ocidental desde os primeiros pré-socráticos — quando Xenófanes de Cólofon (c. 570–c. 475 a.C.) criticava o antropomorfismo dos deuses homéricos — até os debates analíticos contemporâneos sobre lógica modal e probabilidade bayesiana. No entanto, a pergunta, formulada nesses termos, esconde uma armadilha. Pois antes de perguntar se Deus existe, é preciso perguntar o que significa, para Deus, existir. E aqui se abre uma distinção decisiva, que separa o teísmo filosoficamente rigoroso da idolatria conceitual: a distinção entre existir (existere) e ser (esse). ...

A Verdade na Filosofia — De Alétheia à Pós-Verdade

Poucas questões atravessam a história da filosofia com tanta constância quanto a pergunta: o que é a verdade? De Parmênides a Foucault, cada época reformulou essa interrogação conforme seus pressupostos sobre a razão, a linguagem, o ser e o poder. O presente artigo percorre as principais estações desse itinerário — da alétheia grega à crise contemporânea da pós-verdade — não como mera cronologia, mas como mapa das tensões que ainda definem o pensamento filosófico. ...

Biopoder e Biopolítica — Foucault, Agamben e o Governo dos Corpos

Entre os séculos XVII e XVIII, uma transformação silenciosa alterou a natureza do poder político no Ocidente. O soberano, que antes se definia pela prerrogativa de matar — de tirar a vida dos súditos desobedientes —, passou a exercer uma forma de autoridade radicalmente nova: administrar, otimizar e regular a vida das populações. Michel Foucault chamou esse deslocamento de biopoder e, ao fazê-lo, inaugurou um dos campos conceituais mais produtivos da filosofia política contemporânea. ...

Existencialismo — Da Angústia à Liberdade: Kierkegaard, Heidegger, Sartre e Além

Nenhum movimento filosófico do século XX marcou tão profundamente a cultura, a literatura e a autocompreensão do ser humano quanto o existencialismo. Surgido das ruínas de duas guerras mundiais, do colapso das certezas metafísicas e da crise das instituições tradicionais, ele colocou no centro da filosofia aquilo que os grandes sistemas haviam negligenciado: a existência concreta, singular e irrepetível de cada indivíduo. O existencialismo não é uma escola com teses uniformes. É antes uma constelação — um conjunto de pensadores que, por caminhos diversos e às vezes conflitantes, convergem numa convicção: a filosofia deve partir da experiência vivida, da angústia, da liberdade e da finitude do ser humano, e não de abstrações lógicas ou sistemas totalizantes. ...

Francis Bacon — O Método Empírico e os Ídolos da Mente

Poucos filósofos podem reivindicar ter mudado, de forma tão deliberada e programática, a própria finalidade do conhecimento humano. Francis Bacon (1561–1626) não se limitou a propor uma teoria filosófica entre outras: concebeu uma reforma total do saber, um projeto que pretendia substituir a tradição aristotélica por um novo método capaz de gerar conhecimento útil, verificável e progressivo. O título da sua obra magna — Novum Organum (1620) — anuncia, já na capa, a ambição: um novo instrumento do pensamento, destinado a tomar o lugar do antigo Organon de Aristóteles que governava a lógica ocidental havia quase dois milênios. ...

Justiça na Filosofia — De Platão a Rawls e Além

Poucos conceitos atravessam toda a história da filosofia com tanta persistência quanto o de justiça. De Atenas no século V a.C. às universidades do século XX, a pergunta permanece essencialmente a mesma: o que é justo? As respostas, porém, variam radicalmente — e é precisamente nessa variação que reside o interesse filosófico. Este artigo percorre os principais marcos da reflexão sobre justiça no pensamento ocidental, desde o embate socrático com Trasímaco até as teorias contemporâneas de Amartya Sen e Martha Nussbaum. ...

Montaigne — Ensaios, Ceticismo e a Arte do Autoconhecimento

Michel Eyquem de Montaigne (1533–1592) é um daqueles raros pensadores cuja influência não se mede pela construção de um sistema, mas pela invenção de uma forma. Ao criar o ensaio — palavra que ele mesmo cunhou, do francês essai, tentativa — inaugurou um modo de pensar que recusa a pretensão de verdade definitiva e faz do próprio sujeito pensante o objeto e o instrumento da investigação. Seus Essais, publicados entre 1580 e 1595, permanecem entre os textos mais lidos e relidos da literatura ocidental, e sua relevância filosófica só cresceu com o tempo. ...

Mário Ferreira dos Santos: a Filosofia Concreta e o Projeto Sistemático Brasileiro

Mário Ferreira dos Santos (1907–1968) é, por amplitude de produção, o maior projeto sistemático de filosofia já tentado no Brasil. Sua Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais, planejada em mais de cinquenta volumes, é um empreendimento sem paralelo na história intelectual brasileira — e raro mesmo no contexto internacional do século XX, em que a filosofia académica abandonou progressivamente a forma sistemática. Independentemente das limitações que se possam apontar à obra — e elas existem —, o projeto de Mário Ferreira merece exame acadêmico sério: pelo escopo, pela ambição teórica e pela posição singular que ocupa entre a escolástica tomista, o pitagorismo, a fenomenologia e a tradição dialética alemã. Este artigo apresenta a vida, a obra e a doutrina central — a Filosofia Concreta — com rigor crítico e sem hagiografia. ...

Aristóteles em Nova Perspectiva: a Teoria dos Quatro Discursos de Olavo de Carvalho

Em 1996, Olavo de Carvalho publicou um livro curto e denso intitulado Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Independentemente das controvérsias que cercam a figura pública do autor, esse livro representa sua contribuição filosófica mais articulada e merece exame em seus próprios termos. Sua tese central — que o Órganon aristotélico, junto com a Retórica e a Poética, forma uma hierarquia unificada de quatro tipos de discurso — dialoga com problemas reais da história da filosofia e tem pontos de contato com leituras neoaristotélicas contemporâneas de Pierre Aubenque, Enrico Berti, Alasdair MacIntyre e Martha Nussbaum. ...

Sócrates, Platão e Aristóteles: a Tríade Fundadora e a Ordem da Filosofia Grega

Há três nomes que toda história da filosofia ocidental é obrigada a pronunciar nesta ordem: Sócrates, Platão e Aristóteles. Não é uma sequência arbitrária. Trata-se de uma cadeia de transmissão direta — Sócrates foi mestre de Platão; Platão foi mestre de Aristóteles — que, em pouco mais de um século, transformou Atenas no centro do pensamento racional do mundo antigo e fixou os problemas, os métodos e o vocabulário que a filosofia usaria pelos próximos dois mil anos. ...

Estoicismo — Ética, Virtude e a Arte de Viver segundo a Natureza

Entre todas as escolas filosóficas da Antiguidade, nenhuma exerceu influência tão prolongada e tão diversificada quanto o estoicismo. Fundado em Atenas por volta de 300 a.C. por Zenão de Cítio, o estoicismo atravessou cinco séculos, moldou o direito romano, infiltrou-se no cristianismo primitivo e ressurgiu com força no Renascimento, no Iluminismo e — mais recentemente — na psicoterapia cognitivo-comportamental e nos movimentos de autoajuda filosófica. A razão dessa longevidade é simples: o estoicismo oferece uma resposta coerente e praticável à pergunta mais urgente da existência humana — como viver bem num mundo que não controlamos? ...

Heidegger — Ser e Tempo, Dasein e a Questão do Ser

A história da filosofia ocidental pode ser lida, sem exagero, como a história do esquecimento do ser. Essa é a tese que atravessa toda a obra de Martin Heidegger (1889–1976) — possivelmente o filósofo mais influente e mais controverso do século XX. Ser e Tempo (1927), sua obra principal, não propôs mais uma teoria sobre o mundo, a mente ou a moral: propôs que a filosofia inteira — de Platão a Nietzsche — havia deixado impensada a sua questão mais fundamental: o que significa ser? ...

Tomás de Aquino — Fé e Razão, as Cinco Vias e a Síntese Escolástica

Se a filosofia medieval tivesse de ser representada por um único nome, esse nome seria Tomás de Aquino (1225–1274). Frade dominicano, teólogo e filósofo, Tomás empreendeu a mais ambiciosa síntese intelectual da Idade Média: harmonizar a filosofia de Aristóteles — recém-redescoberta no Ocidente latino através de traduções árabes e gregas — com a teologia cristã. O resultado foram duas Summae monumentais e dezenas de comentários, questões disputadas e opúsculos que moldaram a teologia católica, o direito natural, a ética política e a metafísica ocidental por séculos. ...

Freud e a Filosofia — Psicanálise, Inconsciente e o Mal-Estar na Civilização

Sigmund Freud (1856–1939) nunca se considerou filósofo — e fez questão de marcar a distância entre a psicanálise, que pretendia científica, e a especulação filosófica. No entanto, poucos pensadores do século XX exerceram influência tão profunda sobre a filosofia. A descoberta do inconsciente como instância determinante da vida psíquica representou um golpe decisivo na imagem do sujeito racional herdada do Iluminismo. Se Copérnico tirou a Terra do centro do universo e Darwin retirou o homem do centro da criação biológica, Freud desalojou o eu consciente do centro da vida mental — a terceira “ferida narcísica” da humanidade, como ele mesmo a chamou. ...

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