Lévinas — A Ética do Outro: Rosto, Alteridade e Responsabilidade

Imagine que toda a filosofia ocidental, de Parmênides a Heidegger, tenha cometido o mesmo gesto fundamental: reduzir o que é diferente ao que é idêntico, absorver o estranho no familiar, converter o Outro em um objeto do meu saber. Essa é a acusação que percorre a obra de Emmanuel Lévinas (1906–1995). Contra uma tradição que fez da pergunta pelo ser a sua questão maior, Lévinas afirma algo aparentemente simples e radicalmente subversivo: antes da ontologia há a ética. Antes de eu compreender o mundo, já estou obrigado por um rosto que me olha e diz “não matarás”. ...

Santo Agostinho — Confissões, o Tempo, o Livre-Arbítrio e a Cidade de Deus

Quando, no ano de 410, os godos de Alarico saquearam Roma — a cidade que por oito séculos se julgara eterna —, o mundo antigo sentiu ruir o chão sob os pés. Foi nesse clima de desorientação que um bispo do norte da África empreendeu, entre a meditação íntima e a teologia da história, a obra que faria dele a maior figura intelectual da Antiguidade tardia. Aurélio Agostinho de Hipona (354–430) viveu sobre a fronteira de duas eras: educado na retórica clássica greco-romana, converteu-se ao cristianismo e transformou a herança de Platão e Plotino no idioma filosófico do Ocidente medieval. Nele, a busca da verdade deixou de ser apenas contemplação do cosmos e passou a ser exploração do interior da alma. ...

Simone de Beauvoir: O Segundo Sexo e o Feminismo Existencialista

Durante décadas, manuais de filosofia trataram Simone de Beauvoir como um apêndice de Jean-Paul Sartre — a companheira talentosa que aplicou ao “problema feminino” ideias que, supostamente, não eram suas. Essa leitura é tenaz, mas a pesquisa recente a contesta: Beauvoir foi uma filósofa original, cujas contribuições à ética existencialista e à teoria da opressão antecedem, em pontos decisivos, formulações que mais tarde se atribuíram a Sartre. E foi ela, não ele, quem produziu a obra que fundaria filosoficamente o feminismo do século XX. Ler Beauvoir como pensadora por direito próprio não é um gesto de cortesia historiográfica: é uma exigência de rigor. ...

Wittgenstein: Do Tractatus às Investigações — Limites da Linguagem e Jogos de Linguagem

Poucos filósofos escreveram duas obras tão diferentes a ponto de uma parecer a refutação da outra — e ambas terem se tornado clássicas. Ludwig Wittgenstein é o caso paradigmático. O jovem que em 1921 publicou o Tractatus Logico-Philosophicus, convencido de ter resolvido em definitivo os problemas da filosofia, é o mesmo homem que, três décadas depois, deixou nas Investigações Filosóficas uma crítica meticulosa às suas próprias teses iniciais. Entre as duas obras está não apenas uma virada teórica, mas uma das histórias intelectuais mais singulares do século XX. Compreender Wittgenstein é compreender duas maneiras opostas de pensar o que a linguagem é e o que a filosofia pode fazer. ...

Bem-estar Animal: Peter Singer, Especismo e a Libertação Animal

Uma Revolução Moral Silenciosa Em 1975, o filósofo australiano Peter Singer publicou Animal Liberation — livro que se tornaria um dos textos filosóficos com maior impacto prático do século XX, dando impulso decisivo ao movimento pelos direitos animais e motivando mudanças na legislação de vários países. A tese central é ao mesmo tempo simples e radical: a exclusão dos animais não-humanos da consideração moral plena não tem justificação racional — é uma forma de preconceito comparável ao racismo e ao sexismo. ...

Bioética: Princípios, Dilemas e as Fronteiras da Vida

O Nascimento de um Campo O termo bioética foi cunhado pelo oncologista e bioquímico Van Rensselaer Potter em 1971, no livro Bioethics: Bridge to the Future. Para Potter, a bioética era uma disciplina de síntese entre as ciências biológicas e os valores humanos — uma “ponte” capaz de orientar a humanidade diante dos riscos que o progresso tecnológico impunha à sobrevivência da espécie e do ecossistema. Potter entendia a bioética em sentido amplo, quase ambiental, englobando a relação do ser humano com toda a biosfera. ...

Democracia Deliberativa e seus Críticos: Habermas, Schmitt e Mouffe

A Democracia como Problema Filosófico A democracia não é apenas um regime político — é um problema filosófico de primeira ordem. Ela levanta questões sobre a natureza da legitimidade (por que as decisões coletivas obrigam os que discordam?), sobre a relação entre facticidade e validade normativa (como normas positivamente vigentes podem aspirar à validade racional?), e sobre a possibilidade mesma de um espaço público de razões compartilhadas em sociedades marcadas por profundo pluralismo de valores. A teoria deliberativa da democracia é, no século XX, a tentativa mais sistemática de responder a estas questões a partir de uma perspectiva filosófica ancorada na tradição iluminista. ...

Estética do Século XX: Benjamin, Adorno, Heidegger, Danto e a Arte Contemporânea

A estética filosófica do século XX não tem um único centro. Ela se bifurca em pelo menos duas grandes tradições — a continental e a analítica —, cada uma com problemáticas próprias, mas convergindo, por caminhos distintos, numa questão comum: o que é arte? E, associada a ela: o que acontece com a arte quando a reprodução técnica dissolve a singularidade da obra, quando o mercado transforma a cultura em mercadoria, quando um urinol assinado é exposto num museu? ...

Ética Ambiental: Hans Jonas e o Princípio Responsabilidade

O Problema da Ética na Era Tecnológica A ética filosófica, desde os gregos até Kant, foi elaborada para um mundo de alcance humano limitado. As ações dos seres humanos afetavam o entorno imediato — a polis, a família, os contemporâneos. O futuro distante e a natureza não-humana permaneciam fora do escopo da consideração moral: eram domínios da teologia, da cosmologia ou simplesmente dados imutáveis do cenário no qual a ética operava. ...

Ética da Inteligência Artificial: Algoritmos, Poder e Responsabilidade

Tecnologia e Ética: Uma Relação Antiga, Um Problema Novo A inquietação ética diante do poder tecnológico não é nova. No século XX, Norbert Wiener — matemático do MIT e fundador da cibernética — dedicou o livro The Human Use of Human Beings (1950) a refletir sobre as implicações morais e sociais das máquinas automatizadas. Wiener alertava para os riscos de sistemas que, uma vez em operação, produzem consequências independentes da intenção original de seus criadores, e para a possibilidade de que a automação gerasse desemprego em massa e concentração de poder. ...

Filosofia da Religião: Teodiceia, Fideísmo e Experiência Religiosa

A filosofia da religião é um dos campos mais vastos e mais disputados da filosofia. Seu objeto não é a religião como fenômeno social ou cultural — isso compete à sociologia e à antropologia —, mas as afirmações de verdade que as tradições religiosas fazem: que Deus existe, que o mundo foi criado, que há vida após a morte, que certos textos são revelados. A pergunta filosófica não é “por que as pessoas creem?” mas “há razões para crer?” e “o que significa crer?”. ...

Filosofia do Direito: do Jusnaturalismo ao Positivismo, de Hart a Dworkin

Introdução: A Questão Fundamental “O que é o direito?” Esta pergunta, aparentemente simples, divide os pensadores há milênios. Ela não é apenas uma questão técnica de juristas: é uma pergunta filosófica profunda que envolve a relação entre lei e moral, entre poder e justiça, entre o que o direito é e o que ele deveria ser. As respostas dadas a ela estruturaram tradições inteiras e determinaram como os tribunais decidem casos que afetam vidas reais. ...

O Problema de Gettier: Conhecimento, Crença Verdadeira Justificada e as Respostas da Epistemologia Contemporânea

Em 1963, Edmund L. Gettier (1927–2021) publicou na revista Analysis um artigo de três páginas intitulado “Is Justified True Belief Knowledge?” (Analysis 23, 1963, pp. 121–123). Em menos de mil palavras, Gettier desfez um consenso de mais de dois milênios: a definição de conhecimento como crença verdadeira justificada. Dificilmente outro artigo tão curto produziu impacto tão duradouro na história da filosofia. 1. A definição clássica: JTB A definição tripartite do conhecimento — conhecimento como Justified True Belief (JTB, crença verdadeira justificada) — é frequentemente atribuída ao diálogo Teeteto de Platão (c. 369 a.C.), onde Sócrates examina e refuta sucessivamente três definições de conhecimento. Na passagem conhecida como “definição por contas” (logon didonai, 201d–210a), aparece algo próximo à concepção JTB, embora Platão termine por rejeitá-la também. ...

O Problema Mente-Corpo: Dualismo, Fisicalismo e Consciência

O Problema e Sua Persistência Poucos problemas filosóficos são ao mesmo tempo tão antigos e tão resistentes quanto o problema mente-corpo. Em sua formulação mais simples: qual é a relação entre a mente — com seus pensamentos, sensações, emoções, experiências — e o corpo, especialmente o cérebro? A questão parece imediata e até óbvia; a dificuldade está em respondê-la sem cair em contradições ou em mistérios maiores do que o original. ...

Pragmatismo: Peirce, James, Dewey, Rorty e a Tradição da Filosofia Americana

O pragmatismo é a contribuição mais original da América à história da filosofia. Nascido no final do século XIX num contexto de pós-guerra civil, de expansão científica e de transformação industrial, o pragmatismo recusou tanto o racionalismo europeu quanto o empirismo britânico para propor uma alternativa: a filosofia deve ser avaliada pelo que faz, não pelo que contempla; as ideias são instrumentos de ação, não espelhos da realidade. Este artigo percorre o pragmatismo clássico — Peirce, James, Dewey, Mead — e o neopragmatismo do século XX — Rorty, Putnam, Brandom, Misak. ...

A Escola de Frankfurt: Teoria Crítica, Razão e Emancipação

O Institut für Sozialforschung Em 1923, foi fundado em Frankfurt am Main o Institut für Sozialforschung (Instituto de Pesquisa Social) — a primeira instituição de pesquisa marxista independente em uma universidade alemã. Associado à Universidade de Frankfurt (hoje Goethe-Universität), o Instituto reuniria ao longo das décadas seguintes pensadores que dariam origem ao que se convencionou chamar de Escola de Frankfurt e sua Teoria Crítica. A expressão “Teoria Crítica” foi usada pelos próprios membros — especialmente por Max Horkheimer — para distinguir seu projeto de uma “teoria tradicional” (positivista, orientada para a descrição e a previsão) e de uma teoria meramente normativa (que prescreve sem analisar as condições de sua realização). A Teoria Crítica se propõe unir análise social e interesse emancipatório: compreender a sociedade a partir das contradições que ela mesma gera e que apontam para a possibilidade de sua transformação. ...

A Fenomenologia como Movimento: De Husserl a Merleau-Ponty

O Que é a Fenomenologia? “De volta às coisas mesmas!” — este princípio metodológico, associado a Edmund Husserl, resume a motivação fundamental do movimento fenomenológico: abandonar construções teóricas abstratas, hipóteses metafísicas não-verificadas e o pressuposto do naturalismo científico, para voltar a uma descrição rigorosa da experiência tal como ela se apresenta à consciência. O nome “fenomenologia” é literalmente o estudo (lógos) dos fenômenos (phainómena) — daquilo que se manifesta, que aparece. Mas o que aparece não é algo por trás do qual estaria a “coisa-em-si” oculta: o fenômeno, para Husserl, é precisamente aquilo que se dá à consciência em sua aparição, e é sobre essa aparição que a fenomenologia reflete. ...

Filosofia da Linguagem: Da Virada Linguística à Teoria do Significado

A Linguagem como Objeto Filosófico Por que a linguagem se tornou o problema central da filosofia no séc. XX? A resposta tem múltiplas dimensões. Primeiro, a descoberta de que muitos problemas filosóficos clássicos resultavam de confusões linguísticas — mal-entendidos sobre a forma lógica das proposições. Segundo, a percepção de que compreender como a linguagem funciona é compreender como pensamos e como nos relacionamos com o mundo. Terceiro, a revolução lógica iniciada por Frege, que forneceu ferramentas rigorosas para a análise da linguagem. ...

Identidade Pessoal: Locke, Hume, Parfit e a Questão da Continuidade do Eu

O Quebra-Cabeça da Identidade O que faz você ser a mesma pessoa que era aos cinco anos? As células do seu corpo se renovaram quase completamente. Suas crenças, desejos e memórias são radicalmente diferentes. Fisicamente, psicologicamente — quase tudo mudou. E no entanto dizemos que é a mesma pessoa. Por quê? E se você sofresse uma amnésia completa amanhã — sem nenhuma memória de hoje — seria ainda “você”? E se seu cérebro fosse dividido e cada metade transplantada em um corpo diferente — qual dos dois seria você? ...

Livre-Arbítrio: Compatibilismo, Determinismo e a Questão da Responsabilidade Moral

O Problema Imagine que cada pensamento que você tem, cada decisão que toma, cada movimento que faz, é o resultado necessário de estados cerebrais anteriores — que por sua vez resultam de estados físicos anteriores, numa cadeia que remonta ao Big Bang. Se isso for verdade, em que sentido você é livre para fazer diferente do que faz? E se não é livre, como podemos responsabilizá-lo moralmente por suas ações? ...

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