Secularização e A Era Secular: Charles Taylor e o Quadro Imanente

Por que, por volta de 1500, era praticamente impossível não crer em Deus na sociedade ocidental, ao passo que, por volta de 2000, a descrença tornou-se não apenas possível, mas, para muitos, a posição mais natural — às vezes a única concebível? Essa é a pergunta que move A Era Secular (A Secular Age, 2007), a obra mais ambiciosa do filósofo canadense Charles Taylor (n. 1931). O livro — quase novecentas páginas que nasceram de suas conferências Gifford de 1998–99, em Edimburgo, e lhe valeram o Prêmio Templeton de 2007 — recusa as explicações fáceis da secularização e propõe, em seu lugar, uma reconstrução histórica e filosófica de como mudaram, ao longo de cinco séculos, as próprias condições de crença no Ocidente. ...

A Abordagem das Capacidades: Sen, Nussbaum e o Desenvolvimento como Liberdade

Quando queremos saber se uma sociedade é justa ou se uma vida vai bem, o que devemos medir? A renda? A riqueza? A felicidade declarada? A abordagem das capacidades (capability approach), desenvolvida pelo economista e filósofo indiano Amartya Sen (n. 1933) e pela filósofa norte-americana Martha Nussbaum (n. 1947), responde de outro modo: o que importa é o que as pessoas são efetivamente capazes de ser e de fazer — as liberdades reais de que dispõem para viver a vida que têm razão de valorizar. É uma das contribuições mais influentes da filosofia política e da economia normativa das últimas décadas, na fronteira entre as duas disciplinas. ...

Byung-Chul Han: a Sociedade do Cansaço e o Sujeito de Desempenho

Por que tanta gente, numa época de liberdade sem precedentes, adoece de esgotamento, depressão e ansiedade? A resposta mais influente da filosofia recente vem de Byung-Chul Han (n. 1959), filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, autor de uma série de livros curtos e aforísticos que se tornaram fenômeno editorial mundial. Sua tese central é desconcertante: não adoecemos por excesso de repressão, mas por excesso de positividade — pela compulsão de poder, produzir e desempenhar que dirigimos contra nós mesmos. Este artigo reconstrói esse diagnóstico. ...

Filosofia Africana: Négritude, Etnofilosofia, Ubuntu e Pensamento Descolonial

A própria expressão “filosofia africana” é objeto de debate filosófico. Antes de qualquer doutrina, ela levanta uma pergunta sobre os critérios pelos quais reconhecemos algo como filosofia — critérios definidos, em grande parte, pela tradição ocidental. Este artigo percorre as principais correntes do pensamento filosófico africano, do Egito antigo aos debates contemporâneos, sem apagar nem essencializar uma diversidade que abrange um continente inteiro e sua diáspora. Três questões prévias Qualquer estudo do campo esbarra em três problemas metodológicos: ...

Filosofia Árabe-Islâmica Medieval: a Falsafa de Al-Farabi a Averróis

Entre os séculos IX e XII, enquanto a Europa latina conhecia apenas fragmentos de Aristóteles, o mundo islâmico foi o grande guardião e continuador da filosofia grega. A falsafa — transliteração árabe do grego philosophía — designa essa tradição que recebeu, comentou e transformou o legado de Aristóteles e do neoplatonismo, enfrentando o problema decisivo de articular a razão filosófica grega com a revelação corânica. Sem ela, não teria havido a redescoberta de Aristóteles no Ocidente nem, em boa medida, a Escolástica de Tomás de Aquino. Este artigo percorre seus protagonistas — Al-Kindi, Al-Farabi, Avicena, Al-Ghazali e Averróis — e o debate que os atravessa. ...

Filosofia Latino-americana e da Libertação: Zea, Dussel, Freire e o Pensamento Descolonial

A filosofia latino-americana tem uma peculiaridade que a distingue de outras tradições: ela se interroga sobre sua própria possibilidade antes de consolidar um corpo de doutrinas. A pergunta “existe uma filosofia genuinamente nossa?” não é sinal de fraqueza, mas traço constitutivo — resultado de uma história em que o pensamento foi importado, adaptado e, aos poucos, confrontado com a experiência concreta dos povos do continente. Este artigo percorre essa trajetória: do debate fundacional sobre a autenticidade até a Filosofia da Libertação, a pedagogia de Freire e o pensamento descolonial. ...

Filosofia Oriental: Confucionismo, Taoismo, Budismo e Vedānta

Falar em “filosofia oriental” no singular é, em rigor, uma simplificação ocidental: sob esse rótulo cabem tradições milenares e mutuamente independentes da China, da Índia e do Japão, separadas por línguas, problemas e pressupostos profundamente distintos. O que as une não é uma doutrina comum, mas o fato de terem desenvolvido — em paralelo às origens gregas da filosofia, no que Karl Jaspers chamou de Era Axial (c. séc. VIII–III a.C.) — respostas rigorosas e sistemáticas às grandes questões sobre a realidade, o conhecimento, o eu e a conduta correta. ...

Filosofia Russa: dos Eslavófilos a Soloviov, Berdiáev e Bakhtin

A filosofia russa é uma das grandes tradições nacionais da Europa — e também uma das mais singulares. Ela nasce tarde, no século XIX, e não no formato acadêmico e sistemático que marcou a Alemanha de Kant a Hegel, mas entrelaçada à literatura, à teologia e à urgência política. Seus problemas centrais não são primariamente epistemológicos, mas existenciais e éticos: o sentido da história, o destino da Rússia entre Oriente e Ocidente, a liberdade humana diante do mal, a possibilidade de uma comunidade justa. Não por acaso, seus textos filosóficos mais influentes incluem romances — os de Dostoiévski e Tolstói — e ensaios escritos por exilados, presos e padres. ...

Neoplatonismo Tardio: Porfírio, Jâmblico e Proclo

Com Plotino (c. 204/5–270 d.C.), o neoplatonismo deu à filosofia antiga sua última grande síntese: o Uno inefável, do qual tudo emana e ao qual tudo retorna. Mas a história não terminou aí. Nas gerações seguintes, discípulos e sucessores transformaram essa visão num sistema cada vez mais vasto e articulado — e, ao mesmo tempo, cada vez mais ligado à religião e ao ritual. Esse neoplatonismo tardio, de Porfírio a Proclo, foi a forma sob a qual o platonismo chegou à Idade Média latina, árabe e bizantina. Este artigo percorre seus três grandes nomes. (Para o ponto de partida, ver o artigo sobre Plotino e a emanação do Uno.) ...

Pós-colonialismo e Orientalismo: Said, Spivak, Bhabha e a Crítica do Discurso Colonial

A teoria pós-colonial é o conjunto de correntes que, a partir dos anos 1970–80, analisou criticamente os efeitos culturais, psíquicos e epistêmicos do colonialismo — não apenas durante o domínio colonial, mas em sua persistência depois das independências formais. Seu objeto não é principalmente a economia política do império (estudada por outras tradições), mas o discurso: as representações, os saberes e as estruturas de subjetividade que tornaram o colonialismo pensável, dizível e duradouro. Este artigo percorre seus precursores — Du Bois e Fanon — e a tríade que consolidou o campo: Said, Spivak e Bhabha. ...

Ética de Aristóteles: Eudaimonia, Virtude e o Justo Meio na Ética a Nicômaco

O que é uma vida boa? Não uma vida agradável, nem uma vida bem-sucedida aos olhos dos outros, mas uma vida verdadeiramente realizada, à altura do que somos. A resposta de Aristóteles a essa pergunta, exposta na Ética a Nicômaco, é uma das mais influentes da história — e, depois de séculos de relativo eclipse diante das morais do dever e do cálculo de consequências, voltou ao centro do debate filosófico contemporâneo sob o nome de “ética das virtudes”. Este artigo percorre o núcleo dessa ética: a eudaimonia como fim último, a virtude como hábito e justo meio, a prudência e a amizade. Para a metafísica de Aristóteles, veja o artigo sobre a substância; para sua teoria da justiça, o artigo sobre justiça. ...

Foucault: Poder-Saber, Disciplina e a Sociedade da Vigilância em Vigiar e Punir

Michel Foucault talvez seja o pensador mais citado das ciências humanas no último meio século — e também um dos mais difíceis de classificar. Não construiu um sistema, não fundou uma escola, recusou os rótulos de “estruturalista” e “pós-moderno”. O que deixou foi um conjunto de investigações históricas tão originais que reescreveram o vocabulário de disciplinas inteiras: o que entendemos hoje por “poder”, “discurso”, “normalização” e “vigilância” passou, em larga medida, por suas páginas. Este artigo percorre o núcleo de seu pensamento: o método arqueológico e genealógico, a tese de que poder e saber são inseparáveis e a análise da sociedade disciplinar em Vigiar e Punir. ...

Hegel: A Dialética, a Fenomenologia do Espírito e a Dialética do Senhor e do Escravo

Poucos filósofos foram tão decisivos e, ao mesmo tempo, tão mal compreendidos quanto Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Seu nome evoca de imediato uma fórmula — “tese, antítese, síntese” — que ele praticamente nunca usou, e um vocabulário tão denso que gerações de leitores recuaram diante da primeira página. No entanto, por trás da dificuldade está uma das ideias mais ambiciosas da história do pensamento: a de que a realidade, a história e o próprio pensamento obedecem a um único movimento, e que esse movimento pode ser compreendido. Entender Hegel é entender o que significa pensar dialeticamente — e por que, dois séculos depois, marxistas, existencialistas, teóricos críticos e filósofos políticos continuam a discutir com ele. ...

Sartre: Liberdade, Má-Fé e a Tese de que a Existência Precede a Essência

“O homem está condenado a ser livre.” Poucas frases resumem tão bem um filósofo, e poucas foram tão repetidas e tão mal compreendidas. Jean-Paul Sartre foi o rosto público do existencialismo no século XX — romancista, dramaturgo, militante e celebridade intelectual —, mas por trás da figura midiática há um sistema filosófico rigoroso, construído sobre uma ontologia da consciência. Este artigo concentra-se nas teses propriamente sartrianas: a distinção entre o em-si e o para-si, a fórmula “a existência precede a essência”, a liberdade radical e seu peso, a má-fé e a experiência do outro. Para o panorama do movimento existencialista como um todo, veja o artigo dedicado ao existencialismo. ...

David Hume: Empirismo, Causalidade, Indução e a Lei de Hume

Imagine que você solta uma pedra mil vezes e mil vezes ela cai. Você está absolutamente seguro de que ela cairá na milésima primeira. Mas pare e pergunte: o que, exatamente, justifica essa certeza? Você nunca viu a “necessidade” de a pedra cair — viu apenas pedras caindo. A passagem do que aconteceu para o que vai acontecer parece óbvia, e no entanto, quando a examinamos, nenhuma prova lógica a sustenta. Este pequeno abismo, aberto por David Hume no século XVIII, ainda não foi fechado. Ele engole a causalidade, a indução, o eu e boa parte da metafísica — e é o melhor lugar para começar a entender por que Hume é, talvez, o mais perturbador dos filósofos modernos. ...

Derrida: Desconstrução, Différance e a Metafísica da Presença

Há uma experiência que talvez você já tenha vivido diante de um texto de Derrida: a sensação de que as palavras escorregam, de que o argumento se dobra sobre si mesmo, de que o autor parece mais interessado em desestabilizar o terreno do que em construir uma tese. Essa impressão não é um acidente nem uma falha de exposição — é, em larga medida, o ponto. Derrida não queria propor uma nova doutrina sobre a verdade ou a linguagem para somar à lista das que a filosofia já produziu. Queria mostrar que a própria pretensão de fixar um sentido último, pleno, presente a si mesmo, é o pressuposto frágil sobre o qual toda a tradição ocidental se edificou — e que esse pressuposto não se sustenta. ...

Gilles Deleuze: Diferença, Repetição, Rizoma e Imanência

Há filósofos que constroem sistemas e há filósofos que demolem o terreno sobre o qual os sistemas são construídos. Gilles Deleuze fez as duas coisas ao mesmo tempo. Sua obra é, por um lado, uma das tentativas metafísicas mais ambiciosas do século XX — uma ontologia da diferença e da multiplicidade que pretende reescrever a história inteira da filosofia ocidental. Por outro, é uma máquina de guerra contra a maneira como o pensamento ocidental sempre se representou a si mesmo: contra a primazia da identidade, da semelhança e da representação. Deleuze não quis acrescentar mais uma doutrina ao catálogo; quis mudar a imagem mesma do que significa pensar. E o fez forjando um vocabulário próprio — diferença em si, virtual, rizoma, corpo sem órgãos, plano de imanência — que tornou seus livros simultaneamente fascinantes e notoriamente difíceis. ...

Karl Marx: Materialismo Histórico, Mais-Valia e Fetichismo da Mercadoria

Poucos pensadores do século XIX projetaram uma sombra tão longa sobre o XX e o XXI quanto Karl Marx. Filósofo, economista, jornalista e militante, Marx não fundou apenas uma corrente filosófica: forneceu um vocabulário — classe, ideologia, mais-valia, modo de produção — que se infiltrou na sociologia, na história, na economia e na crítica cultural, mesmo entre autores que o rejeitam. Este artigo concentra-se em três eixos do seu pensamento maduro: o materialismo histórico, a crítica da economia política e a teoria da ideologia. A alienação, conceito central do jovem Marx, é tratada em artigo próprio e aqui apenas mencionada quando indispensável. ...

Kierkegaard: Os Estágios da Existência, a Angústia e o Salto de Fé

Há filósofos que constroem sistemas e filósofos que dinamitam sistemas. Søren Kierkegaard pertence ao segundo grupo — mas com uma diferença decisiva: o que ele quis salvar dos escombros do grande edifício hegeliano não foi outra teoria, e sim o indivíduo singular que existe, sofre, decide e morre. Contra a pretensão de explicar a realidade inteira a partir de um conceito, ele opôs uma pergunta aparentemente modesta e, no entanto, abissal: o que significa, para mim, existir? ...

Leibniz: Mônadas, Teodiceia e o Melhor dos Mundos Possíveis

Imagine um universo composto por uma infinidade de pontos de vista, cada um deles uma alma minúscula que, sem nunca olhar pela janela, reflete dentro de si o cosmos inteiro — e que, no entanto, está em acordo perfeito com todos os outros, como se cada relógio de um vasto salão tivesse sido ajustado de uma vez para marcar a mesma hora pela eternidade. Esse é o mundo de Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716): o último grande sábio universal da modernidade, matemático, lógico, jurista, diplomata, historiador e teólogo, que tentou a mais ambiciosa das sínteses — reconciliar a ciência mecânica de seu tempo com a metafísica das substâncias e com a teologia cristã. Sua filosofia é, ao mesmo tempo, um dos sistemas mais coerentes já construídos e uma das pontes que ligam Aristóteles à lógica matemática do século XX. ...

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