Filosofia da Tecnologia: Heidegger, Ellul, Mumford e a Questão da Técnica

Vivemos cercados por instrumentos, máquinas, sistemas e algoritmos com uma naturalidade tal que raramente perguntamos o que, afinal, é a técnica. Ela costuma aparecer como um conjunto neutro de meios à disposição de fins que escolhemos livremente: um martelo, uma usina elétrica, um smartphone seriam, todos, “apenas ferramentas” — bons ou maus conforme o uso que delas fazemos. A filosofia da tecnologia nasce precisamente da suspeita de que essa neutralidade é uma ilusão confortável. Desde a Antiguidade, mas com uma urgência inédita a partir do século XX, uma linhagem de pensadores — de Aristóteles a Heidegger, de Ellul a Mumford — insistiu que a técnica não é um meio indiferente aos fins humanos, mas um modo de estar no mundo que configura antecipadamente o que contamos como real, como natureza, como verdade e até como ser humano. ...

Filosofia da Educação: da Paideia Grega a Rousseau, Dewey e Freire

O que significa formar um ser humano? Poucas perguntas atravessam a história da filosofia com tanta persistência — e poucas têm consequências tão imediatas sobre a vida de cada pessoa e de cada sociedade. Educar é conduzir alguém para fora da ignorância ou é ajudá-lo a desenvolver o que já traz em si? É moldar o caráter segundo um modelo ou libertar uma capacidade de julgar por conta própria? Este artigo percorre as principais respostas filosóficas a essas perguntas, da paideia grega às pedagogias contemporâneas, passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, Comênio, Locke, Rousseau, Kant, Dewey e Freire. ...

Filosofia da História: Sentido, Progresso e a Crítica ao Historicismo

Existe um sentido na história? Um fio condutor, uma direção, talvez até uma lei que governe a sucessão dos impérios, das revoluções e das ideias — ou a história é apenas, como dizia Shakespeare por outras palavras, “som e fúria, nada significando”? Essa pergunta, que parece simples, abriga na verdade duas perguntas muito diferentes, e a confusão entre elas é responsável por boa parte dos mal-entendidos que cercam a “filosofia da história”. A primeira pergunta é especulativa: qual é o sentido, o motor ou a lei do processo histórico como um todo? A segunda é crítica ou epistemológica: como se conhece o passado, que tipo de ciência (se é que é uma ciência) é a história, e o que significa “compreender” um acontecimento humano? Este artigo percorre as respostas mais influentes dadas à primeira pergunta — de Agostinho a Fukuyama — e mostra como, no século XX, a segunda pergunta se voltou contra a primeira, num movimento de desconfiança que vai de Dilthey a Popper e Lyotard. ...

O Núcleo da Filosofia de Nietzsche: Vontade de Potência, Eterno Retorno e Genealogia da Moral

Poucos filósofos foram tão lidos e tão mal lidos quanto Friedrich Nietzsche. Reduzido, em certas vulgatas, a um profeta do “vale tudo” ou, pior, sequestrado pela propaganda nazista que sua própria irmã ajudou a fabricar, Nietzsche construiu na verdade um dos edifícios filosóficos mais rigorosos e mais afirmativos do século XIX — um pensamento que não se contenta em diagnosticar a crise dos valores ocidentais, mas propõe, a partir dela, uma tarefa: criar valores novos, dizer sim à vida tal como ela é, com seu sofrimento e sua alegria, sem o consolo de mundos metafísicos ou de além-vidas compensatórias. Já tratamos em outro artigo do diagnóstico niilista de Nietzsche e de sua ressonância com a sociedade contemporânea — Nietzsche e o Niilismo. Este texto percorre o outro lado da mesma moeda: o núcleo positivo de sua filosofia, dos primeiros escritos sobre a tragédia grega às noções mais discutidas (e mais deturpadas) de seu pensamento — vontade de potência, eterno retorno e além-do-homem. ...

Lógica: de Aristóteles a Gödel — a arquitetura da inferência válida

Todo argumento pretende nos convencer de algo a partir de outra coisa: de certas premissas, extrai-se uma conclusão. Mas o que torna essa passagem legítima? Por que “todos os homens são mortais; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal” parece uma inferência irrepreensível, enquanto “alguns cisnes são brancos; este animal é um cisne; logo, este animal é branco” não é? A resposta a essa pergunta — o que faz um raciocínio valer — é o objeto da lógica, uma das mais antigas e mais tecnicamente sofisticadas disciplinas da filosofia. Nascida como reflexão sobre a arte da demonstração e do debate, a lógica atravessou vinte e cinco séculos até se tornar, no século XX, uma ciência formal capaz de esclarecer — e também de revelar os limites — da própria razão matemática. ...

A ética de Kant: o imperativo categórico, o dever e a autonomia da vontade

Num mundo em que ações boas produzem resultados desastrosos e ações vis produzem prosperidade, o que ainda pode ser chamado de bom sem reservas? Immanuel Kant respondeu a essa pergunta com uma clareza que perturbou a filosofia moral por mais de dois séculos: apenas a boa vontade merece o título de bem incondicionado. Não o talento, não a coragem, não mesmo a felicidade — pois todos esses bens podem ser usados para fins perversos. Somente a vontade que age por puro respeito à lei moral, independentemente de suas consequências, possui valor moral em si mesma. A partir dessa intuição inaugural, Kant construiu, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) e na Crítica da Razão Prática (1788), a arquitetura ética mais ambiciosa e mais discutida da modernidade. ...

Deontologia, consequencialismo e ética da virtude: as três grandes teorias normativas

Você se depara com uma promessa que não pode cumprir sem causar dano a terceiros. Deve mantê-la, ou quebrá-la para evitar o mal? Um juiz sabe que condenar um inocente acalmará uma multidão que, do contrário, fará linchamentos e matará vinte pessoas. Deve sacrificar o inocente? Não há resposta simples — e é exatamente esse desconforto que revela por que a filosofia moral precisa de teorias. Há três grandes famílias de resposta à pergunta “o que torna uma ação moralmente correta?”: o consequencialismo, que olha para os resultados; a deontologia, que olha para deveres e regras; e a ética da virtude, que olha para o caráter do agente. Compreender como cada uma pensa, onde cada uma acerta e onde tropeça é o mapa mínimo para qualquer debate ético sério. ...

Filosofia do tempo: McTaggart, presentismo, eternalismo e a duração de Bergson

Há perguntas que a filosofia herda de cada geração sem jamais devolvê-las resolvidas. A questão do tempo é, talvez, a mais resistente de todas. Santo Agostinho, nas Confissões (livro XI), enunciou o paradoxo com uma clareza que nenhum filósofo posterior conseguiu superar: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicar a quem me pergunta, não sei.” A dificuldade não é retórica. O tempo é a condição de tudo o que existe — mudança, causalidade, memória, esperança — e, precisamente por ser tão onipresente, escapa a qualquer tentativa de defini-lo de fora, como se fosse um objeto entre outros. Este artigo percorre os principais nós da metafísica contemporânea do tempo: o argumento de McTaggart sobre a irrealidade do tempo, o debate entre presentismo e eternalismo, a teoria da passagem temporal, a durée de Bergson e a assimetria entre passado e futuro. ...

Filosofia da matemática: logicismo, formalismo, intuicionismo e o teorema de Gödel

Quando um matemático afirma que 2 + 2 = 4, parece dizer algo indubitavelmente verdadeiro. Mas o que exatamente torna essa afirmação verdadeira? O número 2 existe em algum lugar — numa Forma platônica, num símbolo sobre papel, numa construção da mente? E como chegamos a conhecer verdades matemáticas sem precisar observar nenhum fato empírico? Essas perguntas, de aparência ingênua, são o coração de uma das áreas mais exigentes da filosofia: a filosofia da matemática. Nos séculos XIX e XX, elas deixaram de ser especulação marginal e tornaram-se urgência intelectual, desencadeando uma das crises mais fecundas da história do pensamento — uma crise cujas reverberações ainda moldam a lógica, a computação e a filosofia da mente contemporâneas. ...

A Vida Intelectual, de Sertillanges: o estudo como vocação, suas condições e seus métodos

Pode alguém que não é um sábio de profissão levar uma vida intelectual? O livro que melhor respondeu a essa pergunta no século XX é breve, prático e quase austero: A Vida Intelectual: Seu Espírito, Suas Condições, Seus Métodos, publicado em 1921 pelo frade dominicano Antonin Sertillanges. Mais de cem anos depois, ele continua a ser lido — fora de qualquer contexto religioso — como o melhor manual de ética e disciplina do estudo já escrito. Este artigo percorre suas teses centrais, seguindo a própria estrutura anunciada no subtítulo: o espírito, as condições e os métodos do trabalho intelectual. ...

O Grande Inquisidor: a parábola de Dostoiévski sobre liberdade, fé e poder

No coração de Os Irmãos Karamázov (1880), de Dostoiévski, há um capítulo que ganhou vida própria e se tornou um dos textos mais comentados da filosofia política, da teologia e da literatura: “O Grande Inquisidor”. É um “poema” — assim o chama seu autor ficcional — que condensa, em poucas páginas, a mais formidável objeção já formulada contra a liberdade humana. Este artigo o examina por dentro: seu enredo, sua arquitetura argumentativa e as camadas de leitura que o tornaram inesgotável. ...

Dostoiévski: a filosofia dos romances — liberdade, fé e o abismo do niilismo

Fiódor Dostoiévski (1821–1881) não foi um filósofo no sentido técnico: não escreveu tratados, não construiu um sistema, não definiu conceitos com rigor escolar. E, no entanto, poucos pensadores marcaram tanto a filosofia do século XX. A razão é que seus romances funcionam como laboratórios de ideias: em vez de demonstrar teses, ele as encarna em personagens e as leva até as últimas consequências, fazendo-as colidir umas com as outras. Este artigo expõe a filosofia que pulsa por trás de suas obras — a defesa da liberdade contra a razão calculista, o niilismo e seu abismo, o problema do mal e a resposta da fé. ...

O problema do bonde: dilemas morais, duplo efeito e os limites do consequencialismo

Um bonde desgovernado avança sobre cinco pessoas presas aos trilhos. Você está ao lado de uma alavanca que pode desviá-lo para um ramal — onde há apenas uma pessoa. Puxar a alavanca? A maioria diz que sim. Agora outra cena: não há alavanca, mas você está numa passarela ao lado de um homem corpulento; empurrá-lo sobre os trilhos deteria o bonde e salvaria os cinco. A maioria, agora, recusa. Por que cinco-por-um é aceitável num caso e repugnante no outro, se a aritmética é a mesma? Essa é a forma mais célebre do problema do bonde — talvez o experimento mental mais conhecido da ética. ...

O ceticismo: de Pirro e Sexto Empírico a Descartes, Hume e o cérebro na cuba

Podemos conhecer alguma coisa? O ceticismo é a corrente que leva essa pergunta a sério — e, em suas versões mais radicais, responde que não, ou ao menos que não temos como saber. Mais do que uma atitude de dúvida casual, é uma posição (e, na Antiguidade, um modo de vida) que se tornou o grande motor da epistemologia: boa parte das teorias do conhecimento nasceu da tentativa de responder ao desafio cético. Este artigo percorre suas formas antigas e modernas e as principais respostas que recebeu. ...

Utilitarismo: de Bentham e Mill a Singer — a maior felicidade e suas críticas

Poucas teorias morais foram tão influentes — e tão atacadas — quanto o utilitarismo. Sua ideia central é desconcertantemente simples: a ação correta é aquela que produz a maior quantidade de bem-estar para o maior número de afetados. Nascido como filosofia reformadora na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, moldou o direito penal, a economia do bem-estar, as políticas públicas e, mais recentemente, a ética animal e o combate à pobreza global. Este artigo expõe sua estrutura, seus principais autores e as objeções que o perseguem. ...

O sentido da vida e o absurdo: de Schopenhauer e Camus a Nagel e Susan Wolf

Poucas perguntas são tão imediatas e tão difíceis quanto esta: a vida tem sentido? Ela pode irromper numa madrugada de insônia, num luto ou no tédio de uma rotina, e desafia tanto o crente quanto o cético. Embora seja antiquíssima em substância — atravessa o Eclesiastes, os estoicos e Agostinho —, só recentemente tornou-se um tema explícito e tecnicamente trabalhado da filosofia. Este artigo percorre suas formulações principais: a crise do sentido cósmico, o pessimismo, o absurdo de Camus, a resposta irônica de Nagel e a virada analítica que distingue o sentido da vida do sentido na vida. ...

Feminismo: ondas, correntes filosóficas e críticas

O feminismo não é uma doutrina única, mas uma família heterogênea de teorias e movimentos — frequentemente em tensão entre si — que têm em comum a tese de que as relações entre os sexos envolvem desigualdades que merecem exame crítico. Como objeto de estudo filosófico, é também um dos campos mais controversos do pensamento contemporâneo: divide-se internamente em correntes que discordam quanto ao diagnóstico, quanto às causas e quanto às soluções, e atrai objeções vigorosas de fora. Este artigo mapeia a história (o esquema das “ondas”), as principais correntes, os conceitos centrais e — com atenção particular — as críticas que o feminismo recebeu, de dentro e de fora. ...

Pós-estruturalismo e pós-modernidade: Lyotard, Baudrillard e o fim das grandes narrativas

No fim dos anos 1960, a confiança estruturalista em sistemas estáveis começou a rachar por dentro. Os pensadores que levaram o estruturalismo ao seu limite — Jacques Derrida, o Michel Foucault da genealogia, Gilles Deleuze, o Roland Barthes tardio, Julia Kristeva — ficaram conhecidos (sobretudo na academia anglófona) como pós-estruturalistas. Por volta da mesma época, formou-se um diagnóstico mais amplo: o de uma condição pós-moderna. Dois filósofos franceses lhe deram as formulações mais influentes — Jean-François Lyotard, com a incredulidade diante das grandes narrativas, e Jean Baudrillard, com o hiper-real e o simulacro. Este artigo percorre o momento pós-estruturalista e o debate sobre o pós-moderno. ...

Estruturalismo: De Saussure a Lévi-Strauss, Barthes, Lacan e Althusser

Durante cerca de duas décadas — dos anos 1950 ao início dos 1970 —, uma única ideia reorganizou as ciências humanas francesas e, por extensão, boa parte do pensamento ocidental: a ideia de que os fenômenos humanos mais diversos (a língua, o parentesco, os mitos, a moda, o inconsciente, a ideologia) devem ser compreendidos como sistemas de relações — como estruturas — e não como coleções de coisas isoladas, nem como produtos de uma consciência individual. Esse foi o estruturalismo: menos uma doutrina unificada do que um método e um clima intelectual, exportado da linguística para a antropologia, a crítica literária, a psicanálise e o marxismo. Este artigo segue esse percurso, de Saussure a seus herdeiros, até a virada pós-estruturalista que o levou ao limite. ...

Marxismo Ocidental: Lukács, Gramsci, Frankfurt e Althusser

Depois da Revolução Russa de 1917, esperava-se que a revolução se espalhasse pela Europa industrializada. Não se espalhou: as insurreições alemã e húngara de 1918–1919 foram esmagadas, e o capitalismo ocidental sobreviveu. Dessa derrota nasceu uma das tradições mais ricas do pensamento do século XX — o marxismo ocidental. Diante do fracasso da revolução no Ocidente e do enrijecimento do marxismo soviético em dogma de Estado, um grupo de pensadores reabriu as questões que a ortodoxia havia fechado: por que as massas não se rebelaram? Como a cultura, a ideologia e a consciência sustentam a dominação? Que lugar têm a filosofia e a estética na luta política? Este artigo percorre essa tradição, de seus fundadores em 1923 à virada estrutural de Althusser. ...

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