Poucos conceitos atravessaram a história da filosofia ocidental com tanta persistência — e tantas metamorfoses — quanto o de substância. Do grego ousia ao latim substantia, da forma aristotélica à mônada leibniziana, da res cogitans cartesiana ao substrato desconhecido de Locke, esse termo serviu de eixo para as mais decisivas questões metafísicas: O que existe de fato? O que permanece sob a mudança? O que é uma coisa independente de suas propriedades?
Este artigo percorre a trajetória do conceito de substância desde Aristóteles até seu questionamento radical na filosofia contemporânea, examinando como cada grande sistema filosófico o redefiniu, expandiu ou contestou.
1. Aristóteles: a fundação do conceito
1.1 Ousia nas Categorias
O ponto de partida é Aristóteles (c. 384–322 a.C.). Nas Categorias, ele distingue substância primeira (protē ousia) e substância segunda (deutera ousia). A substância primeira é o indivíduo concreto — este homem, este cavalo — aquilo que não se predica de nenhum sujeito nem existe em nenhum sujeito. Ela é o substrato último de toda predicação: dizemos que Sócrates é homem, que é branco, que está sentado, mas Sócrates mesmo não se predica de nada.
A substância segunda, por sua vez, designa as espécies e os gêneros sob os quais a substância primeira se classifica: “homem” e “animal” são substâncias segundas de Sócrates. Elas dizem o que a substância primeira é, mas não existem independentemente dos indivíduos.
As demais categorias — quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, posse, ação, paixão — são acidentes: só existem em uma substância. A brancura existe em Sócrates; sem Sócrates (ou algum outro substrato), a brancura não subsiste por si.
1.2 Ousia na Metafísica: hilemorfismo
Na Metafísica (especialmente os livros centrais Ζ, Η e Θ), Aristóteles reformula e aprofunda o conceito. Agora a substância é analisada em termos de matéria (hylē) e forma (morphē/eidos) — a doutrina do hilemorfismo. A substância concreta — o sínolo — é o composto de matéria e forma. A estátua de bronze é bronze (matéria) organizado segundo determinada configuração (forma).
Aristóteles oscila entre diferentes candidatos ao título de substância primordial: a matéria (substrato que recebe todas as determinações), a forma (o que faz a coisa ser o que é), o composto, ou a essência (to ti ēn einai — “o que era ser” para algo). Nos livros centrais da Metafísica, a conclusão predominante é que a forma é substância em sentido primário, pois é ela que confere determinação e inteligibilidade ao ente.
1.3 Ato e potência
A doutrina da substância se articula com os conceitos de ato (energeia) e potência (dynamis). A matéria é potência — capacidade de receber formas; a forma é ato — realização determinada. O movimento (mudança) é passagem de potência a ato. A substância, no seu sentido mais pleno, é ato puro: o Motor Imóvel, pensamento que pensa a si mesmo, é substância suprema precisamente porque nele não há potencialidade alguma.
2. A escolástica: substância, acidentes e transubstanciação
2.1 A recepção latina de Aristóteles
Quando as obras de Aristóteles foram traduzidas para o latim nos séculos XII e XIII — muitas vezes via versões árabes de Avicena e Averróis —, o termo ousia foi vertido como substantia (literalmente, “o que está por baixo”, sub-stare). Os escolásticos medievais herdaram e refinaram a distinção entre substância e acidentes, integrando-a ao quadro da teologia cristã.
2.2 Tomás de Aquino: ente, essência e existência
Tomás de Aquino (1225–1274) efetuou a mais ambiciosa síntese entre Aristóteles e o pensamento cristão. Em Sobre o Ente e a Essência (De Ente et Essentia), ele distingue a essência (o que uma coisa é) da existência (o fato de que ela é). Nas criaturas, essência e existência são realmente distintas: a essência de um cavalo não implica que ele exista. Somente em Deus essência e existência coincidem — Deus é o ipsum esse subsistens, o próprio ser subsistente, ato puro de existir.
A substância criada é, portanto, um composto de essência e existência. Os acidentes — cor, tamanho, posição — dependem da substância para existir, mas são realmente distintos dela. Essa distinção real entre substância e acidentes permitiu a formulação filosófica da doutrina teológica da transubstanciação: na Eucaristia, segundo a teologia católica, a substância do pão se converte na substância do corpo de Cristo, enquanto os acidentes (aparência, sabor, textura) permanecem inalterados. O Concílio de Trento (1545–1563) ratificou essa formulação, mostrando como um conceito filosófico grego encontrou aplicação diretamente teológica.
2.3 Duns Scotus e Suárez
Outros escolásticos introduziram variações importantes. Duns Scotus (c. 1266–1308) propôs que o conceito de ser é unívoco — diz-se no mesmo sentido de Deus e das criaturas —, contra a analogia tomista. Francisco Suárez (1548–1617), nas Disputationes Metaphysicae, sistematizou a metafísica escolástica de modo tão completo que influenciou diretamente os filósofos modernos: Descartes, Leibniz e Wolff leram Suárez com atenção.
3. Descartes: duas substâncias
3.1 A revolução cartesiana
René Descartes (1596–1650) rompe com a tradição aristotélico-escolástica, mas conserva o vocabulário da substância. Nos Princípios da Filosofia (1644, parte I, art. 51), ele define substância como aquilo que existe de tal modo que não precisa de nenhuma outra coisa para existir — definição que as Meditações sobre Filosofia Primeira (1641) já pressupõem, embora sem formulá-la nesses termos. Em sentido estrito, somente Deus satisfaz essa definição. Mas em sentido derivado, existem duas substâncias criadas radicalmente distintas:
- Res cogitans (coisa pensante): a mente, cuja essência é o pensamento. É indivisível, não-espacial, livre.
- Res extensa (coisa extensa): o corpo/matéria, cuja essência é a extensão em comprimento, largura e profundidade. É divisível, espacial, mecânica.
3.2 O problema da interação
O dualismo cartesiano gera um problema célebre: como duas substâncias de naturezas absolutamente distintas — pensamento e extensão — podem interagir? Como a mente (imaterial) move o corpo (material)? Descartes ensaiou uma resposta apelando à glândula pineal como ponto de contato, mas a solução foi amplamente considerada insatisfatória. Esse “problema mente-corpo” mobilizou toda a filosofia do século XVII e determinou os rumos da metafísica racionalista subsequente.
4. Spinoza: a substância única
4.1 Deus sive Natura
Baruch de Spinoza (1632–1677) resolve o dualismo cartesiano pelo caminho mais radical: há uma única substância, que é Deus, ou seja, a Natureza (Deus sive Natura). Na Ética Demonstrada segundo a Ordem Geométrica (1677), ele parte de definições rigorosas: substância é aquilo que existe em si e por si é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não depende do conceito de outra coisa. Ora, demonstra Spinoza, só pode haver uma substância, pois se houvesse duas, uma limitaria a outra, e nenhuma seria verdadeiramente infinita.
4.2 Atributos e modos
Essa substância única possui infinitos atributos, dos quais conhecemos dois: pensamento e extensão. Pensamento e extensão não são, portanto, duas substâncias (como queria Descartes), mas dois atributos de uma mesma e única substância. Todos os seres individuais — mentes e corpos — são modos, ou seja, modificações finitas da substância infinita. Sócrates não é uma substância: é um modo da substância divina sob o atributo do pensamento (enquanto mente) e sob o atributo da extensão (enquanto corpo).
4.3 Consequências
O monismo spinozano tem consequências radicais: não há livre-arbítrio (tudo acontece por necessidade), não há Deus pessoal (Deus não é um ser separado do mundo, mas o próprio mundo em sua totalidade), e a liberdade humana consiste não em escapar à necessidade, mas em compreendê-la — agir por causas internas adequadas em vez de ser dominado por paixões externas.
5. Leibniz: as mônadas como substâncias simples
5.1 Contra o monismo
Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716) concorda com Spinoza em rejeitar o dualismo cartesiano, mas recusa o monismo: a substância não pode ser uma só, porque isso aniquila a individualidade das coisas. Na Monadologia (1714), Leibniz propõe que a realidade é composta de infinitas mônadas — substâncias simples, indivisíveis, imateriais, sem partes e portanto “sem janelas” (nada entra nelas nem delas sai por meio de interação causal).
5.2 Percepção e harmonia pré-estabelecida
Cada mônada é um centro de percepção e apetição: ela espelha o universo inteiro de seu próprio ponto de vista, com maior ou menor grau de clareza. A mônada humana (espírito) tem percepções claras e distintas; as mônadas inferiores percebem de modo confuso. Deus, a Mônada Suprema, criou todas as demais e coordenou seus estados internos por meio de uma harmonia pré-estabelecida: não há interação real entre as substâncias, mas seus estados se correspondem porque Deus os programou para funcionar em sincronia perfeita.
5.3 Substância como força
Para Leibniz, a essência da substância não é a extensão (como para Descartes), mas a força (vis). A substância é atividade, enteléquia — termo emprestado de Aristóteles. A matéria extensa, por si só, é passiva e inerte; a verdadeira realidade é a força viva que subjaz à aparência corpórea.
6. Locke: o substrato desconhecido
6.1 A crítica empirista
John Locke (1632–1704), no Ensaio sobre o Entendimento Humano (1690), aborda a substância de um ângulo radicalmente diferente: o epistemológico. Locke pergunta: de onde vem nossa ideia de substância? Não da experiência direta, pois nunca percebemos a substância em si — percebemos apenas qualidades (cores, formas, pesos). A ideia de substância é, portanto, a ideia de um substrato desconhecido (substratum), um “algo, não sei o quê” (something, I know not what) que supostamente sustenta as qualidades que efetivamente percebemos.
6.2 Um conceito obscuro, mas inevitável
Locke não nega a existência da substância; apenas reconhece que não temos dela uma ideia clara e distinta. Não sabemos o que é a substância; sabemos apenas que deve haver algo que serve de suporte às qualidades observadas. Essa confissão de ignorância prepara o terreno para a crítica mais radical de David Hume e, finalmente, para a revolução kantiana.
7. Kant: substância como categoria do entendimento
7.1 A revolução copernicana
Immanuel Kant (1724–1804) reformula inteiramente o problema. Na Crítica da Razão Pura (1781/1787), a substância deixa de ser uma propriedade das coisas em si mesmas e se torna uma categoria do entendimento — uma forma a priori que o sujeito aplica à experiência para torná-la inteligível.
7.2 A Primeira Analogia da Experiência
Na seção das “Analogias da Experiência”, Kant formula o Princípio da Permanência da Substância: em toda mudança dos fenômenos, a substância permanece e sua quantidade na natureza não aumenta nem diminui. Esse princípio não é extraído da experiência (como queria Locke), mas é condição a priori da possibilidade da experiência: só podemos perceber mudanças se pressupomos algo permanente que subjaz a elas. Sem substância permanente, a própria distinção entre mudança e sucessão temporal seria impossível.
7.3 Os limites do conceito
Contudo, Kant restringe rigorosamente o alcance do conceito: a substância é legítima apenas no domínio dos fenômenos — do mundo tal como nos aparece. Não podemos aplicá-la à coisa-em-si (Ding an sich), ao mundo tal como é independentemente de nossas formas de percepção e pensamento. A metafísica tradicional, que pretendia conhecer substâncias suprassensíveis (Deus, alma, mundo como totalidade), ultrapassa os limites da experiência possível e cai em ilusões — as antinomias e os paralogismos da razão pura.
8. O abandono do conceito na filosofia contemporânea
8.1 Heidegger: a destruição da ontologia da substância
Martin Heidegger (1889–1976) empreende uma crítica radical da noção de substância. Em Ser e Tempo (1927), ele argumenta que a metafísica ocidental, desde Platão e Aristóteles, interpretou o ser como presença constante (ousia como parousia, permanência) — e essa interpretação culminou na noção de substância como coisa subsistente, estável, dada. Heidegger chama isso de esquecimento do ser: ao reduzir o ser à substância, a tradição obscureceu a questão mais fundamental — a diferença ontológica entre ser e ente.
O modo de ser humano — o Dasein — não pode ser compreendido como substância. O Dasein não é uma coisa com propriedades; ele é ser-no-mundo, abertura, cuidado (Sorge), projeto lançado. Pensar o ser humano como substância pensante (Descartes) é, para Heidegger, recair na mesma metafísica da presença que impede de compreender a temporalidade radical da existência.
8.2 A filosofia analítica: da substância aos feixes de propriedades
Na tradição analítica, o conceito de substância sofreu uma erosão gradual. Bertrand Russell e outros empiristas lógicos retomaram a crítica humeana: se a substância não é observável, para que postulá-la? A alternativa mais influente é a teoria do feixe (bundle theory): um objeto não é uma substância que tem propriedades, mas simplesmente um feixe de propriedades co-instanciadas. Não há substrato oculto por trás da brancura, dureza e forma esférica — o objeto é esse conjunto de qualidades.
Outros filósofos analíticos — como P.F. Strawson em Individuals (1959) — tentaram reabilitar a noção de substância (ou “particular básico”) como condição de possibilidade do nosso esquema conceitual: precisamos de substâncias (corpos e pessoas) para poder re-identificar objetos ao longo do tempo e construir um discurso coerente sobre o mundo.
8.3 Whitehead: do substancialismo ao processualismo
Alfred North Whitehead (1861–1947), na Process and Reality (1929), substituiu a ontologia da substância por uma ontologia do processo: a realidade última não é constituída por substâncias permanentes, mas por ocasiões de experiência (actual occasions) — eventos momentâneos de autoconstitução criativa. A substância estática cede lugar ao devir dinâmico.
9. O conceito de substância em perspectiva
A história do conceito de substância é, em larga medida, a história da própria metafísica ocidental. Cada redefinição marca uma mudança de paradigma filosófico:
| Filósofo | Substância é… | Obras de referência |
|---|---|---|
| Aristóteles | Composto de matéria e forma (sínolo); primordialmente, a forma | Categorias, Metafísica |
| Tomás de Aquino | Composto de essência e existência; em Deus, ato puro de ser | De Ente et Essentia, Suma Teológica |
| Descartes | Res cogitans e res extensa — duas substâncias irredutíveis | Meditações, Princípios da Filosofia |
| Spinoza | Deus/Natureza — substância única com infinitos atributos | Ética |
| Leibniz | Mônada — substância simples, imaterial, sem janelas | Monadologia, Discurso de Metafísica |
| Locke | Substrato desconhecido que suporta as qualidades percebidas | Ensaio sobre o Entendimento Humano |
| Kant | Categoria a priori do entendimento, válida só para fenômenos | Crítica da Razão Pura |
| Heidegger | Conceito a ser destruído — obscurece a questão do ser | Ser e Tempo |
De Aristóteles a Heidegger, a substância passou de fundamento ontológico incontestável a conceito que precisa ser superado. Mas mesmo sua dissolução atesta sua centralidade: compreender por que a filosofia contemporânea abandonou a substância exige compreender por que, durante dois milênios, ela pareceu indispensável.
O conceito de substância não é apenas um capítulo da história da filosofia — é o fio condutor pelo qual essa história se deixa narrar.
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