Em 1963, Edmund L. Gettier (1927–2021) publicou na revista Analysis um artigo de três páginas intitulado “Is Justified True Belief Knowledge?” (Analysis 23, 1963, pp. 121–123). Em menos de mil palavras, Gettier desfez um consenso de mais de dois milênios: a definição de conhecimento como crença verdadeira justificada. Dificilmente outro artigo tão curto produziu impacto tão duradouro na história da filosofia.


1. A definição clássica: JTB

A definição tripartite do conhecimento — conhecimento como Justified True Belief (JTB, crença verdadeira justificada) — é frequentemente atribuída ao diálogo Teeteto de Platão (c. 369 a.C.), onde Sócrates examina e refuta sucessivamente três definições de conhecimento. Na passagem conhecida como “definição por contas” (logon didonai, 201d–210a), aparece algo próximo à concepção JTB, embora Platão termine por rejeitá-la também.

Independentemente das origens históricas, a definição canônica que Gettier visava pode ser formulada assim: um agente S sabe que p se e somente se:

  1. p é verdadeira (condição de verdade);
  2. S crê que p (condição de crença);
  3. S está justificado em crer que p (condição de justificação).

Esta definição parecia intuitivamente correta e filosoficamente robusta. Ela exige que o que se sabe seja verdadeiro (conhecimento não é sobre falsidades), que o sujeito realmente creia (conhecimento não é mero acerto), e que haja boas razões para a crença (conhecimento não é palpite sortudo).


2. Os contra-exemplos de Gettier

Gettier apresentou dois casos que satisfazem todas as três condições da definição JTB mas nos quais, intuitivamente, o agente não possui conhecimento.

2.1 O caso de Smith e o emprego

Smith candidatou-se a um emprego. Smith tem boas razões (justificação) para crer que Jones obterá o emprego (o diretor disse-lhe isso, e Jones tem dez moedas no bolso). Com base nisso, Smith forma a crença justificada de que “o homem que obterá o emprego tem dez moedas no bolso”.

Acontece que, na verdade, Smith é quem obterá o emprego — e Smith também tem, sem saber, dez moedas no próprio bolso. A proposição “o homem que obterá o emprego tem dez moedas no bolso” é verdadeira, e Smith estava justificado em crerela — mas a razão pela qual ela é verdadeira nada tem a ver com a razão pela qual Smith a cria. Intuitivamente, Smith não sabe que o homem que obterá o emprego tem dez moedas.

2.2 O caso de Jones e o Ford

Smith tem boas razões para crer que Jones possui um Ford (Jones sempre possuiu Fords, acabou de chegar num Ford, etc.). Com base nisso, Smith infere — validamente — que “ou Jones tem um Ford, ou Brown está em Barcelona”. Smith não tem ideia de onde Brown está.

Acontece que Jones não tem mais um Ford (alugou um carro); mas, por pura coincidência, Brown realmente está em Barcelona. A disjunção é verdadeira. Smith estava justificado em crer nela. Mas Smith não sabe que a disjunção é verdadeira — pois a razão pela qual é verdadeira (Brown estar em Barcelona) é completamente independente da sua justificação (que era sobre o Ford de Jones).

2.3 A estrutura dos casos Gettier

O que os dois casos têm em comum é uma estrutura: a crença do agente está justificada por evidências que, em princípio, poderiam sustentar a verdade da proposição, mas a proposição acaba sendo verdadeira por outra razão, não pela razão que constituía a justificação. Há uma “ruptura causal” ou “desvio” entre justificação e verdade. O agente tem justificação, tem crença, e tem verdade — mas tudo por acidente. Isso é o suficiente para mostrar que JTB não é suficiente para o conhecimento.


3. Respostas pós-Gettier

O artigo de Gettier inaugurou quase seis décadas de esforço filosófico para “reparar” a definição de conhecimento. As estratégias principais são:

3.1 Condição adicional: sem lemas falsos (Clark)

Michael Clark (1963) propôs imediatamente uma solução: conhecimento requer que a justificação do agente não passe por nenhuma proposição falsa (lema falso). Nos casos Gettier, a justificação de Smith passa por uma crença falsa (que Jones obterá o emprego; que Jones tem um Ford). Se exigirmos que o caminho inferencial seja inteiramente composto de verdades, os casos são bloqueados.

Objeção: Roderick Chisholm e outros construíram casos Gettier que não envolvem lemas falsos explícitos — casos em que a crença justificada é verdadeira mas por coincidência, sem que haja uma premissa falsa identificável na cadeia inferencial.

3.2 Confiabilismo: Alvin Goldman

Alvin Goldman (n. 1938) propôs, em “A Causal Theory of Knowing” (Journal of Philosophy, 1967), que o conhecimento requer uma conexão causal apropriada entre o fato que torna a proposição verdadeira e a crença do agente. Nos casos Gettier, a crença é causada pela evidência errada — há uma ruptura causal.

Goldman desenvolveu posteriormente o confiabilismo (reliabilism): em Epistemology and Cognition (1986), a condição de justificação é substituída pela condição de que a crença seja produzida por um processo cognitivo confiável — um processo que, em condições normais, produz majoritariamente crenças verdadeiras. O conhecimento é crença verdadeira produzida por processo confiável.

O confiabilismo enfrenta o problema do demônio maligno: se um gênio maligno cartesiano enganasse sistematicamente um sujeito cujos processos cognitivos são objetivamente pouco confiáveis no cenário hipotético, intuitivamente esse sujeito ainda pode ter crenças justificadas — o que sugere que a justificação não depende apenas da confiabilidade do processo.

3.3 Tracking theory: Nozick

Robert Nozick (1938–2002), em Philosophical Explanations (1981, cap. 3), propôs a teoria da “rastreabilidade” (tracking theory): S sabe que p se e somente se:

  1. p é verdadeira;
  2. S crê que p;
  3. Sensibilidade: se p fosse falsa, S não creria que p (condicional contrafactual);
  4. Aderência: se p fosse verdadeira (em mundos próximos), S creria que p.

A condição de sensibilidade bloqueia os casos Gettier: no caso do emprego, se não fosse verdade que o homem que obteria o emprego teria dez moedas, Smith ainda creria nisso — pois sua crença baseia-se na evidência sobre Jones. Logo, a condição de sensibilidade não é satisfeita, e Smith não sabe.

Objeção: a teoria de Nozick não é fechada sob implicação lógica conhecida — isso parece contraintuitivo. Se sei que sou humano e sei que humanos são mortais, devo saber que sou mortal; mas a teoria de Nozick pode bloquear isso em certos casos.

3.4 Safety: Sosa e Williamson

Ernest Sosa (n. 1940) e Timothy Williamson (n. 1955) desenvolveram, de modo independente, a noção de safety (segurança) como condição para o conhecimento: S sabe que p somente se, nas condições em que S crê que p, p não poderia facilmente ter sido falsa. Diferentemente da sensibilidade de Nozick (que é sobre mundos possíveis onde p é falsa), a safety é sobre mundos próximos onde S crê da mesma maneira.

A safety captura a intuição de que o conhecimento não pode ser mera sorte: se S teria podido facilmente crer que p mesmo que p fosse falsa — como nos casos Gettier —, então S não sabe.

3.5 Epistemologia da virtude: Sosa e Zagzebski

Sosa, em Knowledge in Perspective (1991) e A Virtue Epistemology (2007), propõe que conhecimento é crença verdadeira que manifesta competência cognitiva — uma virtude intelectual estável do sujeito. Nos casos Gettier, a verdade da crença não se deve à competência do agente, mas ao acaso — logo, não há conhecimento.

Linda Zagzebski (n. 1946), em Virtues of the Mind (1996), levou a epistemologia da virtude ao extremo e argumentou que qualquer análise que mantivesse a estrutura “crença verdadeira + X” estaria vulnerável a casos análogos aos de Gettier. A razão estrutural é que é sempre possível separar a verdade da crença da condição adicional X através de uma coincidência. Zagzebski concluiu que a teoria do conhecimento deve abandonar a análise em condições necessárias e suficientes e adotar um enfoque centrado na excelência intelectual do agente.


4. Knowledge-first: Williamson

Timothy Williamson, em Knowledge and its Limits (2000), propôs uma virada radical: em vez de analisar o conhecimento em termos de componentes mais simples (crença + verdade + justificação + X), devemos tomar o conhecimento como um estado mental primitivo e analisar a crença, a evidência e a justificação em termos de conhecimento.

A tese central de Williamson é que o conhecimento é o estado mental mais geral: “E = K” — a evidência de S é exatamente o que S sabe. A justificação é definida em termos de evidência, e evidência em termos de conhecimento. A tentativa de analisar o conhecimento em termos de componentes mais simples está condenada ao fracasso — como décadas de contra-exemplos demonstraram. O conceito de conhecimento é irredutível.

Esta posição, conhecida como knowledge-first (conhecimento em primeiro lugar), inverteu a ordem tradicional da epistemologia e teve enorme influência nas últimas décadas.


5. O pessimismo definitional de Zagzebski

Zagzebski, antes de sua virada para a epistemologia da virtude, argumentou em “The Inescapability of Gettier Problems” (The Philosophical Quarterly, 1994) que o problema de Gettier é insolúvel dentro da estrutura de análise JTB+X. A demonstração é elegante: qualquer condição X que se adicione a JTB pode ser “separada” da verdade por uma coincidência dupla — primeiro, garante-se que a crença é justificada (no sentido de X); segundo, introduz-se uma coincidência que torna a crença verdadeira por razão completamente diferente. O problema de Gettier é estrutural, não acidental.

A conclusão de Zagzebski não é cética — não é que o conhecimento seja impossível, mas que o conhecimento não pode ser definido pela adição de condições à crença verdadeira. A epistemologia precisa de uma arquitetura diferente.


6. Significado filosófico do problema

Por que o artigo de três páginas de Gettier tem importância filosófica tão desproporcional ao seu tamanho? Porque ele mostrou que análises filosóficas podem ser sistematicamente falsificadas por contra-exemplos, mesmo quando parecem intuitivamente corretas. Esse método — buscar contra-exemplos a definições filosóficas — tornou-se o procedimento central da filosofia analítica nas décadas seguintes.

Além disso, o problema de Gettier revelou que a noção de “justificação” na definição JTB está subdeterminada: para uns, justificação é ter boas razões; para outros, é ser produto de um processo confiável; para outros ainda, é manifestar uma virtude intelectual. A resposta que se dá ao problema de Gettier depende do que se pensa que a justificação é.

Finalmente, a proposta de Williamson de tratar o conhecimento como primitivo levanta uma questão mais profunda: a filosofia analítica, ao buscar definir o conhecimento, pode ter escolhido a direção errada. Talvez o conhecimento não seja um composto, mas um fundamento.


Leituras essenciais

  • Edmund Gettier, “Is Justified True Belief Knowledge?”, Analysis 23, 1963, pp. 121–123.
  • Alvin Goldman, “A Causal Theory of Knowing”, Journal of Philosophy, 1967.
  • Alvin Goldman, Epistemology and Cognition (1986).
  • Robert Nozick, Philosophical Explanations (1981), cap. 3.
  • Ernest Sosa, Knowledge in Perspective (1991); A Virtue Epistemology (2007).
  • Linda Zagzebski, Virtues of the Mind (1996).
  • Linda Zagzebski, “The Inescapability of Gettier Problems”, The Philosophical Quarterly, 1994.
  • Timothy Williamson, Knowledge and its Limits (2000).

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