O pragmatismo é a contribuição mais original da América à história da filosofia. Nascido no final do século XIX num contexto de pós-guerra civil, de expansão científica e de transformação industrial, o pragmatismo recusou tanto o racionalismo europeu quanto o empirismo britânico para propor uma alternativa: a filosofia deve ser avaliada pelo que faz, não pelo que contempla; as ideias são instrumentos de ação, não espelhos da realidade.
Este artigo percorre o pragmatismo clássico — Peirce, James, Dewey, Mead — e o neopragmatismo do século XX — Rorty, Putnam, Brandom, Misak.
1. O Metaphysical Club: contexto e origem
O ponto de origem convencional do pragmatismo é o Metaphysical Club, um grupo informal que se reuniu em Cambridge, Massachusetts, por volta de 1872. Entre seus membros estavam Charles Sanders Peirce (1839–1914), William James (1842–1910), o jurista Oliver Wendell Holmes Jr. (1841–1935) e o filósofo Chauncey Wright (1830–1875). O grupo discutia Darwin, probabilidade, lógica e teoria do conhecimento num espírito de ceticismo sistemático em relação às grandes metafísicas especulativas.
O nome “Metaphysical Club” era semi-irônico: o grupo não queria fundar uma metafísica, mas dissolvê-la. A pergunta central que os unia era: o que diferença faz uma diferença filosófica? Ou seja: quando duas posições filosóficas produzem exatamente as mesmas consequências práticas, elas são na verdade a mesma posição, independentemente das diferenças verbais.
2. Charles Sanders Peirce: a máxima pragmática e a semiótica
2.1 “How to Make Our Ideas Clear”
O texto fundador do pragmatismo é o artigo de Peirce “How to Make Our Ideas Clear” (Popular Science Monthly, 1878). Nele, Peirce formulou o que chamou de máxima pragmática: para determinar o significado de qualquer concepção, é necessário considerar quais efeitos concebíveis — que possam ter relevância prática — o objeto dessa concepção produz. A soma de todos esses efeitos é o significado da concepção.
A máxima tem uma implicação imediata: conceitos que não fazem nenhuma diferença prática concebível carecem de significado cognitivo. Uma distinção filosófica que não produz nenhuma diferença em nenhuma situação possível é uma pseudodistinção. Isso não é cientismo — Peirce não reduz o significado ao verificável empírico; ele reduz-o ao diferença concebível para a conduta.
2.2 Falibilismo e abdução
Peirce desenvolveu o falibilismo: nenhuma crença está imune à revisão. O conhecimento é sempre provisório, produto de uma comunidade de investigação que converge, a longo prazo, para a verdade. A verdade é o que a comunidade de investigação — metodicamente conduzida — acabará por aceitar no limite ideal.
Peirce também distinguiu três formas de inferência: a dedução (necessária), a indução (amplificativa, probabilística) e a abdução (geração de hipóteses explicativas). A abdução — o salto inferencial que cria novas hipóteses a partir de fatos surpreendentes — é a forma de raciocínio mais criativa e a menos estudada na lógica clássica.
2.3 Semiótica triádica
A semiótica de Peirce organiza o signo em três elementos: representâmen (o signo em si), objeto (o que o signo representa) e interpretante (o efeito mental produzido). Esta tríade, a que se acrescentam complexas taxonomias das classes de signos (ícone, índice, símbolo; qualisigno, sinsigno, legisigno etc.), constitui a base da semiótica moderna e distingue radicalmente a abordagem peirciana da semiótica diádica de Saussure.
3. William James: pragmatismo como método e teoria da verdade
3.1 Pragmatism (1907)
William James tornou o pragmatismo famoso com as conferências publicadas em Pragmatism: A New Name for Some Old Ways of Thinking (1907). James apresentou o pragmatismo em dois sentidos: como método (para resolver disputas filosóficas estéreis, pergunte: que diferença prática faz esta doutrina?) e como teoria da verdade.
A teoria da verdade de James é o ponto mais controverso do pragmatismo clássico: uma ideia é verdadeira na medida em que é útil para acreditar nela — “verdadeiro é aquilo que é bom para acreditar de modo absoluto” (Pragmatism, cap. 6). Verdade é o que “funciona”, o que se verifica, o que nos leva com êxito através da experiência.
Esta formulação foi atacada por Bertrand Russell, G. E. Moore e outros: não é verdade que tudo que é útil acreditar é por isso verdadeiro (pode ser útil acreditar numa ilusão reconfortante). James respondeu que a utilidade de que fala não é utilitarismo moral imediato, mas conformidade com a experiência e com as demais crenças do sistema.
3.2 The Will to Believe (1897)
Em The Will to Believe (1897), James defendeu que em certas condições é racionalmente legítimo acreditar numa proposição que a evidência disponível não prova conclusivamente. As condições são: (1) a opção é viva (ambas as alternativas são realmente concebíveis para o agente), forçada (não há posição neutra) e momentosa (a decisão é irreversível ou de grande importância); (2) a evidência não é suficiente para decidir. Nessas condições — e James pensa aqui especialmente na fé religiosa — a “vontade de crer” é justificada.
3.3 O pluralismo e a experiência pura
Em A Pluralistic Universe (1909) e Essays in Radical Empiricism (póstumo, 1912), James desenvolveu o empirismo radical: a realidade é composta de “experiência pura”, um tecido neutro de eventos que precede a divisão sujeito/objeto. A metafísica do pluralismo opõe-se ao absolutismo de Hegel (tudo está conectado num Absoluto) e ao dualismo cartesiano.
4. John Dewey: instrumentalismo, educação e democracia
4.1 O instrumentalismo
John Dewey (1859–1952) é o pragmatista de maior influência social. Sua versão do pragmatismo chamou-se instrumentalismo: as ideias, as teorias e os conceitos são instrumentos para resolver problemas. A investigação é um processo de reconstrução da experiência — começa numa situação problemática (uma dúvida genuína, uma perturbação do equilíbrio entre organismo e ambiente) e termina quando a situação foi reconstituída em termos satisfatórios.
Em Logic: The Theory of Inquiry (1938), Dewey propôs uma lógica que não é formal-dedutiva, mas investigativa: a unidade lógica básica não é o proposição isolada, mas a situação de investigação — o processo completo que vai da situação problemática à sua resolução.
Em Experience and Nature (1925), Dewey recusou a distinção tradicional entre experiência e natureza: a experiência não é o véu que separa a mente da natureza, mas o modo como a natureza se manifesta no organismo vivo. A filosofia deve ser naturalista sem ser reducionista.
4.2 Democracia e educação
O engajamento social de Dewey foi tão importante quanto sua contribuição teórica. Em Democracy and Education (1916), sua obra mais influente, propôs que educação não é transmissão de conteúdo, mas reconstrução da experiência: aprender é resolver problemas, e a escola deve reproduzir, em miniatura, a dinâmica da vida democrática.
A democracia, para Dewey, não é apenas um sistema de governo — é um modo de vida associado, uma forma de organização social em que os indivíduos cooperam e se comunicam, desenvolvendo suas capacidades e contribuindo para as dos outros. The Public and Its Problems (1927) é sua filosofia política mais elaborada.
4.3 Art as Experience (1934)
Em Art as Experience (1934), Dewey propôs uma estética que reconecta a arte à experiência ordinária. A experiência estética não é uma categoria separada — é a experiência em sua forma mais completa e integrada. A arte não está nos museus; está em todo ato de fazer e perceber que tem qualidade estética: um bom artesão, um ato cirúrgico preciso, uma refeição bem preparada.
5. George Herbert Mead: o self social
George Herbert Mead (1863–1931), professor na Universidade de Chicago, desenvolveu uma filosofia do self e da linguagem de profunda influência. Mind, Self, and Society (publicado postumamente em 1934, a partir de notas de aulas) propõe que o self não é uma entidade pré-social, mas emerge do processo de interação social. O eu (I) e o mim (me) são fases do self: o me é a internalização das atitudes dos outros; o I é a resposta espontânea a essas atitudes.
A linguagem, para Mead, é o mecanismo pelo qual o self emerge: o gesto significante — especialmente o gesto vocal — produz no falante a mesma resposta que produz no ouvinte, criando a possibilidade da comunicação simbólica e do pensamento reflexivo. Esta análise de Mead influenciou profundamente a sociologia (interacionismo simbólico de Blumer) e a psicologia social.
6. Neopragmatismo: Rorty, Putnam, Brandom, Misak
6.1 Richard Rorty: anti-fundacionismo
Richard Rorty (1931–2007), em Philosophy and the Mirror of Nature (1979), propôs que a metáfora dominante da filosofia moderna — o conhecimento como espelho da natureza, a mente como representação do mundo — deve ser abandonada. Descartes, Locke e Kant inauguraram um projeto de epistemologia fundacionista: encontrar representações privilegiadas que espelham a realidade e servem de fundamento para todo o conhecimento.
Rorty, seguindo Sellars, Quine e Davidson, argumenta que esse projeto fracassou. Não há representações privilegiadas, não há critério neutro para avaliar as nossas teorias contra a realidade “nua”. O que temos são práticas de justificação que variam historicamente e se transformam em resposta a novos problemas.
Em Contingency, Irony, and Solidarity (1989), Rorty desenvolveu o pragmatismo num sentido liberal e literário: a filosofia deve abandonar a pretensão de descobrir verdades eternas e tornar-se um instrumento de expansão da solidariedade humana — pela narrativa, pela imaginação moral, pela escuta das experiências de sofrimento que a linguagem dominante não reconhece.
6.2 Hilary Putnam: realismo pragmático
Hilary Putnam (1926–2016) percorreu um percurso complexo — do realismo científico ao pragmatismo. Em suas obras tardias (The Many Faces of Realism, 1987; Renewing Philosophy, 1992), propôs um “realismo interno” ou “realismo pragmático”: não podemos falar da realidade independentemente de todo esquema conceptual, mas isso não significa que toda descrição seja igualmente boa. O pluralismo conceptual é compatível com a objetividade dos valores e dos fatos — incluindo os valores epistêmicos como a coerência, a simplicidade e a explicatividade.
6.3 Robert Brandom: pragmatismo normativo
Robert Brandom (n. 1950), em Making It Explicit: Reasoning, Representing, and Discursive Commitment (1994), propôs o pragmatismo mais tecnicamente sofisticado da virada do milênio. Brandom sustenta que o significado linguístico é constituído por normas de comprometimento e autorização inferencial (inferential commitment and entitlement): o que uma afirmação significa é determinado pelo que ela autoriza inferir e pelo que é necessário para estar comprometido com ela.
Esta posição — chamada expressivismo inferencial — inscreve-se na tradição de Sellars e Frege, mas a transforma radicalmente: a semântica é derivada da pragmática normativa. Brandom mostra que os conceitos normativos (dever, permissão, comprometimento) são irredutíveis a conceitos naturalistas, e que a racionalidade é uma prática social de dar e pedir razões (giving and asking for reasons).
6.4 Cheryl Misak: pragmatismo e verdade
Cheryl Misak (n. 1961), em Truth and the End of Inquiry (1991) e Cambridge Pragmatism (2016), defende uma leitura do pragmatismo mais próxima de Peirce do que de James: a verdade não é o que funciona, mas o que resistiria ao escrutínio indefinido de uma comunidade de investigação ideal. Esta concepção normativa da verdade permite ao pragmatismo responder às objeções relativistas sem cair no fundacionismo.
7. O pragmatismo como postura filosófica
O que une as diversas formas de pragmatismo — clássico e neo — não é uma doutrina específica, mas uma postura:
- Antiessencialismo: não há essências fixas nem fundamentos últimos que a filosofia devesse descobrir.
- Contextualismo: o significado, a justificação e a verdade são sempre relativos a práticas, contextos e comunidades históricas.
- Meliorismo: o mundo pode ser melhorado, e a filosofia deve contribuir para isso — não como legisladora de verdades eternas, mas como crítica das práticas estabelecidas e imaginação de alternativas.
- Falibilismo: toda crença está sujeita à revisão à luz de nova evidência ou de novos problemas.
Estas atitudes não constituem um relativismo — pelo menos na versão de Peirce, Dewey e Brandom. O pragma-tismo sustenta que há melhores e piores razões, que a investigação pode progredir, que algumas práticas são mais racionais que outras. O que ele recusa é a pretensão de alcançar um ponto de vista “de lugar nenhum” (view from nowhere) que transcenda toda perspectiva histórica e social.
Leituras essenciais
- Charles Sanders Peirce, “How to Make Our Ideas Clear”, Popular Science Monthly, 1878; Collected Papers (1931–1935, eds. Hartshorne & Weiss).
- William James, Pragmatism: A New Name for Some Old Ways of Thinking (1907); The Will to Believe (1897).
- John Dewey, Democracy and Education (1916); Experience and Nature (1925); Logic: The Theory of Inquiry (1938); Art as Experience (1934).
- George Herbert Mead, Mind, Self, and Society (póstumo, 1934).
- Richard Rorty, Philosophy and the Mirror of Nature (1979); Contingency, Irony, and Solidarity (1989).
- Hilary Putnam, The Many Faces of Realism (1987); Renewing Philosophy (1992).
- Robert Brandom, Making It Explicit (1994).
- Cheryl Misak, Truth and the End of Inquiry (1991); Cambridge Pragmatism (2016).
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