Este é o quinto e último artigo da série sobre Le point de départ de la métaphysique de Joseph Maréchal (1878–1944). Nos artigos anteriores, percorremos o percurso histórico da obra: a tradição clássica do conhecimento (Caderno I), o conflito entre Racionalismo e Empirismo (Caderno II), a filosofia crítica de Kant (Caderno III) e o sistema idealista pós-kantiano de Fichte, Schelling e Hegel (Caderno IV). Chegamos agora ao Caderno V — Le thomisme devant la philosophie critique —, o coração de toda a obra e a contribuição filosófica mais original de Maréchal. É aqui que ele realiza a comparação sistemática entre o tomismo e a filosofia crítica, e apresenta sua síntese: o argumento de que o dinamismo do intelecto humano em direção ao Ser Absoluto é uma estrutura transcendental — uma condição de possibilidade de todo ato de conhecimento — e que, portanto, uma metafísica do ser é não apenas possível, mas inevitável a qualquer análise honesta do conhecimento humano.
O problema que o Caderno V resolve
Ao longo dos quatro cadernos anteriores, um problema central foi sendo progressivamente delineado. A tradição clássica — especialmente Tomás de Aquino — afirmou com confiança que o conhecimento humano alcança o ser real. Kant mostrou que essa afirmação, tomada ingenuamente, não pode ser sustentada: o objeto do conhecimento é sempre o fenômeno — o real estruturado pelas formas a priori do sujeito — e não o nômeno, a coisa em si.
Mas Kant também revelou algo mais: a razão humana tem um dinamismo natural e inevitável em direção ao incondicionado, ao Absoluto — às Ideias Transcendentais de alma, mundo e Deus. Esse dinamismo não é uma curiosidade psicológica; é uma estrutura constitutiva da razão enquanto tal. Kant o reconheceu — e então o limitou ao uso regulativo, negando-lhe qualquer valor cognitivo constitutivo.
A pergunta de Maréchal é: tem Kant o direito de fazer essa limitação? Ou o próprio dinamismo da razão em direção ao Absoluto — analisado transcendentalmente, do interior do ato cognitivo — revela que o conhecimento humano está estruturalmente aberto ao ser irrestrito, tornando a metafísica possível não como um salto além da experiência, mas como a explicitação do que já está presente em todo ato de conhecimento?
A resposta de Maréchal no Caderno V é: não, Kant não tem esse direito — e o tomismo, corretamente relido, demonstra por quê.
A estrutura do argumento central
O argumento de Maréchal pode ser reconstituído em passos claramente articulados:
Primeiro passo: todo conhecimento humano culmina no juízo
O ato cognitivo propriamente humano não é a simples apreensão de uma essência — o registro passivo de um conteúdo inteligível. O ato cognitivo plenamente desenvolvido é o juízo: a afirmação de que algo é de tal modo. “Esta árvore é verde.” “Dois mais dois são quatro.” “Deus existe.”
Essa ênfase no juízo — herdada diretamente de Tomás — é o ponto de partida do Caderno V. O juízo não é uma operação secundária que se acrescenta ao conhecimento; é sua forma mais perfeita e reveladora. É no juízo que o conhecimento intelectual alcança sua plena articulação.
Segundo passo: todo juízo é uma afirmação
Julgar é afirmar. Mesmo a negação — “esta pedra não é branca” — é uma forma de afirmação: afirma-se a não-identidade entre sujeito e predicado. O ato judicativo é, em sua estrutura mais profunda, um ato de posição (Setzung): o intelecto toma posição diante do real, afirma ou nega, asserta ou recusa.
Maréchal sublinha que essa dimensão afirmativa do juízo não é trivial. Afirmar é mais do que registrar um estado de coisas; é reconhecer uma pretensão de validade objetiva: quando afirmo que S é P, estou dizendo algo sobre como as coisas são, não apenas sobre como elas me parecem. A afirmação tem uma intenção de ser: ela visa o real.
Terceiro passo: toda afirmação implica um horizonte de Ser Absoluto
Este é o passo mais original e mais debatido do argumento de Maréchal. Para que o ato de afirmar seja possível — para que o intelecto possa tomar posição diante do real e dizer “isto é assim” — é preciso que o intelecto esteja orientado para um horizonte de Ser que sirva de medida última para toda afirmação particular.
Por quê? Porque toda afirmação finita — “S é P” — é uma determinação dentro de um campo mais vasto. Afirmar que esta coisa é assim pressupõe que o intelecto tenha já, de algum modo, um acesso prévio ao ser em geral — ao ens in communi — como o horizonte dentro do qual a determinação particular faz sentido. Sem esse horizonte, a afirmação não seria possível: seria como tentar localizar um ponto sem ter nenhum sistema de coordenadas.
Mas esse horizonte — o ser em geral, o ens in communi — não é um ser finito entre outros. É o ser irrestrito, ilimitado: aquilo que Tomás chamava de ipsum esse subsistens — o Ser que é idêntico ao próprio ato de existir, sem limitação por nenhuma essência finita. Em linguagem teológica: Deus.
A conclusão é: todo ato de afirmação, ao implicar o horizonte do Ser Absoluto como sua condição de possibilidade, contém uma referência implícita — não temática, não reflexivamente articulada, mas real — ao Absoluto. A metafísica não é uma construção posterior ao conhecimento ordinário; é a explicitação do que já está presente, de modo implícito, em cada ato de conhecimento.
O dinamismo do intelecto: appetitio naturalis ao esse
O argumento do Caderno V não é apenas lógico — é também dinâmico. Maréchal recorre à análise tomista da finalidade do intelecto para mostrar que a abertura ao Absoluto não é uma ideia que o intelecto constrói, mas uma orientação que o intelecto é.
Em Tomás de Aquino, toda potência — toda faculdade — é definida por seu ato próprio e por seu objeto próprio. O objeto próprio do intelecto humano — sua finalidade natural, aquilo para o qual ele é naturalmente ordenado — é o ser (ens) em sua universalidade irrestrita. Não este ou aquele ente particular; não apenas os entes materiais; mas o ser enquanto ser, sem restrição.
Essa orientação do intelecto para o ser irrestrito é o que Maréchal chama de dinamismo intelectual ou appetitio naturalis ad esse. Não se trata de um desejo subjetivo que o intelecto poderia ou não ter; trata-se de uma estrutura constitutiva, de uma finalidade inscrita na natureza mesma da faculdade intelectiva. O intelecto humano não está nunca satisfeito com nenhum objeto finito porque sua finalidade natural aponta além de qualquer finito.
A diferença crucial em relação a Kant: para Maréchal, esse dinamismo não é meramente regulativo — uma orientação ideal que nunca alcança seu objeto. É constitutivo: é a condição de possibilidade de todo ato cognitivo. Sem a orientação ao Ser Absoluto, o intelecto não poderia sequer afirmar objetos finitos. A abertura ao Infinito não é um luxo ou um excesso da razão — é a condição sem a qual a razão não funciona.
O objeto formal do intelecto: ens in communi
Um conceito técnico essencial para o argumento do Caderno V é o de objeto formal (obiectum formale) do intelecto. Na epistemologia escolástica, o objeto formal de uma faculdade é o aspecto sob o qual ela capta seu objeto: a visão capta as coisas enquanto coloridas; o intelecto capta as coisas enquanto entes — enquanto dotadas de ser.
O objeto formal do intelecto humano é o ens in communi — o ser em geral, o ser tomado em sua máxima generalidade. Isso significa que o intelecto humano pode, em princípio, conhecer qualquer coisa que seja — não está restrito a nenhum domínio particular do real. Essa universalidade do objeto formal do intelecto é, para Maréchal, o sinal filosófico de que o intelecto humano está estruturalmente ordenado ao Ser Absoluto: só uma faculdade orientada ao ser irrestrito poderia ter o ser em geral como seu objeto formal.
O ato de afirmação como abertura ao Absoluto
Reunindo todos os elementos, Maréchal formula sua tese central de modo preciso: o ato de afirmação — o juízo — é a realização parcial e finita de uma orientação infinita. Cada vez que o intelecto afirma “S é P”, ele está:
- Captando uma determinação finita do ser (o fato de que S é P).
- Situando essa determinação dentro do horizonte irrestrito do ser em geral.
- Implicitamente referindo-se ao Ser Absoluto como o fundamento e a medida última de toda afirmação.
Essa referência implícita ao Absoluto não é uma prova da existência de Deus no sentido de uma demonstração dedutiva. É algo mais fundamental: é a condição de inteligibilidade de todo ato cognitivo. A metafísica — o estudo do ser enquanto ser — não é uma ciência que vem depois do conhecimento ordinário e o ultrapassa: é a articulação reflexiva do que já está presente, de modo pré-temático, em cada ato de conhecimento.
A objeção de Gilson: o risco do imanentismo
A síntese de Maréchal não ficou sem crítica. A mais incisiva veio de Étienne Gilson (1884–1978), o grande tomista histórico francês. Gilson argumentou que a tentativa de Maréchal de responder a Kant a partir de dentro — utilizando o método transcendental — era, no fundo, uma concessão ao imanentismo kantiano. Ao aceitar o ponto de partida do sujeito e analisar as condições de possibilidade do conhecimento, Maréchal teria, segundo Gilson, já entrado no terreno kantiano — e qualquer “saída” para o ser real a partir daí seria sempre suspeita de ser apenas uma construção imanente.
Para Gilson, o verdadeiro tomismo não precisa responder a Kant nos termos de Kant. O realismo da percepção sensível e da abstração intelectual é um fato de experiência que se impõe antes de qualquer análise transcendental. A questão de como o intelecto alcança o real não é uma questão que exige uma resposta transcendental; exige simplesmente a descrição fiel do que o conhecimento, de fato, faz.
A resposta transcendental-tomista
Os seguidores de Maréchal responderam a Gilson com um argumento que o próprio Maréchal antecipava: a descrição fiel do conhecimento não dispensa a análise de suas condições de possibilidade — ela a exige. Dizer que “o intelecto simplesmente abstrai a essência real dos objetos sensíveis” pode ser uma descrição verdadeira, mas é insuficiente como resposta ao interlocutor kantiano, que pergunta exatamente: como isso é possível? Quais são as condições que tornam legítima essa pretensão de alcançar o real?
A resposta transcendental-tomista de Maréchal não abandona o realismo; ela o fundamenta reflexivamente, mostrando que a própria estrutura do ato cognitivo — o dinamismo do intelecto em direção ao Ser Absoluto — é a condição de possibilidade de qualquer afirmação objetiva. O ponto de chegada é o mesmo do realismo ingênuo — o contato com o ser real — mas o caminho é mais longo e mais rigoroso.
O debate entre Gilson e a escola de Maréchal permanece vivo na filosofia tomista contemporânea. É um dos debates mais fecundos do século XX em filosofia católica.
O legado: Rahner, Lonergan, Coreth
O impacto do Caderno V sobre a filosofia e a teologia do século XX foi considerável. Três pensadores, em particular, desenvolveram a inspiração de Maréchal em direções diferentes mas convergentes:
Karl Rahner (1904–1984)
O teólogo jesuíta alemão Karl Rahner foi profundamente influenciado pela obra de Maréchal e estudou diretamente com Martin Heidegger em Freiburg (1934–1936). Sua obra filosófica de juventude, Espírito no Mundo (1939), é uma reinterpretação rahnereana da epistemologia tomista à luz do método transcendental marechaliano, em diálogo tanto com Maréchal quanto com Heidegger. Rahner desenvolve o conceito de Vorgriff auf Esse — a pré-apreensão do ser, o horizonte implícito de toda afirmação cognitiva — e o torna o fundamento de sua teologia da graça e da Revelação. A ideia central: o ser humano é estruturalmente um “ouvinte da Palavra” (Hörer des Wortes) porque seu intelecto está aberto, por natureza, ao Ser Absoluto que pode revelar-se livremente.
Bernard Lonergan (1904–1984)
O filósofo e teólogo jesuíta canadense Bernard Lonergan desenvolveu a inspiração de Maréchal de modo mais sistemático e original em Insight: A Study of Human Understanding (1957). Lonergan analisa em detalhe o processo cognitivo humano — experiência, entendimento, julgamento, decisão — e mostra como cada nível exige o seguinte, e como o conjunto está orientado para o Ser Incondicionado. Sua metafísica, baseada na análise da cognitionalidade humana, é uma das mais rigorosas e influentes do século XX.
Emerich Coreth (1919–2006)
O filósofo jesuíta austríaco Emerich Coreth, em Metaphysics (1961), desenvolveu a síntese transcendental-tomista de modo mais explicitamente sistemático, em diálogo não apenas com Kant mas também com Heidegger e Hegel. Coreth mostrou que a “questão do ser” — central no pensamento de Heidegger — só pode ser colocada por um intelecto que já está sempre-já aberto ao ser como horizonte, o que é, precisamente, a tese de Maréchal.
Esses três pensadores representam o que veio a ser chamado de tomismo transcendental — uma escola filosófica que leva a sério tanto as conquistas do método crítico moderno quanto a substância do realismo tomista, e que encontrou em Maréchal seu iniciador decisivo.
Avaliação crítica: conquistas e limites
Qualquer avaliação honesta da síntese do Caderno V deve reconhecer tanto suas conquistas quanto suas dificuldades.
Conquistas genuínas:
- O argumento de que todo ato de afirmação implica um horizonte de ser é fenomenologicamente sólido: é difícil negar que afirmar qualquer coisa finita pressupõe uma compreensão prévia e implícita do ser em geral.
- A articulação do dinamismo do intelecto como estrutura transcendental — não meramente psicológica — é uma contribuição permanente para a filosofia do conhecimento.
- A demonstração de que a metafísica do ser não é um acréscimo exterior ao conhecimento ordinário, mas sua explicitação, responde genuinamente ao desafio kantiano.
Dificuldades e limites:
- A transição do horizonte implícito do ser em geral para o Ser Absoluto pessoal — o ipsum esse subsistens de Tomás — não é imediata: exige passos adicionais que os críticos consideram insuficientemente justificados.
- O debate com Gilson sobre se o método transcendental compromete ou não o realismo permanece aberto.
- A síntese de Maréchal é, reconheça-se, exigente: pressupõe tanto o domínio da filosofia moderna (Kant, o Idealismo alemão) quanto da Escolástica medieval, e o resultado é um sistema de leitura complexa.
Dito isso, o Caderno V de Maréchal permanece uma das contribuições mais ambiciosas e estimulantes da filosofia católica do século XX — um esforço de diálogo sem concessão, de rigor sem estreiteza, que continua a inspirar filósofos e teólogos décadas após sua publicação.
Conclusão da série: o legado de Maréchal
Ao longo destes cinco artigos, acompanhamos o percurso completo de Le point de départ de la métaphysique: do inventário histórico da tradição clássica à análise do Racionalismo e do Empirismo, da exposição rigorosa de Kant à comparação com o tomismo, e finalmente à síntese original do Caderno V. O que une todo esse percurso é uma convicção filosófica profunda: que a busca do ser — a orientação do intelecto humano para o real, para o verdadeiro, para o Absoluto — não é uma ilusão que a crítica moderna destruiu, mas uma estrutura fundamental da razão humana que a crítica, corretamente lida, ajuda a compreender melhor.
Joseph Maréchal não resolveu todos os problemas. Mas fez algo talvez mais importante: mostrou que o diálogo entre a grande tradição metafísica clássica e a exigência crítica moderna não é apenas possível, mas filosófica e culturalmente necessário. Nesse sentido, seu trabalho continua sendo um modelo de como a filosofia pode ser ao mesmo tempo fiel à tradição e genuinamente contemporânea.
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