Este é o terceiro de cinco artigos sobre Le point de départ de la métaphysique de Joseph Maréchal. Nos artigos anteriores, percorremos o Caderno I — a tradição clássica do conhecimento, de Aristóteles a Tomás de Aquino — e o Caderno II — o conflito entre Racionalismo e Empirismo que culmina no ceticismo de Hume. Agora chegamos ao Caderno III, o mais extenso e tecnicamente denso de toda a obra: a análise da filosofia crítica de Immanuel Kant (1724–1804). Para Maréchal, Kant é o interlocutor inevitável — não um adversário a ser descartado, mas um pensador que colocou o problema do conhecimento com uma profundidade sem precedentes. Acompanhamos aqui como Maréchal expõe a arquitetura da Crítica da Razão Pura e onde, em sua leitura, Kant avançou decisivamente — e onde parou aquém do que sua própria análise tornava possível.
Kant: o filósofo que mudou o curso da metafísica
Immanuel Kant passou a maior parte de sua vida em Königsberg, na Prússia, e publicou a Crítica da Razão Pura em 1781 (segunda edição em 1787), com quase sessenta anos. Antes disso, durante o chamado “período pré-crítico”, Kant havia trabalhado dentro do racionalismo leibniziano-wolffiano — até que a leitura de Hume o confrontou com o problema que ele não conseguia mais ignorar: se todo conhecimento vem da experiência, como são possíveis os princípios universais e necessários da matemática e da física newtoniana?
Kant formula o problema com precisão cirúrgica na distinção entre juízos analíticos e juízos sintéticos, e entre a priori e a posteriori:
- Um juízo analítico é aquele cujo predicado já está contido no conceito do sujeito: “todos os corpos são extensos.” Ele é necessariamente verdadeiro, mas não amplia nosso conhecimento.
- Um juízo sintético é aquele cujo predicado acrescenta algo ao sujeito: “todos os corpos têm peso.” Ele amplia o conhecimento, mas como pode ser necessário e universal?
- Os juízos a posteriori dependem da experiência e são contingentes.
- Os juízos a priori independem da experiência e são necessários.
A pergunta central da Crítica é: como são possíveis os juízos sintéticos a priori? Ou seja: como pode o conhecimento ser ao mesmo tempo ampliativo (sintético) e necessário (a priori)? A matemática e a física newtoniana parecem oferecer exemplos disso — “a linha reta é o caminho mais curto entre dois pontos”, “toda mudança tem uma causa”. São proposições que ampliam o conhecimento e parecem válidas universalmente, mas não parecem derivar simplesmente da experiência.
A resposta de Kant constitui o que ele mesmo chama de sua revolução copernicana: assim como Copérnico fez a Terra girar em torno do Sol em vez do contrário, Kant propõe fazer o objeto girar em torno do sujeito, em vez do contrário. Não é o sujeito que se conforma ao objeto para conhecê-lo; é o objeto — tal como é conhecido — que se conforma às estruturas a priori do sujeito cognoscente.
Maréchal considera essa revolução ao mesmo tempo um avanço genuíno e um risco filosófico de primeiro grau. Avançamos no entendimento de como o conhecimento necessário é possível; mas corremos o risco de perder a realidade objetiva — de ficar presos dentro das estruturas do sujeito sem nunca alcançar o ser em si.
A Estética Transcendental: espaço e tempo como formas puras da sensibilidade
A primeira parte da Crítica — a Estética Transcendental — investiga as condições a priori da sensibilidade humana. Para Kant, toda experiência começa pelos sentidos, mas os sentidos não funcionam como receptores passivos neutros. Eles estruturam o material sensível segundo duas formas puras: o espaço e o tempo.
O espaço é a forma do sentido externo: toda percepção de objetos externos os situa em relações espaciais. O tempo é a forma do sentido interno: toda percepção — interna ou externa — está inserida em uma sequência temporal. Espaço e tempo não são propriedades dos objetos em si mesmos; são modos pelos quais o sujeito organiza os dados da sensação.
A consequência filosófica é profunda: a geometria — que é o estudo das propriedades do espaço — e a aritmética — que se baseia na sucessão temporal dos números — são conhecimentos sintéticos a priori porque expressam as formas puras da nossa sensibilidade. Elas são necessárias e universais não porque descrevem o mundo em si, mas porque descrevem as estruturas pelas quais o sujeito inevitavelmente organiza toda experiência possível.
Para Maréchal, a análise do espaço e do tempo como formas a priori da sensibilidade é uma contribuição genuína de Kant. Mas já aqui emerge o problema: se espaço e tempo são apenas formas do sujeito, então a física matemática — que descreve o mundo em termos espaciais e temporais — descreve o mundo tal como aparece para nós, não o mundo tal como ele é em si mesmo.
A Analítica Transcendental: as categorias e o esquematismo
Se a Estética Transcendental trata da sensibilidade, a Analítica Transcendental trata do entendimento (Verstand) — a faculdade dos conceitos e dos juízos. Para Kant, o entendimento possui um conjunto de categorias — conceitos puros a priori que não derivam da experiência, mas que estruturam toda experiência possível. Kant identifica doze categorias, agrupadas em quatro grupos: quantidade (unidade, pluralidade, totalidade), qualidade (realidade, negação, limitação), relação (substância-acidente, causa-efeito, ação recíproca) e modalidade (possibilidade, existência, necessidade).
A causalidade — que Hume havia mostrado não poder ser derivada da experiência — é, para Kant, uma categoria a priori do entendimento: uma estrutura que o sujeito impõe necessariamente a toda experiência. Por isso os juízos causais são universais e necessários — não porque capturam uma conexão real entre os eventos, mas porque o entendimento humano só pode organizar a experiência em termos causais.
Mas há um problema técnico crucial: como os conceitos puros do entendimento — que são gerais e abstratos — podem aplicar-se aos dados sensíveis — que são particulares e concretos? A resposta de Kant está no esquematismo transcendental: entre as categorias e os dados sensíveis, há um intermediário — o esquema transcendental — que é uma determinação temporal do conceito puro. O esquema da causalidade, por exemplo, é a sucessão no tempo segundo uma regra: sempre que percebemos B regularmente sucedendo A no tempo, aplicamos a categoria de causalidade.
Maréchal considera o esquematismo um dos momentos mais engenhosos — e mais problemáticos — da Crítica. Engenhoso porque resolve tecnicamente a questão de como categorias abstratas se aplicam a dados sensíveis concretos. Problemático porque amarra definitivamente os conceitos puros ao tempo — e portanto ao domínio da experiência possível. Qualquer aplicação das categorias fora da experiência — a Deus, à alma, ao mundo como totalidade — é ilegítima para Kant.
O Eu Transcendental: a Apercepção Originária
Um dos pontos mais importantes da Analítica — e um dos mais relevantes para a leitura de Maréchal — é a teoria da apercepção transcendental. Para que a multiplicidade de percepções sensíveis possa ser unificada em uma experiência coerente, é preciso um princípio de unidade que acompanhe todas as representações: o “Eu penso” transcendental.
Esse “Eu penso” não é uma substância conhecida — não é o ego empírico, psicológico. É a condição formal de possibilidade de toda síntese cognitiva: o ponto de unidade que torna possível que todas as minhas representações sejam minhas. Para Maréchal, esse “Eu penso” aponta para algo que transcende a mera imanência das representações — mas Kant, fiel ao criticismo, recusa-se a tirar dessa unidade formal qualquer conclusão metafísica.
A Dialética Transcendental: os limites da razão e as Ideias
A terceira parte da Crítica — a Dialética Transcendental — é, para Maréchal, a mais reveladora. Aqui Kant analisa a razão (Vernunft) em seu uso especulativo puro — ou seja, quando tenta ir além da experiência possível em busca de princípios incondicionados.
A razão humana tem uma tendência natural a buscar o incondicionado — o fundamento último que não depende de mais nada. Essa busca se articula em três grandes Ideias Transcendentais: a alma (o sujeito incondicionado de todos os estados internos), o mundo (a totalidade incondicionada dos fenômenos) e Deus (o ser absolutamente necessário, fundamento de toda realidade).
Mas Kant mostra que essas Ideias não podem ser objetos de conhecimento teórico legítimo. Quando a razão tenta conhecê-las como se fossem objetos da experiência, cai em contradições inevitáveis — as antinomias (no caso do mundo), os paralogismos (no caso da alma) e o ideal da razão pura sem prova válida (no caso de Deus). As provas tradicionais da existência de Deus — ontológica, cosmológica, físico-teológica — são todas invalidadas por Kant.
As Ideias Transcendentais têm, portanto, apenas um uso regulativo: não são objetos que possamos conhecer, mas princípios que orientam a busca sistemática do conhecimento, empurrando-nos sempre a procurar condições cada vez mais abrangentes. A metafísica, como ciência teórica do incondicionado, é impossível.
O fenômeno e o nômeno: o abismo central
O núcleo do problema kantiano — e o ponto onde Maréchal mais concentra sua análise crítica — é a distinção entre fenômeno e nômeno (ou “coisa em si”, Ding an sich).
Para Kant, tudo o que conhecemos são fenômenos: coisas tal como aparecem para nós, estruturadas pelas formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e pelas categorias do entendimento. O que as coisas são em si mesmas, independentemente de como as percebemos, permanece radicalmente incognoscível. O nômeno é o limite negativo do conhecimento: indica que há algo além do fenômeno, mas esse algo não pode ser conhecido.
Maréchal reconhece a rigorosa honestidade intelectual dessa posição. Mas aponta: Kant postula a coisa em si como afetando os sentidos e produzindo as impressões que constituem a matéria da experiência — mas a causalidade é uma categoria que só se aplica dentro da experiência. Há uma tensão interna no sistema kantiano que o próprio Kant não resolve satisfatoriamente.
O gancho para além de Kant: o dinamismo da razão
A análise mais crucial de Maréchal no Caderno III não é uma crítica externa a Kant, mas uma leitura interna: o que a própria análise kantiana sugere que foi deixado em aberto?
A Dialética Transcendental revela que a razão humana tem um dinamismo natural em direção ao Absoluto — às Ideias de alma, mundo e Deus. Esse dinamismo não é um acidente, um erro ou um capricho: é estrutural, inevitável, constitutivo da razão enquanto tal. A razão não pode deixar de buscar o incondicionado.
Para Kant, esse dinamismo é apenas regulativo — uma tendência que orienta a pesquisa, sem alcançar seu objeto. Mas Maréchal pergunta: pode esse dinamismo ser apenas regulativo? Se toda afirmação cognitiva — todo juízo — implica um horizonte de Ser que a torna possível, não seria esse horizonte algo mais do que uma simples orientação regulativa? Não implicaria ele uma relação real, constitutiva, com o Absoluto?
Essa pergunta — que Kant deixou sem resposta — é o ponto de partida da síntese original de Maréchal, que será desenvolvida plenamente no Caderno V. Mas antes disso, é preciso examinar como os idealistas pós-kantianos — Fichte, Schelling e Hegel — tentaram radicalizar o giro transcendental de Kant, e por que essas tentativas, segundo Maréchal, também fracassaram — o que será o tema do Caderno IV.
O legado da análise kantiana segundo Maréchal
Para Maréchal, Kant realizou três conquistas filosóficas permanentes que nenhuma filosofia séria posterior pode ignorar:
- A exigência de reflexividade: não basta afirmar que o conhecimento alcança o real — é preciso analisar as condições a priori que tornam o conhecimento possível.
- A distinção entre uso imanente e uso transcendente das categorias: os conceitos só têm uso legítimo dentro dos limites da experiência possível — qualquer extensão requer justificação cuidadosa.
- O dinamismo da razão em direção ao incondicionado: a razão humana não se satisfaz com o condicionado; ela é, por estrutura, abertura ao Absoluto.
Mas Kant, segundo Maréchal, errou ao concluir que esse dinamismo é meramente regulativo. E ao fazê-lo, impediu a metafísica de realizar o que ela, por suas próprias exigências internas, está em condições de realizar. A alternativa — mostrar que o tomismo pode aceitar as conquistas críticas de Kant e ao mesmo tempo fundar uma metafísica do ser — é o projeto dos Cadernos IV e V.
Transição para o Caderno IV
Com a análise kantiana concluída, Maréchal volta-se para uma tarefa crucial: examinar como a tradição idealista pós-kantiana — de Fichte a Schelling e Hegel — desenvolveu o giro transcendental de Kant em sistemas idealistas completos. O Caderno IV — publicado postumamente em 1947 — analisa as conquistas e os limites desses sistemas, mostrando como o idealismo absoluto levou o projeto crítico kantiano às suas últimas consequências — e por que, segundo Maréchal, essa radicalização não resolve o problema fundamental do conhecimento do ser real.
Livros indicados:
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