Há perguntas que a filosofia herda de cada geração sem jamais devolvê-las resolvidas. A questão do tempo é, talvez, a mais resistente de todas. Santo Agostinho, nas Confissões (livro XI), enunciou o paradoxo com uma clareza que nenhum filósofo posterior conseguiu superar: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicar a quem me pergunta, não sei.” A dificuldade não é retórica. O tempo é a condição de tudo o que existe — mudança, causalidade, memória, esperança — e, precisamente por ser tão onipresente, escapa a qualquer tentativa de defini-lo de fora, como se fosse um objeto entre outros. Este artigo percorre os principais nós da metafísica contemporânea do tempo: o argumento de McTaggart sobre a irrealidade do tempo, o debate entre presentismo e eternalismo, a teoria da passagem temporal, a durée de Bergson e a assimetria entre passado e futuro.

1. O argumento de McTaggart: o tempo é irreal?

Em 1908, o filósofo britânico J. M. E. McTaggart publicou na revista Mind um artigo intitulado “The Unreality of Time” — um dos textos mais discutidos na metafísica analítica do século XX. O argumento de McTaggart é estruturado em torno de uma distinção que ele mesmo introduziu e que desde então organiza todo o debate: a série A e a série B do tempo.

A série B é a ordenação de eventos segundo a relação de anterioridade e posterioridade: o nascimento de Sócrates precede a morte de Napoleão, que precede a publicação do artigo de McTaggart, e assim por diante. Essa série é permanente: se o evento X é anterior ao evento Y, essa relação nunca muda. A série B é, portanto, atensa — não emprega os predicados “passado”, “presente” e “futuro”.

A série A, ao contrário, descreve os eventos como passados, presentes ou futuros. Essas determinações são tensas e mutáveis: o que agora é futuro virá a ser presente e depois passado. É na série A que encontramos o que intuitivamente chamamos de fluxo do tempo — a sensação de que os eventos se aproximam, chegam e se afastam.

McTaggart acrescentou ainda a série C: a ordem absoluta dos eventos, anterior a qualquer determinação temporal, análoga a uma sequência espacial. A série B seria, em seu sistema, a série C acrescida de uma direção.

O argumento central de McTaggart é o seguinte: (1) o tempo genuíno exige mudança; (2) a única mudança genuína é a mudança das propriedades da série A (um evento passa de futuro a presente, e de presente a passado); mas (3) as determinações da série A são contraditórias — todo evento é ao mesmo tempo passado, presente e futuro, pois estas três propriedades se aplicam a ele em tempos diferentes; (4) qualquer tentativa de resolver essa contradição recorrendo a metapropriedades da série A gera uma regressão infinita. Logo, (5) a série A é incoerente; logo, (6) o tempo é irreal.

A maioria dos filósofos rejeita a conclusão, mas o diagnóstico permanece influente: ele força a escolha entre duas famílias de teoria — as A-teorias (que tomam as determinações tensas como fundamentais) e as B-teorias (que as reduzem a relações atemporais de anterioridade/posterioridade).

2. A-teorias e B-teorias: o debate sobre a tensidade

As A-teorias (ou teorias tensas) sustentam que o presente tem um status ontológico especial — o “agora” não é apenas uma perspectiva relativa, como “aqui” o é no espaço, mas uma propriedade objetiva e privilegiada da realidade. A mudança das propriedades da série A é real. O presentismo é a forma mais radical de A-teoria.

As B-teorias (ou teorias destensas) sustentam que as expressões temporais como “agora”, “ontem” e “logo” são indexicais — funcionam como “aqui”, “eu” ou “este”: seu referente muda conforme o contexto de proferimento, mas não há nenhuma propriedade objetiva privilegiada que corresponda ao “presente absoluto”. D. H. Mellor, em Real Time (1981), desenvolveu a versão mais influente da B-teoria com sua teoria token-reflexiva: um enunciado como “a reunião está ocorrendo agora” é verdadeiro se e somente se a reunião é simultânea ao proferimento do enunciado. Nenhuma entidade adicional chamada “presente” é necessária. Em Real Time II (1998), Mellor revisou essa posição, substituindo a análise token-reflexiva por uma abordagem baseada em verificadores de verdade (truthmakers) — embora ambas as obras permaneçam referências centrais da B-teoria.

Para o B-teórico, o tempo é análogo ao espaço: assim como não há um “aqui absoluto” no espaço, não há um “agora absoluto” no tempo. Todos os momentos existem igualmente — o que nos dá a sensação de fluxo é apenas a posição que ocupamos na série temporal, não uma característica do tempo em si.

3. Posições ontológicas: presentismo, eternalismo e bloco em crescimento

O debate entre A-teorias e B-teorias tem uma contraparte ontológica: a questão de quais entidades temporais existem.

O presentismo afirma que apenas o presente existe. O passado existiu, o futuro existirá, mas nem um nem outro existe agora. Esta posição é a mais próxima do senso comum — parece óbvio que os dinossauros não existem mais e que os acontecimentos do século XXIII ainda não existem. O presentismo enfrenta, porém, dificuldades sérias com a física: na teoria da relatividade especial de Einstein e Minkowski, não há um plano de simultaneidade absoluto. O “presente” de um observador depende de seu estado de movimento — dois eventos simultâneos para um observador podem não o ser para outro. Se o presente não é absoluto, a ideia de que “apenas o presente existe” torna-se problemática.

O eternalismo (ou teoria do universo-bloco) afirma que passado, presente e futuro existem igualmente, da mesma forma que pontos diferentes no espaço existem igualmente. O universo é um “bloco quadridimensional” no qual cada evento ocupa uma posição determinada em três dimensões espaciais e uma temporal. A geometria do espaço-tempo de Minkowski, fundamental para a relatividade especial, favorece naturalmente o eternalismo: num espaço-tempo tetradimensional, todos os eventos simplesmente são — não há distinção ontológica entre passado e futuro, apenas relações de anterioridade. O “fluxo” do tempo seria uma ilusão produzida pela perspectiva do observador.

Uma posição intermediária é o universo-bloco em crescimento (growing block universe), proposta por C. D. Broad em Scientific Thought (1923). Segundo Broad, o passado e o presente existem — o passado acumula-se progressivamente —, mas o futuro ainda não existe. Esta posição tenta preservar a assimetria entre passado e futuro sem comprometer-se com o presentismo estrito. Enfrenta, porém, a dificuldade de explicar por que o presente seria ontologicamente privilegiado em relação ao passado.

4. O problema da passagem do tempo e da experiência do “agora”

Mesmo que aceitemos o eternalismo — o universo-bloco —, uma questão permanece: por que experimentamos o tempo como fluindo? Esta é a questão da passagem do tempo (passage of time ou temporal becoming).

Para o eternalista, a passagem é uma ilusão. O que chamamos de “agora” é apenas o momento em que nos encontramos na série temporal — assim como “aqui” é o lugar em que estamos no espaço. Mas a analogia com o espaço parece incompleta: não experimentamos o espaço como “fluindo” do norte para o sul, enquanto o tempo parece realmente mover-se do passado para o futuro. A experiência da passagem é tão ubíqua e irresistível que sua redução a mera ilusão exige uma explicação psicológica e neurocientífica adicional.

Heidegger, em Ser e Tempo (1927), abordou o problema de outra maneira: para ele, a temporalidade não é uma propriedade do mundo exterior que o sujeito contempla, mas a estrutura existencial mais fundamental do Dasein (o ser-aí humano). O ser humano existe como projeção para o futuro a partir de um passado que carrega como “ser-lançado” — a temporalidade é constitutiva do modo de ser humano, não uma questão cosmológica. Esta perspectiva fenomenológica evita o problema do eternalismo, mas o faz ao custo de deixar em aberto a questão sobre o tempo “objetivo” da física.

Whitehead, em Processo e Realidade (1929), propôs uma metafísica processual na qual a temporalidade é constitutiva da realidade em seu nível mais fundamental: a realidade é feita de “ocasiões de experiência” que perecem após atingir sua completude, gerando um genuíno fluxo de novidade — o que Whitehead chamou de “avanço criativo para a novidade”. Para Whitehead, o tempo não é uma ilusão nem uma estrutura puramente formal, mas o modo pelo qual a realidade se produz. Essa ontologia processual contrasta vivamente com as ontologias de substância, nas quais as entidades fundamentais são entes persistentes e relativamente estáveis que têm propriedades temporais, mas não se reduzem a elas.

5. Bergson: a durée contra o tempo espacializado

Nenhum filósofo atacou com mais vigor a redução do tempo ao espaço do que Henri Bergson. Em seu primeiro livro, Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência (1889), Bergson distinguiu radicalmente o tempo da física — uma sequência de instantes discretos e homogêneos, análoga a pontos numa reta — do tempo da consciência, que ele chamou de durée (duração).

A durée é qualitativa, heterogênea e contínua. Ela não pode ser dividida em instantes sem ser destruída, assim como uma melodia musical não pode ser reduzida à soma de notas isoladas: o que faz uma melodia ser esta melodia é precisamente a maneira como cada nota retém as anteriores e antecipa as seguintes, num todo inseparável. A consciência é essa melodia — um fluxo no qual o passado não desaparece, mas se prolonga no presente, carregando nele toda a sua espessura.

O tempo da ciência, ao contrário, é espacializado: o físico mede durações comparando-as com movimentos regulares (o pêndulo, o relógio atômico), convertendo assim o tempo em extensão mensurável. Este procedimento é legítimo para fins práticos e científicos, mas, segundo Bergson, falsifica a natureza do tempo real ao substituir o fluxo qualitativo por uma série de instantes pontuais, exteriores uns aos outros — como pérolas num fio, não como notas numa melodia.

Em Matéria e Memória (1896), Bergson aprofundou esta análise: o passado não “passou” no sentido de ter desaparecido; ele sobrevive na memória pura e se contrai no presente. O presente é sempre “quase passado” — é o ponto extremo de contração de todo o passado vivido. A distinção bergsoniana entre memória-hábito (o passado que vive no corpo como disposição para agir) e memória-pura (as imagens do passado tal como foram) anuncia temas que a filosofia da mente e a neurociência retomariam décadas depois.

O debate mais famoso de Bergson sobre o tempo ocorreu em 1922, na Société française de philosophie, numa conferência em que Einstein participou. Bergson sustentou que a relatividade de Einstein descrevia o tempo dos físicos — um tempo mensurável e relativo a sistemas de referência —, mas não tocava a duração vivida da consciência. Einstein respondeu que não havia um “tempo dos filósofos” distinto do “tempo dos físicos”. A polêmica, registrada no livro Durée et simultanéité (1922) de Bergson, ainda é objeto de debate historiográfico e filosófico: até que ponto os dois interlocutores estavam discutindo a mesma coisa?

Seja como for, a contribuição de Bergson é duradoura: ele mostrou que qualquer teoria do tempo que pretenda ser completa deve dar conta tanto da estrutura formal do tempo físico quanto da experiência irredutível da temporalidade vivida. As duas dimensões podem ser teoricamente distinguidas, mas não podem ser simplesmente identificadas sem perda filosófica.

6. A flecha do tempo: entropia, causalidade e assimetria

A experiência do tempo é radicalmente assimétrica: lembramo-nos do passado, não do futuro; causas precedem efeitos; ovos se quebram mas não se reconstituem espontaneamente. Esta assimetria é o que chamamos de flecha do tempo (arrow of time).

O problema filosófico é que as equações fundamentais da física clássica (mecânica newtoniana) e da mecânica quântica são, em sua grande maioria, simétricas em relação à inversão temporal: se um processo é permitido pelas leis físicas, o processo inverso também o é. Como, então, a assimetria temporal emerge?

A resposta mais influente recorre à segunda lei da termodinâmica: a entropia de um sistema isolado tende a aumentar ao longo do tempo. Entropia é uma medida do grau de desordem macroscópica de um sistema; sua tendência ao aumento reflete o fato de que há muito mais estados microscópicos “desordenados” do que “ordenados”. A flecha termodinâmica do tempo aponta na direção do aumento da entropia — do passado (baixa entropia) para o futuro (alta entropia).

Esta explicação, porém, levanta uma questão ulterior: por que o universo teve entropia muito baixa no passado? A resposta física apela às condições iniciais do Big Bang — uma questão que transcende a termodinâmica e toca a cosmologia e, eventualmente, a metafísica. O filósofo Huw Price, em Time’s Arrow and Archimedes’ Point (1996), argumentou que a assimetria temporal não é uma característica objetiva do tempo físico, mas resulta de um viés de perspectiva: nós, como observadores inseridos no fluxo causal do universo, não podemos adotar um ponto de vista “atemporal” (bird’s eye view) do qual a simetria seria aparente.

A causalidade está intimamente ligada à flecha do tempo: causas precedem efeitos, e não o contrário. Mas se o tempo é simétrico nas leis físicas, a precedência causal torna-se difícil de fundamentar. David Lewis, em “Causation” (1973) e em “The Paradoxes of Time Travel” (1976), explorou tanto a causalidade contrafactual quanto as consequências lógicas da viagem no tempo — mostrando que, embora a viagem ao passado não implique contradição lógica estrita (um viajante no tempo pode ir ao passado sem alterar o que já aconteceu, satisfazendo assim uma “consistência local”), ela impõe restrições contraintuitivas sobre o que os agentes podem fazer. A lógica temporal, desenvolvida por Arthur Prior nos anos 1950–1960, oferece as ferramentas formais para raciocinar sobre enunciados cujo valor de verdade varia com o tempo — um campo hoje essencial para a informática e a inteligência artificial.

7. Balanço: o tempo como limite do pensamento

O percurso deste artigo revela que o tempo é talvez o conceito mais resistente à intuição filosófica. Quando tentamos fixá-lo, ele escapa: se o passado não existe mais e o futuro ainda não existe, o presente reduz-se a um instante sem duração — e então o próprio tempo parece dissolver-se. Se afirmamos que todos os momentos existem igualmente no bloco quadridimensional, a passagem do tempo converte-se em ilusão — e com ela nossa experiência mais imediata do ser.

McTaggart mostrou que qualquer teoria coerente do tempo deve tomar partido: ou as determinações tensas (passado, presente, futuro) são objetivas e fundamentais, ou são reduzíveis a relações atemporais de anterioridade. Bergson mostrou que essa escolha não pode ignorar a experiência vivida da duração, sob pena de produzir uma teoria do tempo que não reconhece o tempo de ninguém. A física relativista mostrou que o “agora” absoluto é uma ilusão newtoniana — mas não nos disse o que substituí-lo na vida da consciência.

O tempo é o medium no qual todas as perguntas filosóficas se formulam — e, paradoxalmente, uma das perguntas que a filosofia menos consegue responder. Isso não é um fracasso: é o sinal de que estamos diante de uma questão genuína, no sentido mais profundo que Agostinho soube expressar.

Leituras essenciais

  • McTaggart, J. M. E. “The Unreality of Time”. Mind, vol. 17, n. 68, 1908, pp. 457–474.
  • Mellor, D. H. Real Time. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.
  • Mellor, D. H. Real Time II. Londres: Routledge, 1998.
  • Broad, C. D. Scientific Thought. Londres: Kegan Paul, 1923.
  • Bergson, Henri. Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência [1889]. Trad. João da Silva Gama. Lisboa: Edições 70, 1988.
  • Bergson, Henri. Matéria e Memória [1896]. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
  • Bergson, Henri. Durée et simultanéité. Paris: Félix Alcan, 1922.
  • Lewis, David. “The Paradoxes of Time Travel”. American Philosophical Quarterly, vol. 13, n. 2, 1976, pp. 145–152.
  • Price, Huw. Time’s Arrow and Archimedes’ Point. Oxford: Oxford University Press, 1996.
  • Sider, Theodore. Four-Dimensionalism: An Ontology of Persistence and Time. Oxford: Oxford University Press, 2001.
  • Prior, Arthur N. Time and Modality. Oxford: Oxford University Press, 1957.

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