Há um momento na história do pensamento em que a humanidade deixa de perguntar quem criou o mundo e começa a perguntar do que o mundo é feito. Essa passagem — do mito à investigação racional — encontra sua expressão mais concentrada em uma única palavra grega: ἀρχή (arché). Princípio, origem, fundamento, comando: a arché é, ao mesmo tempo, a primeira coisa que existe e a razão pela qual tudo o mais existe. Compreender esse conceito é compreender o gesto inaugural da filosofia ocidental.
Este artigo examina a arché em sua dimensão linguística, histórica e filosófica: da raiz etimológica ao uso que os filósofos pré-socráticos fizeram dela, passando pela sistematização aristotélica e pelos ecos que o conceito projeta até o pensamento contemporâneo.
1. Etimologia e campo semântico de ἀρχή
O substantivo grego ἀρχή (arché) deriva do verbo ἄρχω (árchō), que possui dois núcleos de significado intimamente ligados:
- Começar, iniciar, dar origem — ἄρχω no sentido temporal: aquilo que vem primeiro, o ponto de partida.
- Comandar, governar, liderar — ἄρχω no sentido de autoridade: aquilo que exerce poder, que rege, que preside.
Essa dupla semântica não é acidental. Na mentalidade grega, aquilo que é primeiro é também aquilo que governa. O que está na origem detém autoridade sobre o que dele procede. O princípio não é apenas o começo cronológico — é o fundamento ontológico, a razão de ser.
O campo semântico de ἀρχή irradia-se por toda a língua grega e, a partir dela, pelas línguas europeias:
- ἄρχων (archon): o governante, o magistrado — aquele que comanda. Em Atenas, os archontes eram os magistrados supremos da cidade.
- μοναρχία (monarchía): governo de um só — monos (único) + arché (comando).
- ἀναρχία (anarchía): ausência de comando, ausência de princípio diretor — an- (sem) + arché.
- ἀρχιτέκτων (architéktōn): o mestre construtor — aquele que comanda (arché) a arte (téchnē) da construção.
- ἀρχαῖος (archaîos): antigo, primordial — aquilo que pertence ao começo.
Quando os primeiros filósofos gregos perguntaram pela arché do cosmos, estavam perguntando, portanto, duas coisas ao mesmo tempo: qual é a origem de tudo? e o que governa tudo? A arché não é apenas o material de que as coisas são feitas; é o princípio ativo que as mantém em existência, que regula suas transformações, que lhes confere ordem. Essa ambiguidade produtiva — entre gênese e governo, entre origem e fundamento — atravessará toda a história da filosofia.
É importante notar que o substantivo ἀρχή aparece na linguagem comum grega com frequência: significa “começo” de um discurso, “início” de uma guerra, “princípio” de uma demonstração, “governo” de uma cidade. O uso propriamente filosófico — a arché como princípio constitutivo da realidade — é uma apropriação e uma intensificação desse campo semântico ordinário, operada pelos pensadores de Mileto no século VI a.C.
2. O nascimento da pergunta pela arché
2.1 Do mito ao logos
Antes da filosofia, os gregos explicavam a origem e a ordem do mundo por meio de narrativas míticas. Na Teogonia de Hesíodo (c. 700 a.C.), o cosmos surge de Caos, Gaia (Terra) e Eros; os fenômenos naturais são ações de deuses personificados — Zeus lança raios, Poseidon agita o mar, Deméter faz brotar as colheitas. O mito não é arbitrário — possui uma lógica interna, uma coerência narrativa —, mas opera por personificação e não exige demonstração.
A passagem ao logos consiste precisamente na substituição dessa explicação personalista por uma explicação impessoal e racional. Em vez de perguntar “qual deus fez isto?”, os primeiros filósofos perguntam “de que princípio natural isto procede?” e “por que mecanismo isto se transforma?”. A resposta não apela a vontades divinas, mas a processos naturais regulares e observáveis — condensação, rarefação, separação de opostos.
Essa transição não foi abrupta. Como nota o helenista Jean-Pierre Vernant em As Origens do Pensamento Grego (1962), as cosmogonias míticas já continham em germe perguntas filosóficas: Hesíodo pergunta o que veio primeiro (Caos); Homero sugere que Oceano é a “gênese de todas as coisas” (Ilíada, XIV, 201). Mas o salto qualitativo ocorre quando a resposta deixa de ser uma narrativa genealógica de deuses e passa a ser uma proposição racional sobre a natureza (phýsis) das coisas.
2.2 O contexto das colônias jônicas
Não é casual que a filosofia tenha nascido em Mileto, uma das cidades mais prósperas e cosmopolitas do mundo grego antigo. Situada na costa da Jônia (atual Turquia ocidental), Mileto era um centro comercial que mantinha contato direto com as civilizações egípcia, babilônica e persa. Seus comerciantes conheciam a geometria prática dos egípcios e a astronomia dos babilônios. Essa pluralidade de explicações para os mesmos fenômenos naturais convidava a uma pergunta crítica: se os egípcios explicam as cheias do Nilo de um modo e os babilônios explicam os eclipses de outro, qual explicação é correta? E será que há uma explicação mais fundamental que todas elas?
Além disso, a estrutura política das póleis jônicas — onde as decisões eram tomadas por debate público, e os argumentos valiam pela sua força lógica, não pela autoridade sagrada de quem os proferia — criava um ambiente propício à argumentação racional. A ágora preparou o terreno para a filosofia.
2.3 Aristóteles e a nomeação retrospectiva
É Aristóteles quem, no livro I da Metafísica (983b–984a), formula retrospectivamente a tradição pré-socrática como uma busca pelo princípio material das coisas. Ele escreve que “a maioria dos primeiros filósofos considerou que os princípios de todas as coisas eram apenas os de natureza material” (Metafísica I, 3, 983b6-8). Aristóteles chama esses princípios de archaí e organiza os seus predecessores segundo o tipo de arché que cada um propôs.
Essa sistematização aristotélica — embora indispensável, pois é frequentemente nossa principal fonte sobre os pré-socráticos — deve ser lida com cautela. Aristóteles lê os seus predecessores à luz das suas próprias categorias (as quatro causas), e por vezes projeta sobre eles distinções que não teriam formulado nesses termos. Os pré-socráticos provavelmente não concebiam a arché apenas como “causa material” no sentido aristotélico; para eles, o princípio era ao mesmo tempo matéria, força e razão de ser — distinções que Aristóteles separará sistematicamente.
3. A arché nos pensadores de Mileto
3.1 Tales de Mileto (~624–546 a.C.): a água
Tales é reconhecido por Aristóteles como o fundador da filosofia natural (Metafísica I, 3, 983b20-22). Sua tese fundamental é que a água (hýdōr) é a arché de todas as coisas. Tales não deixou escritos; conhecemos seu pensamento exclusivamente por testemunhos posteriores, sobretudo os de Aristóteles.
Por que a água? Aristóteles sugere algumas razões possíveis: a observação de que o alimento de todos os seres é úmido, que o calor vital nasce da umidade, que as sementes de todas as coisas possuem natureza úmida (Metafísica I, 3, 983b22-27). A água é o elemento que assume os três estados (sólido, líquido, gasoso — embora Tales não usasse essa terminologia), que está presente em todos os seres vivos, e que parece ser condição necessária para a vida.
É fundamental compreender que a “água” de Tales não é simplesmente a água que bebemos ou vemos nos rios. Trata-se de um princípio cosmológico: a substância primordial da qual todas as coisas se originam e à qual todas retornam. Ao propor a água como arché, Tales realiza três gestos filosóficos decisivos:
- Redução da multiplicidade à unidade: a diversidade infinita dos fenômenos é reconduzida a um único princípio.
- Naturalização da explicação: o princípio não é um deus, mas um elemento natural.
- Exigência de universalidade: a explicação deve valer para tudo — não apenas para este ou aquele fenômeno, mas para a totalidade do real.
3.2 Anaximandro (~610–546 a.C.): o ápeiron
Discípulo de Tales, Anaximandro dá um passo decisivo ao propor como arché não um elemento determinado, mas o ápeiron (τὸ ἄπειρον) — o indeterminado, o ilimitado, o infinito. Temos dele o que é considerado o mais antigo fragmento filosófico do Ocidente, preservado por Simplício (Comentário à Física, 24, 13): “As coisas perecem naquelas de que têm origem, segundo a necessidade, pois pagam umas às outras pena e retribuição pela injustiça segundo a ordem do tempo.”
A argumentação de Anaximandro contém uma crítica implícita a Tales. Se a arché fosse a água — um elemento determinado —, como poderia gerar o seu contrário, o fogo? Um elemento específico favoreceria as coisas que lhe são semelhantes e destruiria as que lhe são contrárias, impedindo o equilíbrio cósmico. O princípio, portanto, deve ser indeterminado — sem qualidade específica — para poder gerar todos os opostos sem privilegiar nenhum.
Do ápeiron, os pares de opostos (quente/frio, seco/úmido) separam-se por um processo cósmico. Essa separação é uma espécie de “injustiça” (adikía), pois cada coisa determinada usurpa o espaço das demais. A justiça cósmica exige que as coisas retornem ao ápeiron, dissolvendo-se no princípio indeterminado de que provêm. O cosmos é, assim, regido por uma lei de equilíbrio e retribuição.
3.3 Anaxímenes (~585–525 a.C.): o ar
Discípulo de Anaximandro, Anaxímenes propõe o ar (aér) como arché. À primeira vista, parece um retrocesso — volta-se a um elemento determinado. Mas a inovação de Anaxímenes está no mecanismo pelo qual o ar se transforma em todas as coisas: a condensação e a rarefação.
Quando o ar se rarefaz, torna-se mais sutil e quente — produz o fogo. Quando se condensa progressivamente, torna-se vento, depois nuvem, depois água, depois terra, depois pedra. Toda a diversidade do real é explicada por variações quantitativas de um único substrato. Anaxímenes introduz assim, pela primeira vez, um mecanismo físico explícito e gradual para a transformação da arché nas coisas particulares.
O ar é também pneûma (sopro, respiração) — o que sustenta a vida. “Assim como a nossa alma, que é ar, nos mantém unidos, assim também o sopro e o ar envolvem o cosmos inteiro”, afirma um testemunho preservado por Aécio (I, 3, 4). A arché não é apenas matéria: é princípio vital.
A sequência Tales → Anaximandro → Anaxímenes mostra uma dialética interna à escola de Mileto: tese (elemento determinado: água), antítese (princípio indeterminado: ápeiron), síntese (elemento determinado com mecanismo quantitativo: ar). Cada pensador herda o problema do anterior e o reformula.
4. Variações do princípio nos demais pré-socráticos
4.1 Pitágoras e os pitagóricos (~570–495 a.C.): o número
Pitágoras de Samos e seus seguidores propõem uma arché radicalmente diferente: o número (arithmós). Para os pitagóricos, a realidade não é feita de uma substância material, mas de relações numéricas e proporções matemáticas. A estrutura do cosmos é matemática: os intervalos musicais correspondem a razões numéricas precisas (oitava = 2:1, quinta = 3:2, quarta = 4:3); os corpos celestes produzem uma “harmonia das esferas” determinada por proporções geométricas.
O princípio pitagórico não é um elemento físico, mas uma estrutura formal. O número nasce da interação entre o limite (péras) e o ilimitado (ápeiron) — ecoando Anaximandro, mas transpondo a questão para o plano formal. O par e o ímpar, o limitado e o ilimitado, geram os números; os números geram as figuras geométricas; as figuras geram os corpos físicos.
Conforme registrado por Aristóteles (Metafísica I, 5, 985b23-986a12), os pitagóricos organizavam a realidade em dez pares de opostos fundamentais: limitado/ilimitado, ímpar/par, uno/múltiplo, direito/esquerdo, masculino/feminino, repouso/movimento, reto/curvo, luz/trevas, bom/mau, quadrado/retângulo. A arché pitagórica é, assim, não uma substância, mas um princípio estrutural — a ordem matemática que governa o cosmos.
4.2 Heráclito de Éfeso (~535–475 a.C.): o fogo e o logos
Heráclito propõe o fogo (pŷr) como arché, mas de um modo profundamente diferente dos milésios. O fogo heraclitiano não é apenas um elemento material — é a expressão visível do logos (λόγος), a razão ou lei que governa todas as transformações do real.
O princípio fundamental de Heráclito é o devir: tudo flui (pánta rheî), tudo está em constante transformação. Mas esse fluxo não é caótico — é regido pelo logos, uma lei racional que opera pela tensão e pela harmonia dos opostos. O fogo transforma-se em todas as coisas e todas as coisas em fogo, num ciclo eterno que Heráclito descreve pelo “caminho para cima e para baixo” (fragmento DK 22 B 60). Segundo o fragmento B 31a, as “voltas do fogo” seguem a sequência: fogo → mar → terra (caminho descendente) e terra → mar → fogo (caminho ascendente). A sequência de quatro elementos com “ar” como estágio intermediário é uma sistematização posterior, de influência aristotélica e estoica.
A guerra (pólemos) é “pai de todas as coisas e de todas rei” (DK 22 B 53): o conflito dos opostos não destrói a ordem, mas a constitui. A harmonia do cosmos é uma “harmonia de tensões opostas, como a do arco e da lira” (DK 22 B 51). Quente e frio, dia e noite, vida e morte não são contrários que se excluem, mas pólos de uma mesma unidade dinâmica.
A arché de Heráclito é, portanto, dupla: materialmente é o fogo; formalmente é o logos. O fogo é o elemento mais mutável, o mais visivelmente transformativo — por isso é a imagem adequada para um cosmos em permanente devir. Mas o verdadeiro princípio é a lei racional que governa essas transformações.
4.3 Empédocles de Agrigento (~490–430 a.C.): as quatro raízes
Empédocles marca uma transição importante: abandona o monismo (um único princípio) e propõe o pluralismo. Não há uma arché, mas quatro raízes (rizómata): terra, água, ar e fogo. Esses quatro elementos são eternos, inalteráveis e qualitativamente distintos entre si. O que conhecemos como nascimento e morte é, na realidade, mistura e separação dessas raízes.
Duas forças cósmicas regem as combinações: o Amor (Philía) une os elementos, o Ódio (Neîkos) os separa. O cosmos oscila ciclicamente entre dois extremos: a unidade total sob o domínio do Amor (o Esfero, uma esfera perfeita e homogênea) e a separação total sob o domínio do Ódio (os quatro elementos completamente isolados). O mundo que conhecemos existe nos estados intermediários desse ciclo, conforme registrado nos fragmentos de Sobre a Natureza preservados por Simplício e Clemente de Alexandria.
4.4 Anaxágoras de Clazômenas (~500–428 a.C.): o nous e as homeomerias
Anaxágoras propõe que o princípio material do cosmos são as homeomerias (homoioméreia) — partículas infinitamente divisíveis de todas as qualidades. “Tudo está em tudo”: cada coisa contém porções de todas as outras coisas, e o que determina a identidade de algo é a predominância de certas sementes sobre as demais.
Mas o princípio motor — aquilo que ordena e inicia o movimento — é o Nous (Νοῦς), a Inteligência cósmica. O Nous é separado de tudo o mais, puro e não misturado, e é ele que inicia a rotação cósmica (perichórēsis) a partir da mistura originária indiferenciada. Platão, no Fédon (97c–99d), relata que Sócrates se entusiasmou ao ouvir que Anaxágoras atribuía a ordenação do cosmos a uma inteligência — mas se decepcionou ao perceber que, na prática, Anaxágoras recorria a causas mecânicas para explicar os fenômenos particulares. Aristóteles faz uma crítica semelhante (Metafísica I, 4, 985a18-21): Anaxágoras usa o Nous como um deus ex machina, invocando-o apenas quando não encontra outra explicação.
4.5 Leucipo e Demócrito (~460–370 a.C.): átomos e vazio
Os atomistas propõem a arché mais radicalmente material de todas: os átomos (átoma, literalmente “indivisíveis”) e o vazio (kenón). Os átomos são partículas infinitas em número, indivisíveis, eternas, qualitativamente idênticas entre si, que diferem apenas em forma, tamanho, posição e arranjo. O vazio é o espaço onde os átomos se movem.
Todo fenômeno se explica mecanicamente pelo movimento, choque e combinação dos átomos no vazio. Não há finalidade, não há inteligência cósmica, não há forças como Amor e Ódio — apenas átomos e vazio, em movimento eterno. As qualidades sensíveis (cor, sabor, calor) existem “por convenção” (nómōi); “na realidade” (eteêi), existem apenas átomos e vazio, conforme relata Aristóteles (De Anima I, 2; Física IV, 6-9) e Diógenes Laércio (Vidas, IX).
O atomismo representa o extremo da desmitologização: o cosmos é puro mecanismo, sem projeto, sem governo. Paradoxalmente, é também a arché que mais se aproxima da física moderna.
5. Arché em Aristóteles: sistematização e crítica
5.1 A Metafísica I como história da arché
O livro I da Metafísica de Aristóteles é o primeiro grande texto de história da filosofia. Nele, Aristóteles reconstrói a tradição pré-socrática como uma busca progressiva pelas causas ou princípios (archaí) da realidade. Ele organiza seus predecessores segundo o tipo de causa que cada um privilegiou:
- Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito → causa material (de que as coisas são feitas)
- Empédocles (Amor e Ódio), Anaxágoras (Nous) → causa eficiente (o que produz o movimento)
- Pitagóricos → causa formal (a estrutura ou forma das coisas)
Aristóteles observa que nenhum dos seus predecessores chegou à causa final — o para quê das coisas, o propósito ou objetivo a que tendem. É essa lacuna que a sua própria filosofia pretende preencher.
5.2 As quatro causas como reformulação da arché
A doutrina das quatro causas (Física II, 3; Metafísica I, 3) é a resposta de Aristóteles à pergunta pela arché. Para explicar completamente qualquer coisa, é preciso indicar:
- Causa material (hýlē): de que algo é feito — o bronze da estátua.
- Causa formal (eîdos/morphé): o que algo é, sua definição ou estrutura — a forma da estátua.
- Causa eficiente (tò hóthen hē kínēsis): o que produziu a coisa — o escultor.
- Causa final (tò hou héneka): o propósito para o qual a coisa existe — a beleza ou a honra ao deus.
Cada pré-socrático, na leitura aristotélica, captou uma dessas causas, mas nenhum as reuniu todas. A arché pré-socrática era parcial — uma resposta incompleta a uma pergunta que só Aristóteles formulou integralmente.
5.3 Crítica aos predecessores
Aristóteles é tanto herdeiro quanto crítico dos pré-socráticos. Reconhece que Tales inaugurou a investigação filosófica e que cada pensador subsequente avançou na compreensão das causas. Mas critica a unilateralidade de cada proposta: os milésios reduziram tudo à causa material; Anaxágoras intuiu a causa eficiente (o Nous) mas não a desenvolveu; os pitagóricos se aproximaram da causa formal mas confundiram número com substância; ninguém alcançou a causa final (Metafísica I, 7, 988a20-988b16).
Essa crítica deve ser lida com as ressalvas mencionadas na seção 2.3: Aristóteles projeta sobre os pré-socráticos categorias que são dele. Mas o valor filosófico da sua reconstrução é inegável: ao organizar a história da arché como uma progressão rumo às quatro causas, Aristóteles mostra que a pergunta pré-socrática era mais rica do que qualquer resposta individual conseguiu expressar.
6. Arché além dos pré-socráticos
6.1 Filosofia medieval: a causa prima
O conceito de arché encontra um desdobramento natural na filosofia medieval, particularmente na noção de causa prima. Tomás de Aquino, na Suma Teológica (I, q. 2, a. 3), formula a segunda via para a existência de Deus a partir da impossibilidade de uma regressão infinita nas causas eficientes: deve haver uma causa primeira incausada, que todos chamam de Deus. A pergunta pela arché transforma-se, assim, na pergunta pelo fundamento último da cadeia causal — e a resposta não é mais um elemento natural, mas um ser necessário.
Essa transposição não é arbitrária. A tradição neoplatônica (Plotino, Proclo) já havia identificado a arché com o Uno — princípio absolutamente simples, anterior a toda determinação, do qual tudo emana. A filosofia medieval cristã absorve essa tradição e a articula com a teologia da criação: a arché é Deus enquanto criador ex nihilo.
6.2 Filosofia moderna: o princípio de razão suficiente
Na filosofia moderna, a pergunta pela arché ressurge sob uma forma lógico-metafísica: o princípio de razão suficiente, formulado explicitamente por Leibniz (Monadologia, §32; Princípios da Natureza e da Graça, §7): “nenhum fato pode ser verdadeiro ou existente, nenhuma enunciação pode ser verdadeira, sem que haja uma razão suficiente para que seja assim e não de outro modo.” Todo ente deve ter uma razão — um fundamento, uma arché — que explique por que existe e por que é como é.
Descartes, por sua vez, busca a arché do conhecimento: o cogito — “penso, logo existo” — é o princípio indubitável a partir do qual todo o edifício do saber pode ser reconstruído. Kant reformula a questão em termos transcendentais: os princípios (Grundsätze) do entendimento puro são as condições de possibilidade da experiência — não princípios do ser, mas da inteligibilidade do ser.
6.3 Filosofia contemporânea: Heidegger e a questão da fundamentação
Martin Heidegger retoma explicitamente a questão da arché em vários textos, notadamente em A Questão da Técnica (1953) e no ensaio O Princípio de Razão (Der Satz vom Grund, 1957). Para Heidegger, toda a história da metafísica ocidental é a história da busca por um fundamento (Grund) — e essa busca culmina no pensamento técnico moderno, que exige de cada ente uma “razão” que o justifique, reduzindo-o a recurso disponível (Bestand).
Heidegger propõe que a verdadeira tarefa do pensamento não é encontrar mais um fundamento, mas questionar a própria exigência de fundamentação. A pergunta originária dos pré-socráticos — por que há entes e não antes nada? — é, para Heidegger, a questão mais radical da filosofia, anterior a qualquer resposta que a tradição tenha oferecido. Retornar à arché significa, para ele, não retornar a Tales ou Anaximandro, mas recuperar a abertura originária da pergunta — anterior à solidificação da metafísica em sistema de causas e fundamentos.
7. Tabela comparativa
| Pensador | Arché proposta | Mecanismo / Argumento |
|---|---|---|
| Tales de Mileto | Água (hýdōr) | Observação: tudo que vive é úmido; o alimento contém umidade; a terra flutua sobre a água |
| Anaximandro | Ápeiron (ilimitado) | Um elemento determinado não pode gerar seu contrário; o princípio deve ser indeterminado para gerar todos os opostos |
| Anaxímenes | Ar (aér) | Condensação (ar → vento → nuvem → água → terra → pedra) e rarefação (ar → fogo) |
| Pitágoras | Número (arithmós) | A estrutura do cosmos é matemática; proporções numéricas governam a harmonia musical e celeste |
| Heráclito | Fogo (pŷr) / Logos | Devir constante regido pela lei dos opostos; o fogo é o elemento mais mutável, imagem do logos |
| Parmênides | O Ser (τὸ ἐόν) | Via lógica: o ser é, o não-ser não é; o princípio é uno, eterno, imóvel, indivisível |
| Empédocles | Quatro raízes (terra, água, ar, fogo) | Mistura e separação por Amor (une) e Ódio (separa); ciclo cósmico |
| Anaxágoras | Homeomerias + Nous | “Tudo em tudo”; o Nous (Inteligência) inicia a rotação cósmica que separa as sementes |
| Leucipo / Demócrito | Átomos e vazio | Partículas indivisíveis em movimento eterno; combinações mecânicas sem finalidade |
| Aristóteles | Quatro causas (material, formal, eficiente, final) | Reformulação sistemática: explicar algo exige indicar matéria, forma, agente e propósito |
8. Conclusão: a arché como gesto inaugural
A pergunta pela arché é o gesto inaugural da filosofia ocidental. Com ela, pela primeira vez na história documentada do pensamento, seres humanos tentaram explicar a totalidade do real a partir de um princípio racional, natural e universal — sem recorrer a narrativas míticas ou a vontades divinas.
Cada resposta pré-socrática carrega uma intuição filosófica duradoura. Tales ensina que a multiplicidade pode ser reconduzida à unidade. Anaximandro mostra que o princípio não pode ser algo determinado, sob pena de não poder gerar o que lhe é contrário. Anaxímenes introduz a ideia de um mecanismo quantitativo contínuo. Pitágoras descobre que a estrutura do real pode ser formal, não material. Heráclito revela que a ordem nasce do conflito. Empédocles reconhece que a pluralidade irredutível dos elementos exige forças que os combinem. Anaxágoras separa a inteligência ordenadora da matéria ordenada. Os atomistas demonstram que o mecanicismo pode dispensar toda finalidade. E Aristóteles, ao sistematizar essas respostas parciais, mostra que a pergunta pela arché era mais profunda do que qualquer um dos seus predecessores soube ver.
A arché não é apenas um conceito histórico. É a forma mais elementar de uma exigência que atravessa toda a filosofia: a exigência de que o real seja inteligível — de que haja uma razão, um princípio, um porquê para as coisas serem como são. Essa exigência pode ser reformulada, criticada, radicalizada; mas não pode ser abandonada sem abandonar a própria filosofia. Nesse sentido, toda filosofia é, ainda hoje, uma meditação sobre a arché.